O princípio do Cabrita Café é comer bem, assistir a um filme bom juntos e depois conversar livremente sobre o que foi visto
Texto e imagens: Clara Dejean
Entrar no Cabrita Café, em Joaquim Egídio, é um pouco como voltar no tempo. A casa, acolhedora e simples, lembra a sala de jantar de uma tia, onde todos se reúnem em torno de uma grande mesa. Muitas pessoas chegam ainda carregando o estresse e o ritmo acelerado do cotidiano digital. Mas saem diferentes: mais tranquilos, desconectados das telas e mais conectados às pessoas. Duas vezes por mês, esse pequeno café se transforma em um “cinema de convivência”. As sessões acontecem nas primeiras e terceiras terças-feiras do mês.
A iniciativa surgiu em 2016, no Cabrita Café, com a ideia de recriar um espaço de encontro em torno do cinema. Nesse distrito rural de Campinas existia, antigamente, um cinema local, que hoje já não existe mais. A falta desse espaço inspirou a criação dessas sessões.
Para Elaine Castro, curadora das sessões, a ideia nasceu de uma memória coletiva e do desejo de recriar um lugar de compartilhamento cultural na comunidade. “Antigamente havia aqui um espaço onde se exibiam filmes e os moradores vinham assisti-los juntos”, conta. “Não é algo grandioso, mas é o que temos: um pequeno cinema comunitário.”
Ao longo dos anos, os organizadores passaram a usar a própria coleção de filmes para as projeções. “Começamos exibindo os filmes que tínhamos em casa, sem imaginar que isso duraria tanto tempo”, explica Elaine. Hoje, depois de quase uma década de atividades, com uma pausa durante a pandemia, as sessões continuam reunindo um grupo fiel de espectadores.
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A proprietária Sandra Marques prepara e serve o jantar aos participantes após a sessão de cinema
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Segundo Sandra Marques, proprietária do café, a proposta vai além de simplesmente exibir um filme. “O mundo está muito instável e muito acelerado. Precisamos de espaços para nos encontrar e refletir juntos sobre nossa condição humana”, afirma. “Aqui não se trata apenas de assistir a um filme, mas de conversar sobre o que ele nos faz sentir.”
O projeto se baseia em uma curadoria coletiva de filmes. Os organizadores propõem obras de diferentes países e culturas: cinema italiano, produções do mundo árabe, filmes asiáticos ou clássicos internacionais. Às vezes, os próprios participantes sugerem os filmes que serão exibidos. A experiência dura cerca de quatro horas, incluindo o jantar, e recebe em média dez pessoas por sessão. A participação é acessível, com ingressos e pipoca por 20 reais e opção do jantar por 25 reais, o que ajuda a manter o clima íntimo e acolhedor.
Dependendo do clima, a sessão acontece no jardim do café, sob as árvores, ou dentro da casa. Na sala, uma longa mesa reúne todos os participantes. Muitas vezes, as pessoas se sentam ao lado de desconhecidos, mas o silêncio nunca dura muito. Depois do filme, a conversa começa naturalmente. “Gostei muito dessa cena”, comenta alguém. “Eu chorei nessa parte”, diz outra pessoa. “A forma como o diretor filmou esse momento é incrível.”
O participante Nicolas Yves diz que o ambiente descontraído faz toda a diferença. “Aqui ninguém precisa ser crítico de cinema para participar. Cada um fala o que sentiu ou o que achou do filme, qualquer comentário e participação vale”, conta.
Para Catharina Russo Mafra e seu marido, Luiz Eduardo Mafra, que frequentam o cinema de convivência desde o início, as sessões já viraram quase um ritual. “Graças a esse lugar mágico, descobrimos filmes que nunca tínhamos visto em outro lugar”, conta. “Filmes do mundo inteiro, sobre temas muito diferentes. A cada sessão, saímos daqui transformados e cheios de reflexões.”
Todos os anos, o mês de abril marca uma edição especial: os próprios participantes escolhem os filmes que serão exibidos. As sugestões vão de clássicos como Peixe Grande (Big Fish) a obras de diretores como Wong Kar-wai ou Luis Buñuel.
Depois de quase dez anos de existência, essas noites do cinema de convivência do Cabrita Café lembram algo simples: às vezes, a melhor maneira de apreciar um filme ainda é compartilhá-lo em volta de uma mesa, com pessoas que eram desconhecidas e que, por algumas horas, se tornam quase como uma família. O vídeo abaixo mostra o ambiente do Cabrita Café, a exibição do filme e o jantar compartilhado…
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SERVIÇO
O que: Sessões de filmes com jantar e roda de conversa
Onde: Cabrita Café
Endereço: Rua Dr. Heitor Penteado, 1085, Joaquim Egídio, Campinas (SP)
Quando: Primeiras e terceiras terças-feiras do mês
Horário: Recepção às 19h e início às 19h30
Entrada: R$ 20 (com pipoca) | Jantar opcional por R$ 25
Inscrições ou reservas: (19) 99165-3038
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Orientação e edição: Adauto Molck
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