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OPINIÃO – Com Tentativas, cantora explora amores efêmeros e autoconhecimento, unindo influências sonoras diversificadas
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Por João Viana
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Natural de Campinas (SP), AIKA estreia com Tentativas, um EP que funciona menos como uma coleção de faixas e mais como um diário emocional. Uma obra construída à medida que a própria artista mudava, amadurecia e se entendia enquanto mulher, rapper e compositora. Exceto por Amor de Quinta, todas as músicas partem de vivências reais, situações antigas e sentimentos que permaneceram como feridas abertas até ganharem forma em letra e melodia.
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A escrita, para AIKA, é quase um mecanismo de sobrevivência. A artista se identifica com o verso do rapper BK, “Sempre que eu seguro o choro vira música”, frase que resume a força catártica que atravessa o EP. Quase sempre, as canções surgem do que está engasgado, das emoções que extravasam de maneira abrupta, direta, crua.
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Em termos estéticos, AIKA já demonstra consciência de suas raízes. No rap, suas referências são Emicida e Don L, especialmente pela capacidade que ambos têm de imprimir alma na escrita, uma profundidade que vai além da técnica. Fora do rap, a artista bebe da irreverência indomável de Rita Lee, da força urbana do Charlie Brown Jr., da densidade espiritual de O Rappa e da pulsação contagiante de Bob Marley, que ecoa discretamente na leveza rítmica de algumas faixas.
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O EP se abre com Amor de Quinta, única faixa que não nasce de vivências pessoais, mas que apresenta a estética híbrida de AIKA, um R&B suave misturado com a cadência do rap melódico. A letra fala de um romance com data de validade: “só por uns dias sou sua conquista”. A artista abraça a efemeridade sem julgamento, usando a delicadeza como força, numa linhagem que remete tanto à vulnerabilidade de Drik Barbosa quanto ao lirismo direto de Duquesa.
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Logo em seguida, Bruja marca uma virada. É a faixa mais experimental do EP, e um dos pontos altos — ao dialogar com elementos do R&B contemporâneo, referências latinas e trechos cantados em espanhol que ampliam a fluidez vocal da artista. “Vai pensar em mim antes de dormir”, canta AIKA, criando um clima de encantamento que mistura sensualidade, misticismo e autonomia feminina. Aqui, a artista mostra domínio estético e versatilidade. A dualidade presente na faixa, entre magia e desejo, entre luz e sombra, aproxima AIKA de um terreno explorado por artistas como Bivolt e até nomes internacionais do soul alternativo, mas sem deixar de preservar sua identidade local e íntima.
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Ontem aprofunda a narrativa emocional. Aika canta a ressaca dos erros repetidos, aquela racionalização comum que diz “não vai acontecer de novo”, mesmo sabendo que vai. A sonoridade desacelera, abrindo espaço para uma reflexão madura sobre ciclos amorosos que insistem em se repetir. A entrega vocal aqui revela uma honestidade que dialoga com Emicida em seu modo de registrar fragilidade, mas com um timbre próprio, mais sutil e melódico.
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Com Lábia, o EP temporariamente abandona o universo romântico para mergulhar em uma crítica ao discurso vazio, tanto nos relacionamentos quanto no mundo ao redor. Trabalhada em rimas intercaladas (ABAB), a faixa evidencia outra camada da artista: a que observa, analisa e rejeita promessas vazias. É uma música que ecoa a força do rap de mensagem, aquela linhagem inaugurada por Racionais, mas com uma estética mais melódica, próxima da Nova MPB e do R&B.
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Encerrando o EP, O que cê faria retoma a introspecção e conclui o arco narrativo da maneira mais honesta possível: com uma pergunta. A presença de outra voz (@ferreiracesar) amplia a sensação de diálogo, quase como uma cena dramatúrgica sobre escolhas e responsabilidades afetivas. Se “Amor de Quinta” inicia o ciclo no exterior,o outro, o desejo, a conquista, “O que cê faria” fecha dentro: AIKA olha para si, para sua história e para suas próprias tentativas.
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Com Tentativas, AIKA se insere na nova safra de artistas mulheres que vêm deslocando as fronteiras do rap brasileiro. Ela não busca apenas rimar: busca narrar sensações, desmontar expectativas, costurar influências múltiplas sem perder a alma, exatamente o que tanto admira em Emicida e Don L. Suas referências, que vão de Rita Lee ao reggae de Bob Marley, aparecem não como citações, mas como atmosfera: o espírito livre, a espiritualidade, a mistura entre melodia e fala, entre canto e confissão.
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Tentativas é um EP que não quer ser grandioso. Quer ser verdadeiro, e é justamente nisso que reside sua força. Aika surge como uma voz que ainda está se descobrindo, mas que já entende profundamente o que significa transformar dor, erro e memória em música.
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FICHA TÉCNICA
Obra: Tentativas
Artista: Aika
Compositora: Aika
Lançamento: julho de 2025
Gênero: R&B
Produção artística: Cezar Ferreira
Foto da capa: Maria Eduarda Matoso
Selo: KL Música
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Orientação e edição: Adauto Molck
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