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Campinas desacelera criação de empregos formais em 2025

Especialistas veem aumento da rotatividade, vínculos instáveis e juros altos como entraves à qualidade das contratações

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Carteira de Trabalho Digital: símbolo da formalização em tempos de vínculos instáveis e crescimento lento do emprego.
 (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Por: Gustavo Seneme, Marcos Rossi e William Castro

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O mercado de trabalho formal em Campinas segue positivo em 2025, embora em ritmo mais lento. De janeiro a abril, foram registradas 93.710 admissões e 86.014 desligamentos, o que gerou um saldo de 7.696 empregos com carteira assinada. No mesmo período de 2024, esse número foi maior: 8.566 novas vagas. Os setores de comércio e serviços continuam liderando a geração de empregos, enquanto a indústria apresenta queda progressiva na abertura de postos.

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Segundo os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), embora o saldo seja positivo, há um crescimento expressivo nas contratações temporárias e intermitentes. Essas formas de vínculo, previstas por lei, oferecem menos estabilidade e garantias ao trabalhador, o que levanta dúvidas sobre a qualidade dos postos criados.

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Fonte: Caged (Gráfico criado via Livegap.Charts)

“Gerar vagas não significa garantir boas condições de trabalho”, afirma o professor Daniel Morelli, especialista em carreira. “Muitas dessas contratações envolvem salários abaixo da média e ausência de benefícios, especialmente fora da indústria”, acrescenta.

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A economista Eliane Navarro Rosadinski, professora da PUC-Campinas, relaciona a desaceleração no ritmo de geração de empregos a fatores econômicos amplos. Ela destaca o impacto das taxas de juros elevadas (como a Selic, definida pelo Banco Central), que têm como objetivo controlar a inflação, mas reduzem os investimentos e, consequentemente, a criação de vagas.

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“Quando o crédito fica mais caro, as empresas adiam seus planos e o consumo diminui. Isso afeta o mercado de trabalho quase de imediato”, explica Eliane.

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Além disso, ela aponta efeitos de decisões internacionais, como as medidas protecionistas recentes do governo Trump nos Estados Unidos, que criaram instabilidade no comércio global. Campinas, por ser um polo industrial e tecnológico, sente diretamente esses impactos.

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Estabilidade em queda

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Apesar dos números positivos, especialistas alertam que a natureza dos empregos formais está mudando. “Temos mais contratos temporários e intermitentes, o que indica perda de estabilidade”, afirma Eliane.

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O economista Fabrício Pessato, professor da Saint Leo University, concorda e cita setores sensíveis aos juros, como a construção civil, que depende de crédito para crescer. “Quando os financiamentos ficam caros, as vendas de imóveis caem e, com isso, diminui também a demanda por trabalhadores nesse setor”, afirma.

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No entanto, Pessato observa que a construção civil em Campinas ainda apresenta certo dinamismo, reflexo de uma retomada gradual após crises anteriores. Ele ressalta que o setor de serviços, especialmente comércio, tecnologia da informação, comunicação e atividades imobiliárias, tem mostrado resiliência. “Essas áreas conseguem se adaptar mais rápido às mudanças econômicas e ao perfil dos consumidores”, diz.

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Em contrapartida, a indústria de transformação tem dificuldade para manter sua força de trabalho. “Esse setor é muito sensível a oscilações globais e a custos internos, como energia e folha de pagamento”, afirma o professor.

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Precarização preocupa

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A economista Eliane também se mostra preocupada com o avanço de modelos de contratação flexibilizados, que se tornaram mais comuns após a reforma trabalhista de 2017. “O aumento de contratos temporários, terceirizados e intermitentes reduz a segurança do trabalhador, comprometendo seu bem-estar”, alerta.

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Ela observa que a rotatividade no mercado formal de Campinas é alta, o que mostra um cenário de instabilidade. “As empresas ajustam suas equipes com frequência, promovendo demissões e novas contratações para reduzir custos. Isso gera insegurança”, afirma.

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O professor Pessato reforça que modelos como o MEI (microempreendedor individual) e a pejotização (quando o trabalhador é contratado como empresa) também crescem. Embora sejam legais, essas formas reduzem os direitos trabalhistas tradicionais e podem mascarar situações de informalidade.

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A própria Secretaria Municipal de Trabalho e Renda reconhece o problema. Em nota, informa que “o mercado de trabalho ainda se expande, mas com maior rotatividade e em ritmo mais lento”. Segundo a pasta, o crescimento de admissões pode refletir substituições frequentes de pessoal, sem necessariamente representar geração líquida de novos empregos.

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Desafios para o futuro

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Apesar das dificuldades, especialistas consideram que Campinas mantém um potencial econômico importante. “A cidade tem setores tradicionais que ainda contratam com carteira assinada, mas também adota novas formas de trabalho”, observa Pessato.

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Ao analisar os dados, os entrevistados apontam que a atual configuração do mercado local reflete uma fase de transição, marcada por recuperação lenta, transformação nas relações de trabalho e influência de fatores externos. Eliane resume: “Crescer o emprego formal não significa, necessariamente, melhorar as condições de vida. É preciso olhar para os contratos, os salários e os direitos.”

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Pessato conclui que políticas públicas bem direcionadas serão fundamentais para garantir empregos de melhor qualidade. “Investir em qualificação profissional, apoiar setores estratégicos e proteger os direitos trabalhistas são caminhos para enfrentar esse cenário com mais equilíbrio e justiça social”, afirma.

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Edição: Nicole Heinrich

Orientação: Artur Araujo

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