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Silêncio letal: como a mídia trata a morte de mulheres

Apenas 20% dos assassinatos de mulheres foram noticiados; estudo aponta omissões, viés racial e revitimização na mídia

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Por João Bertuzzo, Caique Amorim e Eduardo Tolentino

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Entre os anos de 2000 e 2019, Campinas registrou 560 homicídios de mulheres. No entanto, apenas 113 desses casos foram noticiados por veículos de imprensa digital, o que representa 20,2% do total. Esses dados fazem parte de uma pesquisa da doutora Thamiris Gomes Smania, que investigou como a mídia abordou essas mortes e de que forma essa cobertura, ou sua ausência, interfere na percepção pública sobre a violência de gênero. Embora o feminicídio só tenha passado a ser reconhecido legalmente como uma categoria específica de homicídio a partir de 2015, com a Lei nº 13.104, a pesquisa considera o conjunto das mortes para avaliar se a motivação de gênero foi identificada ou ignorada pela imprensa.

Nem todo homicídio de mulher é classificado como feminicídio. Este termo refere-se ao assassinato motivado por razões de gênero, como o ódio, o controle ou a discriminação contra a vítima. A partir dessa distinção, a pesquisadora passou a concentrar sua análise na forma como os meios de comunicação reconhecem, ou não, essa dimensão nas notícias.

“Eu comecei a estudar os casos de feminicídio em 2019, e a ideia de estudar a mídia surgiu de uma inquietação pessoal. Sempre gostei de acompanhar os casos na televisão, mas, por questões logísticas, a mídia online se tornou uma fonte mais acessível e interessante para a pesquisa”, explica Thamiris.

Embora o projeto inicial tenha sido voltado à cobertura televisiva, especialmente em programas como Cidade Alerta, a investigação acabou se concentrando no conteúdo digital, por oferecer maior volume de dados e facilidade de acesso.

Cobertura tímida mesmo após a Lei do Feminicídio

A aprovação da Lei do Feminicídio deveria, em tese, promover maior visibilidade ao tema. De fato, houve aumento no número de reportagens a partir de 2015. No entanto, Thamiris aponta que o uso do termo “feminicídio” ainda é escasso. Muitas matérias não mencionam a lei ou não caracterizam os crimes como motivados por desigualdade de gênero.

“Em mais da metade dos casos, as notícias não mencionam a Lei ou não caracterizam o crime como feminicídio”, afirma a pesquisadora.

Essa omissão compromete o entendimento da sociedade sobre a natureza dessa forma de violência, que é estrutural e não meramente circunstancial.

Narrativas que culpabilizam a vítima

A pesquisa identificou que as reportagens frequentemente apresentam motivações atribuídas ao agressor, como ciúmes ou traição, sem questionar essas justificativas. Esse tipo de abordagem contribui para a chamada revitimização, que é quando a vítima é, direta ou indiretamente, responsabilizada pelo crime sofrido.

Além disso, poucas reportagens incluem informações úteis às leitoras, como a existência de políticas públicas ou canais de apoio e denúncia. É raro, por exemplo, encontrar menções à Lei Maria da Penha ou aos telefones 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 190 (emergência policial).

“É uma falha da mídia não dar visibilidade a esses canais. Mulheres que estão em situação de violência podem ler essas notícias e não saber como buscar ajuda”, alerta Thamiris.

Invisibilidade racial e desigualdade de cobertura

A pesquisadora também observou um viés racial na cobertura. Em Campinas, os homicídios de mulheres negras receberam ainda menos atenção da mídia. Apenas 20% desses casos foram noticiados. Esse dado expõe a atuação do racismo estrutural, termo que descreve formas históricas e institucionais de discriminação racial,  inclusive nos critérios editoriais dos veículos de comunicação.

Manchetes que ocultam o agressor

Segundo Thamiris, a maioria das manchetes adota estruturas na voz passiva, o que acaba obscurecendo a responsabilidade do agressor. Expressões como “mulher é encontrada morta” são comuns, enquanto o agente do crime permanece invisível.

“Muitas vezes, as mulheres são retratadas de maneira despersonalizada, como ‘mulher encontrada morta’, sem destacar a ação criminosa do agressor”, observa.

Esse padrão de linguagem contribui para naturalizar a violência e impede que a sociedade reconheça o assassinato de mulheres como um problema social mais amplo.

A função social da mídia diante da violência de gênero

Ao concluir o estudo, Thamiris sugere que a mídia precisa ir além da simples noticiabilidade e adotar uma postura mais crítica, comprometida com a informação e a prevenção. A superficialidade na cobertura, ao tratar os crimes como fatos isolados ou “crimes passionais”, enfraquece o entendimento do feminicídio como uma manifestação de desigualdade.

“A mídia tem uma função social de informar e orientar. É necessário que, além de noticiar, ela inclua informações sobre as políticas públicas e os canais de denúncia”, conclui.

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Edição: Murilo Sacardi

Orientação: Prof. Artur Araújo

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