Variedades/Cultura

Arte de rua: a expressão de um movimento urbano

Por Júlia Mendes e Victória Previdi

A arte urbana, ou street art, é uma das mais importantes manifestações culturais e sociais de um povo. Sua incidência é mais visível nas megalópoles e metrópoles e representa, predominantemente, as vozes do povo por meio de uma linguagem bastante expressiva e variada.

Com cerca de 20.000 anos de evolução cultural por trás disso, o grafite, a pichação ou street urban art foi legalizada há apenas oito anos, quando, em março de 2009, o governo brasileiro aprovou a lei 706/07 que descriminaliza a arte de rua. Essa legalização, no entanto, é consequência do interesse e consentimento da própria população: é a paisagem evoluindo em arte nas ruas brasileiras.

Bruno Pompeu, professor doutor graduado em consumo, comunicação e semiótica pela Universidade de São Paulo, pondera o impacto da arte nesse contexto urbano. “Vê-se, atualmente, street art no meio de uma grande discussão, concretizando um grande dilema ou um grande antagonismo social. Se, por um lado, muita gente acha que esse tipo de arte traz vida e alegria para o ambiente urbano, contribuindo para um cotidiano menos entristecido e embrutecido, por outro há os que enxergam na “limpeza” da cidade um sentido de melhoria, segurança e tranquilidade. A questão é complexa. Vejamos as ações do atual prefeito de São Paulo, por exemplo, de cobrir grafites com tinta cinza. Deixando de lado o paradoxo de se estar cobrindo de cinza “grafite” justamente os “grafites” que dão cor à cidade, nota-se uma movimentação em direção à limitação e ao combate desse tipo de manifestação. Mas eu acredito, sinceramente, que a arte de rua tanto mais florescerá e se fará presente, quanto mais severas se revelarem as restrições. Afinal, na sua essência, está a voz da própria rua”.

No contexto urbano, muros e paredes são telas para quem tem o anseio e afinidade com o desenho. A visibilidade dos trabalhos, que tem a cidade como galeria de exposição, fomentam o surgimento de artistas das mais variadas técnicas para a divulgação seus projetos.

Se por um lado o surgimento da arte urbana vem em forma de protesto, por outro, ela atualmente existe e visa estimular a criatividade e a consciência artística na sociedade. Tais intervenções urbanas promovem revitalização, bem-estar, e colorem os cenários acinzentados de maneira bastante original.

No Brasil, ela surge na década de 70, mais precisamente com as obras de grafite nas paredes da cidade de São Paulo. Curiosamente, emerge numa época conturbada da história do país, com o advento da Ditadura Militar. Era uma arte marginalizada, entretanto, adquiriu posição de destaque no mercado de arte, com diversos artistas do país consagrados pelo mundo. Atualmente, a arte do grafite brasileiro é considerada a vertente mais significativa de um movimento urbano global.

Uma das paredes da escola Pandora. Foto: Júlia Mendes e Victória Previdi

O grafiteiro Tiago Almeida Barreto, 31 anos, encontrou no amor pelos desenhos seu reconhecimento profissional. Conhecido por seu apelido, Ots ressalta a crescente procura por seu trabalho. “As pessoas precisam de arte para não enlouquecer. Porque a vida não basta. E estão começando a investir em arte, porque elas perceberam que tem retorno”.

Tiago Ots dá aula experimental de grafite. Foto: Julia Mendes e Victória Previdi

“Uma das coisas mais gratificantes da profissão é a liberdade quando o cliente permite que você solte sua criatividade e faça o que quiser”. Formado em Design Gráfico, o artista afirma que, apesar do privilégio de trabalhar com o que ama, também existem dificuldades. “Ainda existe esse lance da galera não saber o que é. Acham que o artista quer apenas trocar seu trabalho por divulgação. Desde que decidi trabalhar com isso, busco ser uma empresa. Tenho CNPJ, declaro nota fiscal. O custo do material é caro e a mão de obra artística não é simples. Já tive que pintar paredes há 30 metros de altura”.

O artista José Flávio Audi, de 36 anos, formado em psicologia na PUC-Campinas, afirma que a paixão pela arte começou desde cedo “Com seis anos meu pai me deu uma lata de spray, e eu escrevi no fundo de casa “José Fávio”, esqueci do L. Eu era fascinado com esse lance de spray, pichação, arte na rua. E assim, eu escolhi minha escola, primeira escola que eu estudei foi uma escola pública lá em Itapira e tinha o muro inteiro pichado e, eu achava que ali teria algo a ver com grafite. Mas, não era.”

Audi deixou seu emprego como psicólogo na Unicamp, em 2010, para se dedicar ao que realmente gostava fora do Brasil. “Minha irmã morava na Austrália, mostrou meus trabalhos lá e acabei indo. Fiquei de 2010 a 2011, 6 meses pitando, 6 meses estudando inglês. Levava meu portfólio nos lugares e oferecia minhas artes, então acabei pintando bares, restaurantes, pranchas de surf, geladeiras, lugares chiques e não chiques. E aí, nessa época, percebi que eu podia viajar para onde quisesse fazendo isso.”

Daniel Araújo de Almeida, o Dimi, um dos líderes do grupo New Family Crew, coletivo referência nas artes de rua em Campinas (SP), conta que se inspirou nos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, Os Gêmeos, reconhecidos internacionalmente “Na época, quando comecei há quase 20 anos, o grafite era marginalizado. Hoje, temos status de artistas e nosso trabalho está nas ruas, fazendo parte do cotidiano. Cada artista tem a liberdade para criar o que quiser em um espaço determinado. O estilo é livre”.

O crescimento da demanda pela street art, assim como de exposições e projetos que instiguem a sociedade, se tornaram pauta nos últimos dias devido às grandes polêmicas envolvendo obras de Adriana Varejão e diversos outros artistas. “Primeiro, acho importante diferenciarmos a arte pública da arte de rua. Hoje, pelo momento que estamos vivendo, essa diferenciação é fundamental, porque o que se está discutindo é o poder sobre a produção artística, a legitimação da arte e o acesso à arte. Confunde-se a arte pública (arte legitimada pelas instituições e pelas elites de sempre, postas em exposição pública – praças, ruas, espaços públicos) com a arte de rua (arte para ser exposta e vista na rua, criada na rua, pelos que encontram na rua o seu principal espaço referencial). De um lado, temos os artistas de rua, que expressam na própria rua – com a linguagem do grafite, da pichação, do estêncil etc. – as suas angústias, as suas concepções de realidade, as suas críticas, os seus questionamentos, as suas propostas estéticas. E, de outro, temos aqueles que, não querendo perceber que esse tipo de arte manifesta os anseios, os valores, o comportamento e a própria condição de uma grande parte da população, preferem combater, limitar, cercear e essas manifestações”, reitera Bruno Pompeu.

A necessidade da arte no cotidiano se destaca por sua unanimidade. Seja por artistas, especialistas ou toda a sociedade que nela está permeada – consciente e inconscientemente -, a expressão do subjetivo acompanha a existência humana. Qualquer resistência ou censura que surja, faz da produção urbana mais forte. Para o professor, especialista em comportamento, resta-se a tranquilidade dos fatos: “a rua ninguém cala, ninguém aniquila, ninguém faz desaparecer. A rua é o avesso da casa, como já nos ensinou Roberto DaMatta – de modo que uma não existe sem a outra. E, enquanto houver um pichador disposto a subir em um prédio e escrever a sua verdade, enquanto houver um grafiteiro que enfrente as proibições e imprima ao concreto a sua visão da realidade, enquanto houver um artista de rua que veja na cidade a tela perfeita para a manifestação dos valores que nos faltam na vida cotidiana, haverá a possibilidade da transformação social.”


Veja mais matéria sobre Variedades/Cultura

O neologismo das minorias


Empoderamento entra de vez em discursos de movimentos sociais, em especial na luta feminina


Polo de Paulínia de 470 milhões está abandonado


O complexo cinematográfico conta com estúdios de gravação, rodoviária, shopping e hotel


Volta dos vinis animam as vendas e colecionadores


O mercado de disco de vinil cresceu só em 2017, 3,1% e entusiasma as vendas


Revista Palco traz tendências de arte e cultura


Produção conta histórias e tendências referentes ao teatro, à dança e à performance


Bocha conquista novos praticantes em Campinas


Modalidade transmitida de geração para geração atrai o público jovem da cidade


Ex- alunos do Projeto Guri levam música ao exterior


Ex- integrantes do projeto compartilham o amor pela música fora do país



Pesquise no digitais

Siga – nos

Leia nossas últimas notícias em qualquer uma dessas redes sociais!

Campinas e Região


Trânsito em Campinas

Mais Acessadas

Facebook

Expediente

Digitais é um produto laboratorial da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, com publicações desenvolvidas pelos alunos nas disciplinas práticas e nos projetos experimentais para a conclusão do curso. O layout foi desenvolvido em parceria com o Departamento de Desenvolvimento Educacional (DDE) da instituição. Alunos monitores/editores de Agosto a Dezembro de 2017: Breno Behan, Breno Martins, Caroline Herculano, Enrico Pereira, Giovanna Leal, Láis Grego, Luiza Bouchet, Rafael Martins. Professores responsáveis: Edson Rossi e Rosemary Bars. Direção da Faculdade de Jornalismo: Lindolfo Alexandre de Souza.

Assinar por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar e receber notificações de novas publicações por e-mail.