Produção artesanal, polêmicas nas redes, lucros, projetos de lei e questões legais marcam o tema em Campinas e no Brasil
Por Ana Ornelas e Mariana Dadamo

“Produzir um bebê reborn é transformar em realidade o desejo que muitas crianças trazem no coração.” A frase é de Fernanda (nome fictício), artesã que trabalha com a criação dessas bonecas hiper-realistas. De casa, ela divide o tempo entre os filhos e o ofício que, segundo diz, exige técnica, paciência e talento. O trabalho também gera renda.
Mesmo sendo um mercado consolidado no exterior, o universo dos bebês reborn ainda enfrenta resistência no Brasil. De acordo com estimativas do site Business of Fashion e da consultoria IBISWorld, esse setor movimenta entre 200 e 350 milhões de dólares por ano no mundo. Apesar do crescimento, artesãs e colecionadoras relatam episódios de preconceito e ataques nas redes sociais. “Sempre elogiaram meu trabalho, mas de uns tempos pra cá, tem muita gente julgando ou debochando. Muitas produtoras, que a gente chama de ‘cegonhas’, estão sendo alvo de críticas injustas”, relata Fernanda.
Ela se refere a casos de linchamento virtual contra mulheres que produzem ou colecionam essas bonecas. Para a psicóloga Júlia Pereira, é importante evitar julgamentos simplistas. “O comportamento humano é complexo. O bebê reborn pode ser um hobby, uma forma de lidar com a solidão ou até um recurso terapêutico”, explica.
Segundo a especialista, esse tipo de julgamento costuma atingir mais as mulheres. “Na nossa cultura, o homem pode jogar futebol, videogame ou fazer cosplay sem ser criticado. Mas quando uma mulher adulta brinca com bonecas ou faz algo considerado ‘infantil’, logo aparece o preconceito”, afirma. Como exemplo, ela cita os dados da empresa Newzoo, que indicam um faturamento global de 231 bilhões de dólares em produtos voltados ao público masculino, como jogos eletrônicos e acessórios. É um número muito maior que o do mercado reborn, mas que enfrenta bem menos rejeição pública.
Estigma e mercado
Entender o paradoxo entre o crescimento desse mercado e a rejeição que ele enfrenta exige olhar para o contexto econômico e social. De um lado, há demanda e interesse. De outro, vergonha, julgamento e estigma. “Não é que as vendas estejam crescendo. O que aumenta é o constrangimento. Tem gente que entrou nessa só pra gerar engajamento na internet”, diz Fernanda.
Para a psicóloga Júlia, isso também está relacionado à forma como nos comportamos nas redes sociais. “Hoje, os likes e visualizações têm tanto peso quanto o dinheiro. Uma artesã que posta um vídeo mostrando como pinta o rosto do bebê pode ter muito alcance, mas isso nem sempre se traduz em valorização ou respeito”, comenta.
Muitas artesãs relatam que a exposição gerou mais críticas do que apoio. “Tem colecionadora que parou de comprar por medo de virar piada na internet”, conta Fernanda.
Regras e legislação ainda indefinidas
A advogada Rafaela Sacic, que atua nas áreas cível e de família, explica que a produção e venda dessas bonecas também envolvem dúvidas legais. Se forem comercializadas como brinquedos infantis, devem seguir normas de segurança do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) e da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), como evitar peças pequenas que possam causar engasgo e garantir materiais não tóxicos.

Se o produto for considerado um item artesanal ou personalizado, o consumidor continua protegido pelo Código de Defesa do Consumidor, mas há lacunas legais. “A legislação não é clara para produtos únicos. É preciso mais definição sobre os direitos de arrependimento, por exemplo”, aponta Rafaela.
Quanto ao valor dessas bonecas, ela destaca que não há controle específico sobre preços, desde que a negociação seja transparente. “O preço segue a lei da oferta e da procura. Quem compra deve estar ciente disso”, resume.
Polêmicas e projetos de lei em debate
O aumento da exposição pública e dos conflitos em torno dos reborns motivou a criação de diversos projetos de lei, tanto em âmbito federal quanto estadual. O mais emblemático é o PL 2320/2025, de autoria do deputado federal Dr. Zacharias Calil, que propõe sanções administrativas para quem usar bebês reborn para obter privilégios como atendimento preferencial, descontos ou acesso a filas e assentos reservados. A proposta prevê multas de 5 a 20 salários-mínimos, dobráveis em caso de reincidência, e tramita na Comissão de Defesa do Consumidor desde 11 de junho de 2025.
No Paraná, há ao menos quatro projetos em curso:
• O PL 329/2025, da deputada Marli Paulino, proíbe o uso de reborns para obtenção de benefícios no SUS, filas e assentos, mas sem penalidade financeira, apenas a vedação.
• O PL 331/2025, de Samuel Dantas, estabelece multas de até R$ 1.416,20 em caso de reincidência, além de possível encaminhamento ao Conselho Regional de Medicina.
• Propostas do deputado Ney Leprevost fixam multas maiores, de até R$ 2.974,02, com repasses ao Fundo da Criança e do Adolescente.
• O PL 341/2025, de Ricardo Arruda, impõe sanções mais severas, com multa de R$ 14.162, apreensão do reborn e encaminhamento compulsório para avaliação psicológica.
Casos extremos chegaram ao Judiciário, incluindo disputas por “guarda” de reborns após separações conjugais, com divisão de custos de enxovais e perfis comerciais em redes sociais. A advogada Suzana Ferreira, que atua no tema, classifica essas ações como disputas por ativos digitais, mas lembra que, juridicamente, bonecas não têm personalidade legal.
Apesar da mobilização legislativa, jornais e especialistas alertam para exageros e falta de evidências de uso sistemático de reborns para fraudar benefícios. A repercussão teria sido impulsionada por casos pontuais, como o de uma influenciadora que levou um reborn “com febre” a um hospital apenas para gerar conteúdo viral. Alguns analistas defendem que leis estão sendo criadas para problemas pouco recorrentes.
O cenário jurídico e social em torno dos bebês reborn no Brasil revela uma tensão constante entre liberdade criativa, vigilância institucional e os limites do simbólico. Se, por um lado, há espaço legítimo para o consumo afetivo e a expressão individual, por outro, cresce a preocupação com o uso abusivo de símbolos que podem ser confundidos com necessidades reais.
O acompanhamento dos projetos de lei em tramitação, sobretudo o PL 2320/2025 no Congresso Nacional, será determinante para definir o futuro legal desses objetos que hoje transitam entre o brinquedo, o artesanato e o afeto.
Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

