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SUS oferece tratamento inovador para mulheres com endometriose

Especialistas analisam como novas terapias conseguem interromper a progressão da enfermidade, garantindo o bem-estar e a segurança da paciente

Por Juliana Lamussi e Arthur Veltmeyer

O tratamento da endometriose no SUS ganhou reforços importantes com a chegada de duas novas terapias hormonais: o DIU de levonorgestrel (um tipo de progesterona), e o desogestrel. Essas opções ampliam o arsenal da rede pública, que já oferece um cuidado multidisciplinar combinando analgésicos, anti-inflamatórios e terapias hormonais tradicionais. Em casos mais graves, o protocolo inclui desde técnicas minimamente invasivas, como a videolaparoscopia, e procedimentos definitivos, como a histerectomia (remoção do útero), indicada apenas após rigorosa avaliação médica.

O DIU hormonal (dispositivo intrauterino) impede a gravidez agindo diretamente no ambiente uterino, geralmente sem impossibilitar a ovulação. Já o desogestrel é um anticoncepcional oral que é ingerido de forma contínua (minipílula) e atua inibindo a ovulação, o que dificulta a progressão da doença e reduz as dores. 

“O uso dessas medicações tem como objetivo principal o controle dos sintomas, mas também controlam a progressão da doença. Infelizmente não causam regressão ou desaparecimento das lesões prévias de endometriose, daí a importância do diagnóstico precoce possibilitando iniciar o tratamento o quanto antes” aponta a ginecologista e obstetra, Maria Carolina Polo, 54. Ademais, a médica diz que não há risco para problemas cardiovasculares e trombose, pois não tem estrogênio sintético como componente. Ela aponta que estes tratamentos são métodos anticoncepcionais, em consequência disto, impedem a gravidez, sendo importante tratar para a diminuição do risco de infertilidade.

Médica Maria Carolina Polo explica sobre a endometriose (Foto: Juliana Lamussi)

A biomédica e professora da PUC-Campinas, Carolina Fernanda Silveira, 48, declara quais são os principais indicadores que a biomedicina monitora para garantir que o uso contínuo desses hormônios seja seguro para a paciente. “Essas medicações são controladas inicialmente pela própria indústria farmacêutica que os produzem. Na área biomédica, o profissional de saúde deve realizar o controle das dosagens hormonais de forma regular, o que indica o efeito das respectivas medicações “, relata.

Ela diz ainda que a combinação do dispositivo de barreira com o hormonal, no caso do DIU, não é um avanço recente, mas foi uma ideia sensacional que resolveu muitas questões em um único material: impedir gravidez, impedir a ovulação e controlar a endometriose. A biomédica afirma que no caso do desogestrel, não há influência no período de lactação, sendo administrado às mulheres em uma fase tão delicada e importante quanto a recuperação da saúde reprodutiva feminina, além de não prejudicar a rotina sexual do casal. “O mais importante nesta temática é não nos esquecermos que as medicações não têm o mesmo efeito nos indivíduos, ainda que administrados de forma correta”, relata.

Carolina Fernanda Silveira comenta o uso da Desogestrel (Foto: Juliana Lamussi)

Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de oito milhões de brasileiras estão diagnosticadas com endometriose. O diagnóstico da doença ainda é tardio, ocorrendo, em média, sete anos após a manifestação dos primeiros sinais. O tratamento da endometriose pode ser iniciado mesmo sem a confirmação por exames de imagem ou cirurgia, porque o diagnóstico pode ter como base os sintomas, como dor pélvica crônica, cólicas menstruais intensas e dor durante as relações sexuais.

O Projeto Saúde das Mulheres foi desenvolvido na área do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), que nomeia profissionais de saúde no Brasil para o diagnóstico e tratamento da doença. A ação busca planejar uma linha de cuidado e aumentar o acesso ao atendimento especializado. A endometriose influencia em diferentes áreas da vida da mulher, incluindo saúde mental, vida sexual, relações pessoais, trabalho e renda.

Nesse contexto de integração, a médica Daniela Angerame Yela Gomes, 51, afirma que, embora não tenha o dado exato do tempo de espera das UBS para o atendimento no CAISM – Hospital da Mulher (Unicamp), realiza anualmente um curso de capacitação sobre endometriose para os médicos das unidades básicas de Campinas. O objetivo é orientar e melhorar o diagnóstico e o tratamento das mulheres atendidas nas unidades básicas de saúde.

De acordo com a médica, que atua no Departamento de Tocoginecologia da Unicamp, o tratamento inicial utilizado no CAISM é sempre o medicamentoso, e que “segundo os guidelines [diretrizes] a indicação cirúrgica é falha no tratamento medicamentoso, ou presença de lesão que pode comprometer a funcionalidade do órgão ou quando há suspeita de malignidade no caso da endometriose ovariana”, descreve.

“As mulheres são tratadas por uma equipe multidisciplinar e desta forma temos seguimento com psicólogos e fisioterapeutas o que contribui para uma melhor qualidade de vida para estas mulheres. O perfil de mulheres atendidas pelo serviço são pacientes com casos mais avançados de endometriose. O serviço tem um ambulatório que funciona semanalmente toda sexta feira e atende em média 20 mulheres por semana”, afirma a médica Daniela Angerame Yela Gomes sobre o perfil de pacientes e os serviços do CAISM.

Daniela Angerame Yela Gomes comenta do ambulatório de endometriose do CAISM (Foto: Arthur Neri)

Helena Reis, 38, foi diagnosticada com endometriose e relata que “utilizei o DIU mirena, pelo plano de saúde. Eu não consegui me adaptar e digo que foi a pior decisão que eu tomei na minha vida. Foi indicação do ginecologista, porém as informações foram totalmente incoerentes. Eu fiquei com aquilo por oito meses, e foi horrível. Muita dor física, espinhas e digo que até tive depressão. Fiquei tão mal psicologicamente que eu não me alimentava e tive desnutrição.” Ela declarou que atualmente não faz uso de nenhum medicamento, sendo que após a cirurgia para a retirada das lesões, melhorou as dores.

Na entrevista, Helena disse que o diagnóstico ocorreui depois de sua gravidez, que não foi planejada, além de não ter tido problemas durante a gestação. Ela decidiu retirar o útero por conta do mioma, tendo sido informada sobre a preservação da fertilidade, porém foi uma decisão pessoal de não querer mais ter filhos.

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Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Eloah Dias

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