Com o avanço do projeto, coletivos e conselhos patrimoniais discutem o futuro de um dos bens tombados mais simbólicos de Campinas
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Por Aline Assis
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Com o avanço do projeto Trem Intercidades, previsto para ligar Campinas a São Paulo, o destino da Estação Cultura, patrimônio tombado e polo cultural da cidade desde 2001, entra em disputa. A reestruturação necessária para receber os trilhos coloca em choque modernização e preservação, enquanto coletivos artísticos e conselhos patrimoniais cobram clareza sobre o futuro do espaço.
As discussões sobre a ampliação de linhas férreas ligando a capital paulista ao interior já se tornaram um caso antigo no estado. A movimentação em torno do Trem Intercidades foi acesa há mais de uma década, mas ganhou força somente no início de 2024, quando o Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) realizou o leilão que concedeu o consórcio para a empresa C2 Mobilidade sobre Trilhos. Enquanto os planos do Governo do Estado são conectar e modernizar as metrópoles, uma questão se levanta em relação ao Patrimônio Histórico de Campinas: como revitalizar um bem tombado, respeitando os limites de restauro e utilização de seus espaços?
Para que o projeto avance, o complexo, que hoje é um vibrante polo de cultura e economia criativa, precisará passar por uma profunda reestruturação. A incerteza sobre o destino dos atuais ocupantes e a necessidade de preservar a memória do local incitam o debate entre poder público, conselhos e a comunidade que dá vida à antiga estação. Contudo, ainda não há um posicionamento claro do consórcio sobre as próximas etapas do projeto ou como a integração com o patrimônio será conduzida.
A Secretaria de Planejamento Urbano, uma das envolvidas no processo, explica que o foco está em compatibilizar o novo traçado ferroviário à realidade urbana já consolidada. “Precisamos aproveitar o fluxo de pessoas que o Trem Intercidades vai gerar para fomentar o uso qualificado da área ao redor”, afirma a pasta.
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Em paralelo, um estudo técnico em parceria com a PUC-Campinas propõe transformar o hub principal em um centro de inovação e tecnologia. A proposta, além do uso como plataforma de embarque e desembarque, são áreas voltadas à startups e ao comércio. O historiador Antonio Henrique Felice Anunziata, responsável técnico da CONDEPACC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas), considera o projeto viável e destaca como essencial “que os prédios sejam restaurados e tenham utilização dos espaços”.
Apesar das promessas, a falta de diálogo é uma crítica recorrente. Roberto Carlos Gonzaga, b-boy do grupo Los Peda’s 019, que treina na estação desde 2017, expressa a angústia dos coletivos. “Nada foi passado para nós em relação aos benefícios. Se a prefeitura quiser desocupar tudo para colocar a estação do trem, vai destruir uma cultura que existe aqui desde 1900 e pouco”, lamenta.
A Estação Cultura não é apenas um ponto de encontro local. Hugo Xavier, também do Los Peda’s 019 e morador de Hortolândia, destaca sua importância regional. “A maioria das pessoas nos eventos vem de fora. Descem na rodoviária e em cinco minutos estão aqui. Se mudar o local, vai precisar de Uber e de gastos a mais”, explica, ressaltando a acessibilidade que pode ser perdida.
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Procurada, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo (responsável pelo Trem Intercidades) não respondeu às tentativas de contato. Já a Secretaria Municipal de Cultura, embora tenha retornado, não se manifestou sobre as perguntas relativas ao futuro dos grupos culturais que ocupam a Estação Cultura.
Enquanto o projeto do Trem Intercidades avança, a Estação Cultura se encontra em uma encruzilhada. A cidade enfrenta o desafio de conciliar a inevitável modernização com a preservação de sua memória viva, garantindo que o progresso não apague as histórias, as lutas e a identidade cultural que transformaram a antigaestação ferroviária em um território de todos.
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Contexto histórico do patrimônio
A antiga estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, inaugurada em 1884, foi tombada em 1982 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT). Após o fim do transporte ferroviário em 2001, o espaço foi rebatizado como Estação Cultura “Prefeito Antônio da Costa Santos”, prefeito assassinado, responsável por idealizar o projeto de revitalização e, desde 2012, seus barracões se tornaram palco para coletivos como a Sala dos Toninhos, dedicada à memória dessa figura campineira que marcou a história local.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana e Ana Elisa Desiderá
