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Inteligência Artificial redefine ensino na Engenharia

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ENTREVISTA – Professor Pedro Fascina Casarin fala sobre os impactos das ferramentas generativas na educação

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Por Isabela da Silva e Noemi Freitas

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Em um cenário em que a inteligência artificial se torna parte do cotidiano acadêmico, professores e alunos precisam repensar seus papéis no processo de aprendizagem. Pedro Fascina Casarin, professor de Engenharia e Sistemas de Informação na Universidade São Francisco (USF), tem explorado o uso das ferramentas generativas em sala de aula e defende que essas devem ser incorporadas de forma responsável. Para ele, mais do que corrigir trabalhos, o desafio do docente é compreender o caminho percorrido pelos estudantes até o resultado final.

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Como você vê a integração da IA nos cursos de Engenharia e Tecnologia em termos de formação profissional?

A IA se tornou uma realidade incontornável, tanto na indústria quanto na educação. Hoje, é essencial que os profissionais da engenharia e tecnologia compreendam como a inteligência artificial funciona, mesmo que não sejam eles os responsáveis por construí-la. Estou desenvolvendo um componente curricular de IA aplicada à engenharia para alunos de Engenharia de Produção e Engenharia Química, justamente com esse foco. A ideia é mostrar como aplicar a IA em tarefas diversas, desde análises de dados até automação de processos e capacitar os alunos para avaliar se uma solução baseada em IA é realmente eficaz.

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De que forma a IA está modificando as práticas pedagógicas nos cursos que você leciona?

A IA tem alterado as práticas pedagógicas tanto do ponto de vista dos docentes quanto dos estudantes. Para os professores, ferramentas como o Chat GPT ajudam a simplificar explicações, criar analogias eficazes e até desenvolver materiais didáticos. Já para os alunos, a IA permite tirar dúvidas em tempo real, revisar conteúdos e praticar de forma personalizada. Um exemplo interessante foi quando precisei explicar a diferença entre IA fraca e IA forte: a IA me ajudou a criar a analogia com o Jarvis, do Homem de Ferro, o que tornou o conceito mais fácil de compreender.

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Quais habilidades ou competências você acredita que os futuros profissionais precisam desenvolver para lidar com IA?

A principal habilidade é saber usar a IA como ferramenta, não como substituto. O risco é que muitos se tornem dependentes dela e deixem de desenvolver o raciocínio próprio. Já vi situações onde um programador, com apoio da IA, entregou um projeto em oito horas que normalmente levaria três semanas. Isso é ótimo, desde que ele saiba o que está fazendo. É preciso manter o senso crítico e a capacidade de decisão independente da IA.

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Que medidas você adota em suas aulas para evitar o uso indevido de IA por parte dos alunos?

A minha abordagem é permitir o uso da IA, mas exigir que os alunos apresentem o que fizeram. Isso me permite avaliar o entendimento real por trás da entrega. Além disso, estímulo rodas de conversa e apresentações, mesmo em cursos de tecnologia, onde os estudantes normalmente têm mais afinidade com máquinas do que com pessoas. Assim, consigo perceber se o conteúdo foi compreendido ou apenas gerado automaticamente.

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Professor Pedro Fascina Casarin desenvolve materiais didáticos acadêmicos e defende uso da IA como ferramenta de apoio à aprendizagem (Foto: Isabela da Silva)

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Em sua visão, a IA pode ajudar a tornar o ensino mais dinâmico e interativo?

Sim, com certeza. A IA já tem tornado o ensino mais dinâmico, justamente por permitir consultas rápidas, personalização do conteúdo e auxílio em tarefas repetitivas. Isso poupa tempo de professores e alunos, permitindo que o foco esteja no que realmente importa: o entendimento.

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Como lidar com o desafio de avaliar o aprendizado dos alunos em um contexto em que a IA pode gerar textos e respostas automaticamente?

É um grande desafio. Já tive casos em que recebi projetos excelentes, mas fiquei em dúvida se foram feitos integralmente com IA. Outros, mais simples, foram claramente feitos pelos alunos e mostraram total compreensão. A solução tem sido exigir apresentações orais, pois a forma como o aluno explica revela o quanto ele de fato entendeu. O uso da IA exige que a régua de avaliação suba, o que também pressiona os estudantes.

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Quais dilemas éticos você observa entre os estudantes ao usar ferramentas de IA para estudos?

Os dilemas vão desde o uso sem referenciar, até a padronização das respostas. Já tive grupos que citaram o uso da IA e outros que não, embora eu soubesse que usaram. O problema é que todos estão usando os mesmos modelos, a maioria usa o Chat GPT e isso está criando um padrão hegemônico nas respostas. Além da questão ética, isso também levanta preocupações culturais, como a perda da diversidade de pensamento e expressão nas pesquisas acadêmicas.

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A IA pode reduzir o esforço humano ou tende a criar novas exigências e pressões para os estudantes?

As duas coisas. Reduz o esforço técnico, mas aumenta a cobrança por qualidade. Como as ferramentas facilitam a entrega de textos e projetos complexos, os professores naturalmente passam a exigir mais. Além disso, há o risco do viés e da variante nos algoritmos, ou seja, a IA pode enviesar as informações com base em padrões repetidos, e os estudantes acabam sendo direcionados por essas tendências, às vezes sem perceber.

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Que tipo de regulamentação ou orientação você acha importante para o uso responsável da IA em cursos técnicos?

O Brasil já está avançando com marcos regulatórios, como o da inteligência artificial. O importante é que esses documentos venham acompanhados de políticas de capacitação e incentivo à formação. Mas ainda é difícil controlar totalmente o uso da tecnologia, como foi com a internet.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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Leia também: Inteligência artificial afeta formação de universitários de Julia Ferreira

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