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Solo é importante para aliviar as mudanças climáticas

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ENTREVISTA – O matemático Vitor Hugo Miranda Mourão busca reduzir custos para medir quantidade de carbono armazenado

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Por Diogo Mosna e Larissa Idem

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Armazenar carbono no solo pode ser uma das chaves para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Embora técnica, a ideia tem aplicação prática: raízes de plantas e sistemas agrícolas capturam dióxido de carbono (CO₂) e o incorporam ao solo, ampliando a quantidade de carbono orgânico armazenado nele. É justamente a isso que o pesquisador Vitor Hugo Miranda Mourão se refere em sua pesquisa sobre estoques de carbono no solo.

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Mourão contou que a estimativa desses estoques em solo profundo foi o tema de seu mestrado, defendido em 2023 no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, ele segue como doutorando em Matemática Aplicada pelo instituto com uma pesquisa que busca diminuir os custos da coleta de amostras de solo usadas para medir o estoque de carbono.

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Desde 2019, o pesquisador é bolsista na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, instituição em que teve o primeiro contato com amostragens de carbono no solo, por meio de um projeto em parceria com a Bayer e outras entidades de pesquisa. Acompanhe entrevista com o pesquisador:

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Vitor Hugo Miranda Mourão faz pesquissa sobre estoques de carbono no solo (Foto: Larissa Idem)

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O que é estoque de carbono e por que ele é importante no contexto atual?
No contexto geral, estamos falando de mudanças climáticas, que acontecem por causa do efeito estufa, em que você tem gases na atmosfera absorvendo o calor. Na verdade, é um cálculo antigo, feito entre os séculos XVIII e XIX, de físicos e matemáticos que calcularam qual deveria ser a temperatura da Terra dada a distância do Sol. Com os estudos, foram descobrindo que esses gases que estão na atmosfera são responsáveis por esquentar o planeta. Era para a Terra ser bem mais fria do que é hoje em dia. Acontece que, naturalmente, a gente precisa ter gases de efeito estufa para ter vida, mas a humanidade está emitindo muito mais gases de efeito estufa do que o planeta aguentaria para manter a vida. Você tem carbono na atmosfera, mas não só carbono, você também tem metano. Até vapor de água causa o efeito estufa. Quando falamos de estoque de carbono no solo, estamos falando que a planta respira CO₂, só que só respirar não ajuda muito, porque quando ela morre, sua matéria orgânica é decomposta e esse gás voltam para a atmosfera.

No meu estudo, em que estamos falando de estoque de carbono no solo, a planta respira, a raiz dela penetra o solo e a matéria orgânica leva esse carbono para a profundidade. Essa matéria orgânica fica aprisionada no solo por camadas de argila, de areia e de silte, o que dificulta o acesso de microrganismos para realizar a decomposição. Isso dificulta esse carbono de voltar para a atmosfera. O solo hoje tem uma quantidade imensa de estoque de carbono. Essa é a importância do solo: mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

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Qual é a diferença entre estoque de carbono no solo e crédito de carbono?
Uma iniciativa global para tentar reduzir as emissões de gás de efeito estufa foi a criação do mercado de carbono, em que governos e sociedade vão impor limites de emissões. Ou seja, cada indústria, cada setor vai ter um limite. Bom, a indústria A tem um tanto de limite, e a indústria B tem um limite inferior. O que acontece? Criou-se esse mecanismo de mercado para que a indústria que emite mais e não vai conseguir reduzir tanto a emissão consiga pagar para a indústria que consegue reduzir rapidamente a emissão, a fim de balancear. Ou seja, no geral, todo mundo dá uma reduzida, só que alguns setores não conseguem reduzir tão rapidamente quanto outros. O crédito de carbono surge daí.

Hoje no mundo, o crédito de carbono corresponde ao setor de energia, por causa da queima de carvão, de gás, de petróleo. O Brasil, em questões de energia, não é um grande emissor. A gente tem muita energia hidrelétrica, então, o Brasil tem um grid energético mais sustentável. Em secas, acabamos ligando termelétrica, mas a questão do Brasil é agricultura, que tem um grande potencial de emissão de gás de efeito estufa. Quando a gente fala de crédito carbono no Brasil, o maior mercado seria o mercado agrícola.

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Em que aspecto o mercado de carbono se distingue do mercado tradicional?
Diferente de um mercado tradicional, em que temos um produto que pode ser vendido e entregue, no mercado de carbono o produto é informação, porque o estoque de carbono no solo não vai ser removido e enviado a algum lugar. Ou seja, estamos quantificando informação e quantificar essa informação é um trabalho mais complexo porque exige métodos mais acurados. Então, a remuneração por aumento do estoque de carbono pode ser essencial para que possamos utilizar métodos mais acurados, geralmente mais caros, e conseguir garantir, de fato, que estamos aumentando o estoque de carbono, garantindo uma margem de erro aceitável.

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Programas de crédito de carbono podem se tornar vantajosos economicamente para agricultores?
Os ganhos em produtividade, o acesso a crédito bancário e governamental e a resiliência a eventos extremos podem ser os principais fatores de interesse para os produtores em um primeiro momento. De fato, a existência de um mercado de crédito de carbono no setor agroambiental, a depender do preço do carbono, pode cobrir os custos de amostragem e análise, trazer rendimento extra para cooperativas, projetos e programas que agregam vários produtores – pequenos, médios e grandes – e, no fim, vir a ser útil na redução das emissões de cadeias produtivas de alimentos. A meu ver, é superimportante que tenhamos programas desse tipo aqui no Brasil.

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A estratégia de enterrar carbono atmosférico no solo como forma de compensação é capaz de resolver completamente os efeitos das mudanças climáticas?
Não resolve. O problema são as termoelétricas jogando CO₂ na atmosfera, queimando carvão. Existem técnicas hoje que aumentam o acúmulo de carbono no solo e não só servem para mitigação global de emissões de efeito de gás de efeito estufa, mas também para aumentar a produtividade do solo. Isso é importante dizer, traz segurança hídrica e vários benefícios. Métodos como plantio direto e plantio de cobertura permitem maior acúmulo de estoque de carbono no solo. Sobre esse acúmulo, cada hectare equivale a uma tonelada de carbono por ano em média. No Brasil, com o tamanho que tem, qual é quantidade de hectares que ainda não fazem esse tipo de prática sustentável? Quando você usa os recursos de fazendas e pastos em todo mundo, com práticas sustentáveis, você mitiga 30 anos de emissões.

Vai resolver o problema? Não vai, porque se a gente continuar soltando gás de efeito estufa igual hoje nos próximos 30 anos, você só jogou para frente o problema. O que se espera, pelo que eu tenho lido e entendido, é que essa prática vai dar tempo para a gente encontrar outras soluções e as indústrias se adaptarem.
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“Os solos também vão ficar mais resilientes às mudanças climáticas, permitindo até uma maior garantia de segurança alimentar” 

Vitor Hugo Miranda Mourão

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Na sua tese você apresenta dados extraídos de amostras de solos de algumas fazendas. Como foi o processo de coleta e análise desses números?
Na verdade, são feitas amostras de solo em milhares de fazendas do território nacional. Eu estou lá na Embrapa desde 2019, entrei como estagiário e surgiu esse projeto, em que fui colaborador. O projeto se chama PRO Carbono, um programa da Bayer em parceria com a Embrapa e outras universidades. O intuito é justamente levar o produtor a uma consultoria: “olha, você pode fazer uma prática sustentável que vai melhorar a sua produtividade também”. Futuramente, quem sabe a gente possa negociar crédito de carbono. Milhares de produtores brasileiros já estão envolvidos nesse projeto e são feitos lá as amostras em campo. Essas amostras são coletadas, levadas ao laboratório, são feitas análises e gera um conjunto de dados. Eu tive acesso ao conjunto de dados dentro dessa parceria. 

E pode não parecer, mas abrir buraco é caro. Eles vão nessas fazendas, abrem buracos de até um metro de profundidade e, para abrir uma trincheira de um metro de profundidade, na verdade, tem que abrir mais, porque tem que caber uma pessoa ali dentro para descer com um anel volumétrico e ir removendo as amostras de solo. É um buraco grande que também atrapalha a logística da fazenda.

No meu mestrado, especificamente, abrir buracos de um metro em milhares de fazendas no Brasil inteiro era inviável economicamente, porque você tem uso de máquina e de trator. A minha análise foi tentar encontrar uma relação com o estoque de carbono em camadas mais superficiais para a gente conseguir prever ou estimar carbono em camadas mais profundas. Ou seja, vamos abrir até 40 centímetros e o resto a gente prevê usando um modelo. Nesse caso, na minha eu usei o modelo de regressão, que se mostrou bem acurado. Óbvio, depende dos limites de apuração dos protocolos, mas dá para usar o estoque de carbono em superfície para prever o resto. É bom ter uma ou outra para comparar e ver se o método ainda continua eficaz, mas talvez não precise abrir milhares de buracos de um metro pelo país inteiro.

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O que encarece a medição do estoque de carbono em camadas mais profundas do solo?
Medir o estoque em profundidade (trincheiras) seria caro porque, além de ser caro abrir buraco, para abrir uma trincheira é necessário movimentar maquinário pesado, o que por si só deixa a operação mais cara. Mas também estamos coletando mais amostras, e aumentam os custos de transporte, logística, armazenamento e laboratorial de análise dessas amostras. Sem contar processos de preparo da amostra e custo de pessoal técnico especializado em análises laboratoriais.

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Por que a amostragem física em campo ainda é essencial para mensurar os estoques de carbono no solo, mesmo com o avanço das tecnologias?
É um processo que, independente do objetivo, se estamos querendo medir o estoque de carbono no solo para averiguar se está aumentando, tem que ser feito com medidas em campo hoje em dia. A tecnologia por satélite ou sensoriamento remoto ainda está no começo e ainda não é tão eficiente. Protocolos do mundo inteiro, quando se trata de mercado de carbono em solo, falam de amostragem física. Então, tem que ir abrir buraco e é caro. Quanto mais a gente consegue reduzir os custos de abrir e fazer essa amostragem, mais popularizado fica e mais pessoas podem participar desse mercado e contribuir com a mitigação dos gases de efeito estufa.

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Quais são os principais desafios enfrentados no desenvolvimento diário dessa linha de pesquisa?
Eu estou mais na área de ciência de dados, sou da matemática, não sou agrônomo, apesar de ter uma grande curiosidade na área ambiental e sustentável. Então, sobre desafio, na minha parte é realmente conseguir ter um experimento a longo prazo. Esse experimento que eu estou falando começou em 2020, é bem recente.

Na Escócia, o pessoal da empresa foi visitar uma universidade e encontraram experimentos que estão acontecendo desde mil oitocentos e pouco. São experimentos com quase 200 anos e o maior que a gente tem no Brasil está fazendo cinco anos agora. E você precisa ter dados, senão você não consegue acompanhar.

Nesse caso, o projeto fez algumas amostras para fazer a comparação, mas o interesse deles é o produtor. E a área nativa, de quem que é o interesse? A empresa privada vai se preocupar? Tem um limite de preocupação, então a sociedade deveria se preocupar, deveria entrar o governo para fazer um acompanhamento de áreas nativas. Talvez um acompanhamento de áreas por biomas e fazer um banco de dados nacional disso. Eu acho que o desafio nessa parte que estou trabalhando em ciência de dados é este: ter um banco de dados nacional para poder fazer o acompanhamento.

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Já podemos ver os impactos dos resultados da pesquisa sobre a dinâmica do carbono para agricultores, empresas e instituições?
Na minha tese o impacto é a redução dos custos de abrir trincheiras, se for verificado, porque não basta só a minha tese ter verificado isso no primeiro ano, tem que continuar confirmando esse resultado por todos os outros anos para garantir que dá para usar.

Confirmado isso, então você pode realmente passar a aplicar o resultado e reduzir custos de amostragem, podendo ampliar o projeto. O interesse de ampliar o projeto é ter mais produtores com práticas mais sustentáveis, em que os solos deles vão sequestrar mais carbono, colaborando com a meta de mitigação de gases de efeito estufa. Os solos também vão ficar mais resilientes às mudanças climáticas, permitindo até uma maior garantia de segurança alimentar. Não vai resolver o problema, mas pode ajudar.

A gente vê que mudanças climáticas e eventos extremos, iguais ao que aconteceu no Rio Grande do Sul, podem afetar pastagens e plantações. Então, quando o produtor também adota essas práticas sustentáveis, ele acaba tornando o seu solo mais resiliente, o que também pode ajudar nesse caso. Cada um vai colaborando com um grãozinho de alguma coisa, assim, quem sabe, a gente resolve o problema lá na frente.

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Como você enxerga o futuro do estoque e dos créditos de carbono para a sustentabilidade?
A questão do crédito de carbono no solo é uma questão um pouco mais complexa no Brasil. A gente está falando de grandes fazendeiros e de grandes proprietários de terra, que o lucro deles comparado com o que eles podem ganhar com crédito de carbono é muito grande. Estariam fazendo quase que de apoio à causa do que especificamente por lucro. Quando a gente trata de empresas de energia, talvez faça uma grande diferença, mas para o agricultor brasileiro não sei se ainda é muito relevante pensar em crédito de carbono.

É relevante pensar em crédito bancário, quando ele faz empréstimo, quando ele tem apoio de programas do governo para plantio e colheita. Se isso está conectado com um acúmulo de estoque de carbono ou com práticas sustentáveis, aí sim pode fazer uma grande diferença. Agora, eu acho que o crédito de carbono estava na casa de 50 euros a tonelada do carbono e a gente está falando de uma tonelada de acréscimo, em média, por ano, por hectare. Então, um cara com 100 hectares, fazendo umas práticas sustentáveis, vai ganhar cerca de 5.000 euros. O ganho dele maior vai estar na produtividade e na resiliência. Com certeza ele vai ganhar se está aumentando o estoque de carbono. É importante acompanhar para garantir que ele está aumentando e tendo esses ganhos.

Eu acredito que o mercado de crédito de carbono para o solo no Brasil vai acontecer. Eu acho que a os produtores menores talvez tenham mais interesse, mas acho que o acompanhamento do carbono vai acontecer independentemente de mercado ou não, por todas essas questões. Tanto o crédito no banco, com o governo, com programas governamentais e com mercado de crédito de carbono. Acho que isso vai generalizar no Brasil e a gente vai precisar ter cada vez mais o acompanhamento dos estoques de carbonos no solo.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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