Pesquisa destaca existir uma forte ligação entre o sofrimento emocional, o discurso de ódio online e a violência extrema
Por: Malu Machado, Sophia Miranda e Gabriela Moda

Um estudo conduzido por Cléo Garcia, advogada e pesquisadora em Educação pela Unicamp, com orientação da professora Telma Vinha, analisou ataques violentos em escolas brasileiras. A pesquisa identificou 40 casos entre 2001 e julho de 2024. Trata-se de episódios planejados e executados por estudantes ou ex-estudantes da educação básica, com o objetivo de causar mortes ou ferimentos graves.
Esses eventos são classificados como “ataques de violência extrema” e se diferenciam de outras formas de violência escolar por envolverem premeditação, uso de armas e motivações ligadas a ódio ou vingança. Dos 40 casos, 31 foram ataques ativos (sem alvos específicos) e 9 foram direcionados (voltados a pessoas determinadas).
Segundo a autora, os infratores frequentemente escolhem a escola por seu valor simbólico. “A escola simboliza uma microssociedade para os adolescentes, por isso, eles tendem a tentar mudar a visão negativa que outras pessoas possam ter deles e serem lembrados como uma figura importante ao realizar ataques no lugar que marcou uma trajetória de sofrimento”, afirma Garcia.
A maioria dos agressores é composta por jovens do sexo masculino, socialmente isolados e afetados por discursos de ódio na internet. “Geralmente são meninos que têm uma família desestruturada; às vezes são até vítimas de violência ou abandono”, explica a pesquisadora.
A pesquisa também aponta o risco do chamado efeito contágio, quando a ampla divulgação de ataques pela mídia e redes sociais gera um efeito de imitação ou identificação. “É uma coisa que vem sendo gerada há anos”, afirma Garcia. Segundo ela, esses atos resultam de processos sociais contínuos e podem ser prevenidos por meio de ações coordenadas entre escolas, famílias e poder público.

Apesar da crença de que ataques ocorrem em escolas públicas com infraestrutura precária, o estudo revela que 82,92% aconteceram em instituições com nível socioeconômico médio, médio-alto ou alto. No total, 41 escolas foram atingidas: 21 estaduais, 13 municipais e 7 particulares. Duas delas eram militarizadas — e em ambas houve vítimas fatais. “A presença de agentes armados nas escolas não previne tiroteios, nem diminui o número de mortos ou feridos”, afirma a pesquisadora.
A investigação também mapeou os meses e dias com maior incidência. As segundas-feiras concentram mais ocorrências (13 casos), indicando que os fins de semana são usados para planejar os atos. Abril é um mês simbólico, por conta do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, e aparece entre os mais críticos, ao lado de março, setembro e outubro.
O levantamento traça uma linha histórica dos principais episódios, como os massacres de Realengo (2011), Suzano (2019), Saudades (2021) e Blumenau (2023). Como parte da resposta do poder público, foi criado o canal Escola Segura, que recebeu mais de 11 mil denúncias desde 2023. Entre janeiro e junho de 2024, o canal registrou 1.309 alertas.
Apesar de reconhecer avanços, Garcia afirma que as medidas ainda são insuficientes. “É necessário programas que ensinem uma convivência ética”, defende. Para ela, a escola tem papel central na prevenção da violência, mas precisa ser fortalecida com políticas públicas integradas. “Enquanto a gente não mudar essa questão de educação, será difícil mudar esses parâmetros e essa mentalidade que eles [os infratores] têm.”
Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

