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ENTREVISTA – Com trajetória marcada por independência, desafios e força a campineira se encontra no epicentro da funk
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Por João Gabriel e Maria Eduarda Matoso
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A DJ Pétala está como um dos nomes mais expressivos da nova geração de DJs de Campinas, ocupando um espaço que, por muito tempo, foi monopolizado por artistas homens. Em alguns anos ela se destacou por construir uma identidade musical própria, marcada pela mistura entre relíquias do funk, influências de R&B, Afrobeats, Rap e referências femininas que a inspiram desde a adolescência.
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Seus sets (conjunto de músicas que destaca o trabalho de mixagem e produção do DJ) carregam ritmo, força e autenticidade. São feitos para cantar, dançar, suar e viver a pista com intensidade. Talvez seja por isso que o público cresça a cada apresentação. Ao longo de sua trajetória, a artista enfrentou obstáculos comuns às mulheres que tentam ocupar espaços na música eletrônica e no funk, mas transformou cada dificuldade em combustível para seguir em frente.
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Da infância marcada pelos sons dos bailes próximos à casa da avó até as aulas de discotecagem que mudaram o rumo de sua vida, Pétala construiu sua carreira com determinação. Em meio a mudanças, inseguranças e a transição para a independência como artista, ela encontrou no palco um lugar de afirmação e venceu o Red Bull Turn It Up, competição que se tornou um divisor de águas em sua carreira. Hoje, a DJ se prepara para novos passos, incluindo o lançamento do próprio evento autoral em 2026, reafirmando sua posição como uma das vozes mais influentes da cena campineira. Acompanhe a entrevista:
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Pétala foi motivada por artistas locais e segue inspirando novos talentos (Fotos: Maria Eduarda Matoso)
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Qual é a melhor parte de estar na cena de DJs de Campinas?
Campinas vive um momento histórico. A cidade se tornou uma potência do funk, muito por causa da Submundo e da cultura local que se estruturou. Estar aqui agora é ter sorte: é estar no epicentro de um movimento que finalmente ganhou espaço e projeção. Eu me sinto muito privilegiada por ser parte disso.
Quero que as pessoas percam a noção do tempo. Que vivam intensamente, como se fosse o melhor momento da semana. Quero que sintam que valeu a pena estar ali. Que saiamos todos renovados. Meu compromisso é com a cura pelo movimento pelo rebolado, pela vibração, pelo canto.
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Qual é seu lugar favorito em Campinas para buscar inspiração?
A Estação Cultura, especialmente quando tem evento. Eu não gosto de multidões, mas lá eu sinto a cena viva, pulsando. Também me inspiro muito nos estúdios e audições, onde os artistas se encontram para conversar, trocar referências e criar. Esses espaços me ajudam a entender como a galera está pensando, produzindo, evoluindo. Eu não sou muito de sair para ouvir música, geralmente escuto mais em casa, mas quando vou procurar inspiração de verdade, eu busco pessoas, não só lugares.
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Qual foi seu primeiro contato significativo e sua maior conquista profissional?
Uma aula aberta no Kardume. Foi a primeira vez que entendi discotecagem como prática e técnica. Depois fiz aulas particulares, porque queria aprender de verdade. Ali eu percebi que a música podia ser mais do que hobby.
Minha maior Conquista foi ganhar o Red Bull Turn It Up. Eu estava perdida, achando que não ia dar conta de ser independente. Treinei como nunca. E ganhar me deu um gás absurdo. Abriu portas, trouxe visibilidade, mudou minha vida. É a prova de que eu não devo parar.
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Recentemente você comentou que ouve músicas que vão de R&B a Dancehall e afrobeat. Por quê?
Esses estilos têm me alimentado musicalmente. O R&B, por exemplo, me dá referências de melodia. O dance hall traz cadência, groove. O Afrobeat me dá inspiração rítmica. Todo DJ precisa de repertório emocional, não só técnico. E, quando você trabalha com funk todos os dias, ouvir outras coisas é quase uma forma de sobreviver criativamente. Isso me mantém saudável, e inspirada.
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Você leva suas vivências para o palco? O que te levou a querer ser DJ?
Levo muito. Minha infância foi marcada pelos bailes perto da casa da minha avó. Eu cresci ouvindo funk, absorvendo batidas, letras e energia. Isso se moldou em mim. Então quando estou no palco, não tem como separar a DJ da menina que cresceu nesse ambiente. Eu não vou tocar coisas que não conversam com minha história. Funk é identidade. Funk é território. Tudo isso aparece no meu set.
E comecei a querer essa vida por causa da DJ Ray. Quando eu era adolescente, com 14 ou 15 anos, via ela tocando e pensava: ‘Cara, mulheres fazem isso também’. Os line-ups eram praticamente todos masculinos, e isso mudou muito pouco. Eu não comecei pensando em carreira; comecei por curiosidade, por vontade de aprender. Só depois virou trampo. Mas, desde sempre, o machismo é claro: homens nos veem primeiro como mulheres antes de ver como artistas. Eles não comentam nas nossas publicações, não impulsionam nosso trabalho, não nos elogiam em público… mas no off vêm falar que ‘somos braba’. Eu entrei preparada para essa resistência, e decidi não deixá-la me impedir.
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Que estilo de set você mais gosta de tocar? O que costuma ouvir quando não está trabalhando?
O set ritmado. Ele traz músicas conhecidas, letras que a galera canta junto. Eu gosto dessa sensação de construir a vibe aos poucos, trazendo o público para perto. Não dá pra chegar com os dois pés no peito, colocando só bruxaria pesada logo de cara. A pista é construção. Ritmado funciona sempre.
Quando estou na boa ouço qualquer coisa menos funk. Não porque eu não goste, mas porque, se eu ouvir só funk, eu piro. Quando viajo com meu namorado, que também é meu produtor, a gente coloca playlists totalmente aleatórias, de Disney até R&B. Também tenho escutado muito rap, dancehall, afrobeat. Isso me ajuda a descansar o ouvido e, ao mesmo tempo, traz novas ideias para a minha estética.
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Existe algum artista que é referência constante?
Sim. No R&B, estou ouvindo muito Leon Thomas. No afrobeat, amo a Yana Camura, uma artista preta francesa incrível, inclusive estou tentando aprender francês por causa dela. No Brasil, consumo muito artistas mulheres: Budah, Duquesa, Júlia Costa… eu faço questão de ouvir mulheres, porque gosto de trazer isso para o meu trabalho. É sobre fortalecer e ser fortalecida.
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Como você descreveria a vibe do seu set?
Vibe de liberdade. Quero que o público faça o que sentir vontade: rebolar, dançar, cantar, gritar. Eu acho essencial que as pessoas cantem. Muitos DJs colocam músicas só de batida, e isso não é minha estética. Eu gosto de misturar relíquias com músicas atuais. Quero que o público sinta que está vivendo algo que não é só som, mas memória também.
Gosto quando a pista está perto. Quando dançam de frente pra mim. Quando cantam mais alto do que o retorno. Quando o público bate leque, grita, rebola, vibra. Se a pista dispersa no meio do set, algo saiu errado. O público te mostra tudo: aprovação, dúvida, cansaço. É só observar.
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Você tem algum ritual antes de começar o show?
Tenho. Quando estou nervosa, eu dissocio. Digo a mim mesma que quem vai entrar é a DJ Pétala, não eu. Ela é segura, forte, destemida. Ela não tem medo de técnico de som nem de homem nenhum. Eu preciso dessa persona para conseguir subir no palco diante de milhares de pessoas. É meu alter ego.
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Qual foi o maior desafio da sua carreira até agora?
Sair da agência onde fiquei quase dois anos. Eu tinha medo de ficar independente, de não conseguir datas, de ter que cuidar de tudo sozinha. Pensei até em parar. Mas sair foi libertador. Eu aprendi que a zona de conforto é confortável, mas limita. Hoje vejo que foi a melhor decisão que tomei. Agora estou preparando meu próprio evento. Já está pronto nome, identidade visual, perfil no Instagram. Só falta revelar. Em 2026, ele sai. É meu grande sonho.
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Qual a sua ‘identidade’ na música?
Graves fortes, kicks marcados, músicas de mulheres, alta vibração. Gosto de som que faz o corpo responder, que faz sair energia acumulada. Minha música é sobre potência, sobre viver e sobre alegria. A energia vem das relíquias. Sempre funcionam. Quando misturo uma música antiga com um beat atual, a pista reage na hora. A memória musical conecta as pessoas. Sou chata com métrica e tempo. Se algo dropa no lugar errado, eu refaço tudo. Quero que tudo faça sentido musicalmente.
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Como você organiza seu set e mantém a criatividade?
Penso na casa, no público, nos outros DJs, na faixa etária. Um show não é igual ao outro. Cada evento tem sua energia e sua identidade. Criatividade é exercício, não inspiração divina. Nem sempre vai sair algo bom, e tudo bem. O importante é se permitir criar.
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O que mudou desde o início da carreira?
Hoje eu tenho mais noção do mercado e do meu valor. Já entendi que muitas pessoas tentam se aproveitar de artistas novas. Hoje sei me posicionar, sei o que quero e, principalmente, o que não aceito mais.
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DJ Pétala se apresentando no Red Bull Turn It Up – uma batalhas de DJs em formato de mata-mata
(Foto: Maria Eduarda Matoso)
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Orientação e edição: Adauto Molck
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