Em um ambiente hiperconectado, a nostalgia tem mudado a forma como jovens consomem mídias
Por Maria Fernanda Esmeriz
Cybershots, discos de vinil, calças cintura baixa, remakes de filmes e novelas
clássicas. O consumo do vintage tem roubado a cena, deixando as tendências
passageiras de lado.
Apesar da possibilidade de experimentar um pouco de cada década na palma da
mão, a geração Z, aqueles nascidos entre 1995 e 2010, tem buscado formas mais
táteis de consumir mídias como a música e a fotografia, por exemplo.

A estudante de direito Melissa Fernandes, 20, tem como paixão a fotografia
analógica e diz que, para ela, o interesse vem do desejo de desacelerar. A espera
pela revelação da foto é algo que a atrai. “Todo esse processo da filmagem antiga
ser registrada, toda a química, que acontece na câmera – não tem nada igual, são
momentos únicos”, relata.
Fã de ouvir música à “moda antiga”, Larissa Idem, 26, estudante de jornalismo,
compartilha que sua relação com discos de vinil vem desde pequena. Hoje, tem sua
própria vitrola e coleção de discos, e conta que o mais interessante de ouvir música
neste formato é a possibilidade de apreciar a obra completa de um artista. “No
disco, a gente não tem a opção de pular a música. Você ouve o disco na ordem que
o artista propôs, inclusive as músicas que você não gosta. E aí, depois, tem que
virar o disco para ouvir o lado B. De certa forma, me dá um pouco mais de
proximidade com o artista”, explica.
Tanto Melissa quanto Larissa não tiveram dificuldade de se definirem como
nostálgicas, e afirmam que o gosto e a curiosidade por itens do passado vieram da
família e têm raízes afetivas. “Eu cresci ouvindo discos. Foi um hobby herdado pelo
meu pai”, recorda a estudante de jornalismo. Já Melissa cresceu com as câmeras
de sua mãe, mas também destaca o papel da série “How I Met Your Mother” no seu
interesse pelo analógico. “É a minha série favorita. Na abertura aparecem várias
fotos analógicas e, para mim, essa introdução mostra uma das representações da
fotografia: momentos únicos, amigos, familiares, e tal.”
Filmes recentes com algum tema histórico também caem nessa rede, como foi o
caso de “Ainda estou aqui” (Salles, 2024), que conta uma história que ocorreu
durante o período da Ditadura Militar. Com o lançamento do filme, veio o boom dos
plays na música tema, “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de Erasmo Carlos. A
geração Z despertou grande interesse pelo longa, assim como pela trilha sonora.
Esse fenômeno foi algo que levou o público jovem às lojas de discos, como a “Fifo
Discos”, de Afonso Cappellaro. Afonso, 41, conhecido como Fifo, é radialista e dono
de uma loja de vinis, localizada no Jardim Guanabara, em Campinas. Ele diz que o
sucesso de produções como “Ainda estou aqui” levam pessoas que nasceram
depois do vinil a esse universo, e recorda: “De repente, um monte de jovem
começou a se interessar pelo disco do Erasmo. Também teve uma música da Kate
Bush, que estava na [série] Stranger Things. O disco passou a ser super procurado
também.”

Afonso complementa afirmando que o público jovem sempre esteve presente em
sua loja de discos, e conta que o espaço é, muitas vezes, um encontro de gerações.
“Eu acho interessante ver como uma loja de discos mistura as pessoas. Você vê o
moleque que veio comprar um disco novo do Post Malone trocando ideia com o cara
que tá comprando um Soul & Jazz. E o cara falando, ‘Pô, isso aqui é legal também’,
sabe? Tem uma interação ali”, destaca.
O exemplo trazido pelo radialista, a série Stranger Things, não é só uma produção
de ficção científica e suspense, mas um apelo sensorial de um passado em que o
consumo midiático e cultural era algo não-imediato, mais tátil e, por isso, talvez mais
memorável. Ela foi construída com ritmo mais lento e uma forte valorização dos
laços entre amigos, da vida off-line e da descoberta do mundo por conta própria.
Assim, a nostalgia se manifesta não apenas como saudade de uma estética, mas em
uma maneira de viver e consumir cultura. O revival dos itens analógicos seguem o
mesmo sentimento, da busca por desacelerar e se reconectar com experiências
genuínas.
Nesse contexto, a psicóloga Leda Marques explica que a nostalgia serve como uma
forma de escapismo do mundo atual, um lugar confortável e seguro, diferente do
futuro, que é incerto e gera medo. “As memórias e o desejo de viver outros tempos
traz para a geração Z uma autenticidade. Isso pode influenciar na busca de
experiências concretas e conexões mais verdadeiras”, afirma.
Numa realidade hiperconectada e pós-pandêmica, como a atual, o contraponto para
as incertezas do futuro e os impactos das tecnologias digitais pode estar em um
consumo midiático menos frenético e mais enraizado no presente.
Ao adotar objetos analógicos, a geração Z não busca apenas reviver o passado,
mas recorrer a um refúgio, um conforto, em meio ao caos da realidade. Eles
carregam pausas, rituais e silêncios que contrastam com a pressa e a ansiedade do
agora.
Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Bianca Freitas

