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‘Com a proibição do celular tudo melhorou na escola’

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ENTREVISTA Diretora Mara Cristina Cyrino fala dos desafios e da adaptação na implementação da nova Lei

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Para Mara Cristina Cyrino o uso do celular na aula era fator de distração (Foto: Ana Beatriz Morales)

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Por Ana Beatriz Morales e Júlia Sabatin

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A Lei nº 15.100/2025, sancionada pelo Presidente da República em 13 de janeiro de 2025, estabeleceu novas diretrizes para o uso de celulares nas escolas brasileiras, restringindo o aparelho durante o período de aulas. A medida surgiu em resposta ao aumento de distrações, queda no rendimento escolar e dificuldades de convivência observadas nos últimos anos, especialmente após a pandemia. Desde então, a lei vem transformando a rotina de estudantes, professores e gestores, que precisaram se adaptar a um ambiente mais controlado e com menos interferência tecnológica.

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Na Escola Estadual Luiz Gonzaga da Costa, em São João, Campinas, a aplicação da lei é acompanhada de perto pela diretora Mara Cristina Cyrino, de 56 anos, que está à frente da instituição desde 2003. Com mais de duas décadas de experiência na gestão escolar, ela vivenciou diferentes mudanças no ambiente educacional e observa de perto os impactos da nova restrição no cotidiano dos alunos. Mara destaca os desafios, as adaptações necessárias e os efeitos positivos da medida, oferecendo uma visão de quem lida diariamente com a dinâmica escolar e com a implementação da lei em sala de aula.

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Dia 13 de janeiro completa um ano da implementação da Lei nº 15.100/2025. Qual é a avaliação geral dos resultados sem o uso de celular nas escolas?
A avaliação é muito positiva, porque essa geração, considerando dos 7 aos 15 anos, nasceu com o celular, então é como se fosse uma extensão da vida deles, é difícil eles se desconectarem dele. Então precisou vir uma lei, uma imposição maior, para que realmente a gente pudesse se basear, porque só conversando em relação ao malefício desse uso eles não entendem tanto. Sinto que após a implementação da Lei o comportamento dos alunos melhorou muito, não só o comportamento, mas as notas também.

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Na prática, o celular, era mesmo um dos principais fatores de distração dentro da escola? Qual a mudança de comportamento que pode ser observada depois que a distração foi cortada?
Quando o aluno está com o celular ele não foca, então depois da implementação da lei eles começaram a prestar mais atenção. Entendo que acompanhar o começo, o meio e o fim da explicação do professor não é sempre legal, então sei que é muito fácil para se distrair, uma olhadinha no celular pode virar algo maior, e quando você percebe você já perdeu a sequência da aula.

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Hoje, qual é o maior desafio para manter a Lei funcionando dentro da escola, no dia a dia dos alunos?
Eu acho que o maior desafio é quando a gente pega, às vezes, algum aluno que tem alguma intercorrência e tenta burlar o sistema. No começo eles tentavam muito burlar essa lei, mas agora eles já entenderam que ela veio para ficar. Hoje eu sinto que já está se tornando supernatural o ato de não mexer no celular, assim como era antigamente, sem tanta dependência.

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Caso algum aluno seja pego mexendo no celular, como a escola age em relação a situação?
Pedimos para eles guardarem o celular, mas se eles estiverem muito viciados, guardamos o aparelho na diretoria e entregamos apenas para o responsável. Normalmente fazemos uma conversa com o aluno para que ele entenda que não pode descumprir essa regra.

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“O celular é bom, mas temos que saber o momento de usar. O intervalo é o momento de descontrair, conversar e é bom ver isso voltar a acontecer”

Mara Cristina Cyrino

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Na sua visão, o celular no ambiente escolar, ele contribui ou ele atrapalha o aluno?
Se ele for usado como uma tecnologia de extensão de trabalho ou algo nessa linha, com um acompanhamento pedagógico, ele não atrapalha, muito pelo contrário, ele vai agregar no ensino. Mas o controle tem que ser muito pontual, para que não volte a ser um mecanismo de distração. No Estado temos algumas plataformas de ensino como o Speak, o Elefante Letrado e a Sala do Futuro, então os alunos tiveram que entender que o uso do celular nesses casos é um avanço da tecnologia de ensino. É legal ver como surge aí um casamento entre a tecnologia e a educação.

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Você acha que tem a possibilidade do celular voltar às escolas? Como que você acha que pode ser?
Não sei se tem possibilidade de voltar. Sinto que a pessoa tem que ter o domínio sobre a máquina e, no momento, os alunos. Vemos que ainda falta maturidade para ter o autocontrole de estar com o celular sob a mesa e conseguir não ficar mexendo

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Houve mudança na relação entre os alunos depois da proibição dos celulares?
Sentimos muitas mudanças, um exemplo disso é o próprio horário do intervalo. Antes os alunos ficavam muito isolados, cada um no seu celular. Hoje eles brincam, conversam, jogam algum esporte na quadra do pátio. Até os alunos que eram mais tímidos tiveram que interagir e eles conseguiram isso. O celular é sim muito bom, mas temos que saber o momento de usar, o intervalo é o momento de descontrair, conversar e é bom ver isso voltar a acontecer.

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Como foi o primeiro dia sem celular para os alunos? Aquele primeiro dia da implementação da Lei.
Foi um horror! Eles duvidavam que era verdade, então muitos trouxeram o celular e ficaram mexendo normalmente. Afinal, era o costume né? Então foi um primeiro dia bem difícil, já que eles estavam pagando para ver. Eu falo que toda regra, ela tem aquele processo de adaptação. E no processo de adaptação, você tem que ter muita calma e muita tranquilidade. Trabalhei muito isso com a minha equipe e meus professores, de ter calma na hora de falar com eles, decidimos que o nosso pensamento seria “Vai ser isso só no começo, vamos lá, nós vamos conseguir!” e olha agora, conseguimos.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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