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ENTREVISTA – Produtor fala do seu filme rodado em Campinas

Para Diogo Lourenço o picho é arte e forma de protesto contra o isolamento que acomete pessoas da periferia
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Por Maria Vitória Porto e Leticia Borges

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Artista independente, Diogo Lourenço, 24 anos, é o idealizador do curta-metragem Grapixo, produção gravada no distrito do Ouro Verde, em Campinas, e contemplada pela Lei Paulo Gustavo. O filme acompanha a trajetória de Natan, um jovem de 17 anos que, junto ao amigo Galego, encontra na arte urbana um meio de escape das pressões sociais e da sensação de abandono. Entre dificuldades financeiras, escolhas arriscadas e a luta por identidade, o enredo revela como a arte pode ser tanto refúgio quanto resistência na periferia. Nesta entrevista, Diogo compartilha sua visão sobre o que é arte, fala sobre sua própria caminhada e comenta a relação entre grafite, picho e protesto social.
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Da Lei Paulo Gustavo, Diogo recebeu 55 mil reais para produção de Grapixo (Fotos: Maria Vitória Porto)


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O que você considera como arte?
Tipo, sei lá, um padeiro fazendo pão pode ser arte. Culinária pode ser arte, assim como o grafite. E ao mesmo tempo também pode ser que uma arte não seja arte. Um desenho, uma pintura, pode ser só simplesmente comercial, né? Pode ter aparência de arte, mas não é. A arte vai muito de quem está fazendo, é a intenção. Antigamente os produtos eram mais artísticos, mesmo os que eram comercializados
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Quando você quer apreciar a arte ou ouvir alguma coisa, você vai aonde?
Eu uso a internet, não sou muito de ir aos locais para fazer isso. Contraditório porque eu trabalho com isso né?
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E a sua família, como eles viam esse sonho?
Para meus pais era somente coisa de criança. A partir dos meus 16, 17 anos, comecei a ter um interesse real em vivenciar esse sonho. Eles ficaram incomodados, porque pensavam no dinheiro ou que estivesse perdendo tempo, que não daria certo. E eu entendo, porque para eles o que eu queria era muito fora da realidade. Eu até fiz um curso no Senai para agrada-los, curso de eletricista.  

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De que forma a localidade interfere na sua produção?
Eu nasci em Campinas, mas eu fui criado aqui no Ouro Verde. Eu tô com 24, vou fazer 25 anos agora, em novembro. E algo que percebo desde pequeno é que aqui a arte é muito escassa. Então, quando eu fui fazer meu curta-metragem, eu pensei muito nisso. Porque você pega outros bairros, igual o Nóbrega, que também é uma região mais periferia, mais afastada, e lá tem muita coisa de capoeira, casa de cultura. Acho que aqui é um lugar muito grande e abandonado nessa questão cultural.

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A sua arte se relaciona mais com a interpretação e produção ou você gosta de fazer grafite?
Ah, eu sou meio doido. Cada hora eu gosto de fazer uma coisa. Mas eu gosto de tudo, de música, grafite, atuar, dirigir e produzir. Eu gosto muito de ver tudo pronto.
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O que seria Grapixo, por que escolheu esse nome?
Grapixo é uma mistura de grafite com picho.  
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Você vê apenas o grafite como arte, ou picho também é arte para você e o que você pensa sobre pichar propriedade privada?  
Bem, eu vejo o picho como arte. Mas é aquilo né, tem uma galera que curte pichar em lugar que é abandonado. Já outras fazem isso em comércios e, geralmente, a maioria dos grupos não curte quem faz isso. Eu sou contra, acho vacilo, porque o cara tá trampando. Agora pichar um shopping, uma loja grande, foda-se. Porque isso é uma forma de protesto, eu acho. Não me incomoda.

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E o que se protesta quando se picha uma loja grande, por exemplo?
Eu acho que não é um protesto especificamente contra aquela loja rica. É uma raiva interna, tipo, de grandes corporações. Geralmente o pichador é um cara fodido, né. O cara pobre, de periferia. Ele pensa: ‘esse cara tem dinheiro, vai pagar, eu não tenho nada’. Na cabeça dele não tem consequência, a menos que a polícia pegue ele.

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Já pichei lugares abandonados e ônibus. Mas pichei muito pouco, eu não sou pichador. Sinto que foi algo que veio para me ajudar a produzir o curta

Diogo Lourenço


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Qual a diferença entre picho e grafite?
Grafite é algo mais trabalhado, uma pintura mais elaborada. A maior parte dos pichos são “tags”, ou seja, um símbolo dos grupos. E as vezes rola uma competição para ver quem faz mais alto. Cada clã tem uma linha de picho, tem alguns que não dá pra interpretar tão fácil, mas tem um que você olha e fala, putz, eu sei qual que é o grupo. É como marcar território
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Há rixa entre os grupos?
Geralmente não, é muito tranquilo. Mas sim, já teve época que uma galera tretou com a outra. Porque tem muito ego envolvido, né. Em toda arte tem.

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Tenho uma curiosidade, como fazem para pichar lugares tão altos?
O pichador invade, joga uma corda pela janela, amarra no colega e enquanto um segura, o outro vai pichando. Tem bastante parkour envolvido, por isso é preciso tomar cuidado com fios elétricos, pois muitos já morreram por causa de choque. Já conheci um que quando estava escalando o policial jogou a luz na cara dele com a lanterna, se assustou, acabou se soltando e morreu.
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E você acha que vale a pena correr tanto risco de vida para protestar por algo que às vezes nem se sabe pelo quê?
Não. Não vale a pena, não. Em uma das cenas para o curta, subimos em um murinho para simular um prédio, mas só de subir lá quase caímos. Eu falei: – Nossa, tá louco. Não tem condição. Muito arriscado! Alguns acham que vale a pena pela adrenalina, pelo esporte, pelo medo da polícia. Isso se torna um vício. E você vai querendo mais, mais, mais. Geralmente, é o cara que é pobre, excluído, que só quer se expressar de algum jeito. É a sua forma de protesto mesmo se colocando em risco. Porque, mano, ele se sente inútil pra sociedade, e acaba pensando: – Como que eu vou poder mostrar minha marca? Eu existo.
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E como que foi a produção do filme?
Tínhamos um ano para finalizar, mas levou cerca de 5 ou 6 meses apenas. Recebemos o investimento de 55 mil reais por meio do edital da lei Paulo Gustavo, realizado pela Prefeitura. Mesmo assim o dinheiro não foi suficiente, sai devendo 5 mil reais. Mas já consegui pagar.
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E como foi esse processo?
Eu sempre fui deixando para depois essa vontade de trabalhar com audiovisual. Quando saiu o edital, pensei ‘não vou passar nisso’, mas mesmo assim decidi aplicar. Tive dez dias para escrever. Orçamento, sinopse, roteiro, tudo eu quem fiz. Fui na raça. Algumas coisas eu sabia pela vida, mas fazer o edital eu não sabia. Porém deu certo! Passei, e isso mudou minha vida. Pois estava num período horroroso, difícil mentalmente, financeiramente, não sei se foi depressão, ansiedade, mas estava tudo ruim. Se eu não estivesse passado, não sei, talvez teria me matado.

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Como seu personagem se aproxima deste momento?
Tudo que o Natan passou era um pouco do que eu passei. Na quarentena, na época dos 17 anos eu tava muito mal. Me cortava, usava muita droga, que nem o Natan, até a cartilagem do meu nariz tava destruída de tanto cheirar cocaína.  Só a parte de vender droga com arma, eu não fiz um bagulho desses. Mas eu já vendi drogas na escola para conseguir outras. Aviãozinho, sabe?

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Existe um acesso fácil às drogas para as crianças?
É muito fácil, eu mesmo quando era moleque gostava de ir no Centro de Convivência, teve uma época que lá era um fervo. Um dia, eu e alguns amigos estávamos sentados, quando chegaram uns caras e falaram:  – Mano, dá licença aí, no lugar tinha um tablete de maconha enterrado.

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E como que você começou a usar droga?
Foi quando eu comecei a fazer Senai. Com 15, quase 16 anos. Aí comecei a ganhar dinheiro, comecei a trabalhar, e ficar muito estressado. Porque eu acordava tipo 6 horas da manhã, ia para o trabalho, depois ia para o Senai e por fim pra escola, chegava em casa 11 da noite. Acho que ninguém devia ter uma rotina tão exaustiva. Ai para relaxar, extravasar mesmo, comecei a usar.
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Quando você começou a pichar, isso tinha relação com as drogas?
Não, não. Acho que uma coisa não tem relação com a outra. Pelo menos comigo não teve. Mas claro, para outras pessoas pode ter tido, afinal, você acaba conhecendo muitas pessoas na noite. E não é à toa que que o picho, o rap, são artes de resistência. Esses grupos se ajudam a não se isolar.
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Me sinto isolado, quase segregado.
Então, é uma forma de tentar se
distanciar disso, mano

Diogo Lourenço

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Acha que isso era pela juventude, ou a classe social também colabora para evidenciar esse sentimento?
Um pouco dos dois, na época eu não tinha muito como ficar passeando, saindo com meus amigos. Não conseguia conhecer outras pessoas porque pra você sair e conhecer pessoas, você precisa de dinheiro. E isso me fazia sentir isolado até no meu próprio grupo. Não por culpa deles, ninguém tem culpa, mas era a situação em que eu me encontrava. Mesmo com o passar do tempo esse sentimento não passou, mas eu o aceitei. A única coisa que eu posso fazer é trabalhar mais, pra tentar conseguir mais dinheiro. Pra tentar sair daqui.
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E como estão seus planos para isso, outro projeto em mente?
Consegui a aprovação de um edital para produzir outro média-metragem, vai ser uma ficção sobre clima. Lembro que quando estava escrevendo, não tinha muita ideia do que fazer, e na hora estava muito calor, aqui faz muito calor, por causa da pouca vegetação. E então decidi que falaria sobre o clima. Penso mais pra frente transformar o Grapixo em longa-metragem. Muita coisa boa vem por aí.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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Segundo Diogo, o personagem interpretado por ele carrega muitos elementos de sua própria vida. À esquerda, imagem do filme Grapixo; à direita, foto de Maria Vitória Porto

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