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OPINIÃO – Rebecca Navarro constrói uma história memorável que nos lembra que a poesia é a linguagem universal
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Por João Praxedes
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Em Nosso Amigo Gaivota, a escritora Rebecca Navarro entra no mundo da ficção científica para um público juvenil. Embora a premissa envolva viagens no tempo, planetas distantes e o destino da humanidade, o verdadeiro motor da obra não é a tecnologia, mas a sensibilidade. A aventura dos irmãos Luna, Júlio, Leo e do misterioso alienígena Gaivota serve como palco para uma experiência literária que se destaca pela prosa poética, uma voz narrativa singular e a construção lisérgica de mundos.

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Tudo começa com a descrição do narrador sobre a origem dos protagonistas, seus gostos, suas individualidades e suas funções no sítio em que a família mora. Em seguida, a história se desdobra a partir do encontro das crianças com o ser de outro mundo, quando nos é revelado que não se trata de um alienígena, mas sim de um humano de milhares de anos no futuro que colonizou outro planeta (não é spoiler, isso é entregue a nós logo na primeira interação de Gaivota com o trio) e que voltou no tempo porque precisa de ajuda para cumprir “O Plano” nas palavras dele. A partir daí, os quatro amigos entram em uma viagem insólita que pode resultar na salvação (ou destruição) de ambos os mundos.
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O que chama a atenção logo nas primeiras páginas é o estilo de narrar da autora. Diferente de obras do gênero que se preocupam excessivamente com a física ou a mecânica das coisas, a autora empresta seu olhar de poeta para a história. As descrições não servem apenas para situar o leitor no espaço, mas para trazer sentimentos à tona.
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A maneira como ela descreve as situações foge do literal. O texto é carregado de metáforas, personificações e de uma suavidade rítmica, transformando cenas de tensão ou descoberta em quadros quase pintados com palavras. É uma ficção científica “humanizada”, onde a descrição de um sentimento tem tanto (ou mais) peso do que a descrição de uma nave.
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Talvez o aspecto mais acolhedor do livro seja a escolha do narrador. Temos aqui um narrador onisciente, mas ele está longe de ser uma voz fria e distante que apenas relata fatos. Pelo contrário, a leitura traz a sensação de estarmos sentados ouvindo um amigo contar uma história com direitos a comentários e piadas irônicas sobre as situações narradas.
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Esse narrador possui personalidade própria. Essa quebra da “quarta parede” literária cria uma relação de cumplicidade imediata com o leitor. Ele nos pega pela mão e diz: “Vejam só o que eles fizeram agora”, tornando a experiência de leitura menos solitária e muito mais íntima.
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É impossível não destacar a construção do planeta Alana. Quando a narrativa nos transporta para o futuro da humanidade, não encontramos as cidades de aço e vidro típicas do sci-fi cyberpunk, nem a fantasia medieval clássica. Alana é construída com a matéria dos sonhos. Navarro cria uma atmosfera de estranheza fascinante que parece ter saído de um sonho (não pela fantasia, mas pela bizarrice apresentada, no bom sentido). As descrições desse mundo seguem uma lógica onírica, onde as cores, as formas e a natureza parecem funcionar em uma frequência diferente da Terra. Ler sobre Alana é como ter um sonho lúcido: tudo é estranho, mas, ao mesmo tempo, faz todo o sentido emocionalmente.
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Nosso Amigo Gaivota é uma obra que usa o futuro para falar sobre o coração humano. Com sua prosa lírica, um narrador que se torna nosso amigo e um mundo que flerta com o surrealismo, Rebecca Navarro constrói uma estreia memorável que nos lembra que, mesmo a anos-luz de distância, a poesia é a linguagem universal.
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Ficha Técnica
Título: Nosso Amigo Gaivota
Autora: Rebecca Navarro Frassetto
Lançamento: 2024
Editora: Edição da Autora (Independente)
Número de Páginas: 207
Gênero: Ficção Científica / Fantasia
Preço estimado: 20 reais – e-book
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Orientação e edição: Adauto Molck
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