Região amplia número de reservatórios, reforça redes e aposta em barragens para enfrentar futuras estiagens prolongadas
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Por Igor Souza Ribeiro do Val e Pietra Mesquita
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Com um investimento próximo de um bilhão de reais, governos locais e estaduais apostam em grandes obras como barragens e reservatórios para garantir o abastecimento de água para mais de 5,5 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Campinas (RMC).
A intensificação das mudanças climáticas e o crescimento populacional têm pressionado os sistemas hídricos da região. Segundo o Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas (Ciiagro), Campinas viveu em 2023 a pior seca desde 2014. Até setembro, foram registrados 543,7 milímetros de chuva, valor próximo à marca histórica da pior estiagem em uma década.
As cidades da RMC estão localizadas nas bacias hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari, Atibaia e Jundiaí (PCJ). Esses cursos d’água são as principais fontes de abastecimento da região. Em períodos de seca, a redução das chuvas afeta diretamente o volume disponível para consumo.
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Segundo o professor Antônio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp, os municípios que dependem exclusivamente de mananciais locais sem reservatórios são os mais vulneráveis, uma vez que não têm como armazenar água nos períodos de estiagem. “Esses municípios têm recorrido com mais frequência ao racionamento e ao rodízio de água”, explica.
Diante desse cenário, prefeituras e o governo estadual aprovaram investimentos que ultrapassam os R$ 900 milhões, incluindo as barragens de Pedreira e Duas Pontes, em construção desde 2018 e retomadas em 2023. Essas estruturas devem começar a operar até o final de 2026, com financiamento do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).
O governador Tarcísio de Freitas afirmou que o crescimento populacional e a distribuição irregular das chuvas tornam essencial a ampliação da capacidade de reservação de água. O prefeito de Campinas, Dário Saad, também reforçou a importância da medida, informando que a cidade passará a ter um segundo ponto de captação de água. Segundo ele, isso aumentará a segurança hídrica de um município que hoje abriga mais de 1,1 milhão de habitantes.
A Sanasa (Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento de Campinas) apresentou o projeto Campinas-Jaguari, que prevê uma nova estação de captação de água no rio Jaguari, com capacidade para retirar até 2 mil litros por segundo. O sistema inclui adutoras, estação elevatória e estação de tratamento, com uma rede que será integrada ao macrossistema já existente.
Além das barragens, Campinas está construindo 20 novos reservatórios urbanos, com investimento de R$ 117,6 milhões. O objetivo é ampliar a capacidade de armazenamento de água tratada, passando dos atuais 142 milhões para 196 milhões de litros em 95 unidades. Embora o cronograma inicial previsse a conclusão das obras até o final de 2024, apenas dois reservatórios estavam finalizados até o momento. A nova estrutura permitirá manter o abastecimento por até 20 horas, mesmo em caso de interrupções temporárias.
O planejamento para a localização dos reservatórios considerou densidade populacional, consumo médio, perdas na rede e disponibilidade hídrica local. Entre os bairros contemplados estão o Jardim Chapadão, Nova Europa, Ponte Preta, Cidade Satélite Íris, Sousas, Vila Joaquim Inácio, entre outros.
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Ainda como parte das ações estruturantes, a Sanasa substituiu 473 quilômetros de redes antigas por tubulações mais duráveis. A redução de perdas por vazamentos, segundo a empresa, evitou a retirada de 669 bilhões de litros de água dos rios da região, volume suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes por 40 anos. A empresa também destaca que Campinas possui um dos menores índices de perdas no país, com 18 por cento contra uma média nacional de quase 40 por cento.
As barragens de Pedreira e Duas Pontes, além do armazenamento, exigem compensações ambientais. Por determinação da CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), o projeto prevê o plantio de 700 mil árvores em áreas de preservação, totalizando quatro vezes a vegetação removida. Na barragem de Pedreira, 78 por cento da meta já foi alcançada, enquanto Duas Pontes atingiu 75 por cento.
Foram também implementados 25 programas socioambientais, entre eles campanhas educativas sobre dengue e febre maculosa, com ações em escolas e comunidades.
Apesar do esforço governamental, especialistas alertam para a persistência de ciclos prolongados de estiagem. O professor Zuffo lembra que situações semelhantes ocorreram entre 1936 e 1975, com períodos de até 30 anos de chuvas reduzidas.
Além do impacto doméstico, a escassez de água compromete a produção agrícola e industrial da região, afetando diretamente o desempenho econômico. Essa situação evidencia a importância de políticas públicas sustentáveis e de longo prazo.
Organizações civis, como o coletivo Olho d’Água Campinas, denunciam a falta de participação popular nas decisões sobre obras hídricas. “As audiências públicas são mal divulgadas, técnicas demais e ocorrem em horários inviáveis”, afirma Luciana Andrade, integrante do grupo.
A educação e a conscientização da população também são fundamentais. O professor Zuffo destaca o potencial de uso das águas da chuva para fins não potáveis, como limpeza de quintais e irrigação de plantas. Ele alerta, porém, que essa água carrega impurezas e não é segura para o consumo humano. Para beber, o ideal é utilizar água tratada, filtrada ou fervida.
Em meio às incertezas climáticas, garantir o acesso contínuo e sustentável à água é mais que uma medida técnica. É um compromisso social, econômico e ambiental com as próximas gerações.
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Edição: Murilo Sacardi
Orientação: Prof. Artur Araújo

