Conversa comprova e valida a dor da pessoa que está enfrentando um momento de crise, explica psicóloga
Por Gabriela Monteiro e Laís Machado
“A terapia me acolheu quando eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo”, disse a estudante de direito da UEMG, Sophia Cardoso Lima Avallone, de 20 anos. Seu tratamento começou na pré-adolescência, em uma fase de mudanças e descobertas, e desde então passou a fazer parte de sua rotina. Na época, a jovem enfrentava problemas relacionados à autoestima e transtornos que mais tarde seriam identificados como neurodivergências. Sophia contou que se sentia diferente das outras pessoas e não entendia o que estava acontecendo. O tratamento foi importante para o desenvolvimento do autoconhecimento. “Me ajudou a entender que eu não era ‘quebrada’, apenas diferente!”.
A confirmação dos diagnósticos de depressão e ansiedade e o início do acompanhamento psiquiátrico marcaram uma mudança importante na vida de Sophia. A medicação contribuiu para a estabilização de seu quadro emocional, enquanto a terapia teve papel fundamental no processo de autoconhecimento, na compreensão de suas emoções e na construção de ferramentas para lidar com as dificuldades.
Casos como o de Sophia não são isolados. Segundo o estudo do Global Burden of Disease (GBD), cerca de 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos (20,91% dessa faixa etária) convivem com ao menos um transtorno mental. Dados da PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) divulgada pelo IBGE, apontam que 18,5% dos adolescentes entre 13 e 17 anos, relatam que a vida não vale a pena ser vivida.
Diante desse cenário, o diálogo pode representar um primeiro passo para que pessoas em sofrimento encontrem apoio. A psicóloga Luciane Schicchi Villegas, explicou o porquê uma conversa tem a capacidade de romper a barreira de isolamento: “A conversa permite um acolhimento imediato. Ela comprova e valida a dor da pessoa que está no momento de crise”.
Foi durante o acompanhamento psicológico que Sophia, passou a compreender melhor suas dificuldades e a perceber os impactos do tratamento em sua vida. Para ela, a diferença entre desabafar com um amigo próximo e um profissional é fundamental: “Às vezes algumas coisas são íntimas demais ou pesadas demais para se compartilhar”.

Estudante Sophia Cardoso Lima Avallone // psicóloga Luciane Schicchi Villegas (Fotos: Arquivo Pessoal)
A psicóloga Luciane revelou os sinais que devem ser levados em consideração quando uma pessoa próxima precisa de ajuda. É importante se atentar às mudanças repentinas de comportamentos e comportamentos repetitivos, como: “isolamento social, desleixo com o autocuidado, queda de rendimentos, alteração de humor, agressividade, irritabilidade, chorar sem motivo, expressões de desesperança”.
Além de perceber as dificuldades do próximo, ao acolher uma pessoa que parece estar passando por momentos difíceis, é importante praticar uma escuta ativa e sem interrupções. “Nunca force a pessoa a dizer algo íntimo, e não é necessário dar conselhos imediatos, às vezes a pessoa só desabafa e isso já promove uma segurança necessária para ela.”
Luciane ressaltou que é mais complicado conseguir ajuda, mesmo tendo consciência da necessidade. O medo de julgamento, preconceitos, fatores culturais e até mesmo crenças religiosas podem influenciar pessoas a não irem atrás de apoio. Mesmo quando não há um pedido explícito, a dor ainda pode fazer parte da vida das pessoas. “Existe um sofrimento invisível, mas real, e é necessário romper o silêncio sobre isso.”
Sophia contou que a terapia salvou a sua vida e reconheceu que ela salva a vida de muitas outras pessoas. “Desfazer esse preconceito é urgente, e cuidar da saúde mental também. Ninguém é inferior por cuidar de si, das suas relações, melhorar sua qualidade de vida e tentar se curar”, concluiu a jovem.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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