Ciência e Tecnologia

Baixo letramento em saúde afeta opção de pacientes

Estudo investiga se abordagens médicas com radiofármacos são impactadas por baixo letramento e desinformação no câncer

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Romulo Santana Osthues é jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural e doutor em Linguística (Foto: Fábio Santos)

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Por Ana Beatriz Morales, Bianca Freitas e Júlia Sabatin

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No Brasil, o termo “radiação” ainda desperta medo. Muitos pacientes com câncer rejeitam terapias que envolvem radiofármacos por associarem essas substâncias a armas nucleares ou a desastres como Chernobyl. Essa rejeição decorre, em grande parte, da desinformação e do baixo letramento em saúde, ou seja, da dificuldade de compreender e utilizar informações médicas, especialmente aquelas divulgadas na internet.

.Um estudo em andamento, publicado no suplemento especial da revista ‘Hematology, Transfusion and CellTherapy’ (Volume 47, Suplemento 1, maio de 2025), busca analisar como essa barreira compromete o acesso da população ao modelo Teranóstico, uma abordagem da Medicina Nuclear que utiliza radiofármacos tanto para diagnosticar quanto para tratar diversos tipos de câncer.

.“Quanto menor o letramento em saúde, maior a chance de a desinformação atingir essa população, e isso impacta diretamente decisões sobre a doença”, explica Romulo Osthues, jornalista científico e pesquisador de pós-doutorado no CEPID CancerThera – um centro de pesquisa sediado na Unicamp que desenvolve metalofármacos e radiofármacos aplicáveis no modelo Teranóstico.

.Segundo Osthues, as pessoas temem que, ao receberem um radiofármaco, passem a “irradiar” outras pessoas, o que não é verdade. Ele esclarece que a radiação utilizada nesse modelo é mínima e desaparece, normalmente, em poucas horas ou dias, a depender do radiofármaco utilizado. “É preciso lembrar que a radiação está presente em elementos do cotidiano, como o sal de cozinha e até uma banana, e não é toda forma de radiação que faz mal. Os radiofármacos são manipulados e administrados aos pacientes por profissionais especializados”, completa.

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.Ciência, comunicação e regionalidade
Para especialistas como Osthues, combater a desinformação exige mais do que repetir dados técnicos. É preciso empatia, sensibilidade e adaptação à realidade local. “Falamos muito sobre como as coisas funcionam, explicamos que é dessa forma ou de outra. Mas, diante das informações equivocadas e falsas que circulam, precisamos enfrentá-las e esclarecer: não é bem assim, não funciona dessa maneira”, diz.

.Ele destaca ainda que o papel do jornalista vai além da divulgação. É preciso atuar como mediador entre a linguagem científica e a compreensão cotidiana, aproximando conceitos técnicos de contextos culturais e regionais. “Não basta o jornalista ser morador da região, é fundamental escolher fontes locais, como oncologistas da área geográfica em questão, para refletir a experiência e as particularidades daquela comunidade”.

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Iniciativas de enfrentamento
Entre os projetos de checagem citados por Osthues está o Projeto Comprova, que reúne jornalistas de diferentes redações para verificar informações que circulam em redes sociais e sites. Apesar de não ser exclusivo da área da saúde, a iniciativa atua diretamente contra boatos sobre câncer e tratamentos, oferecendo versões baseadas em evidências científicas.

.O pesquisador defende a formulação de políticas públicas voltadas para a inclusão digital e a educação científica desde os níveis escolares mais básicos. Recomenda, ainda, que instituições de ensino públicas e privadas possam promover oficinas e materiais explicativos voltados para leigos, buscando reduzir a exclusão informacional que afeta, principalmente, comunidades de menores renda e escolaridade.

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.Conhecimento salva vidas
Em um contexto de alta desinformação e exclusão digital, a capacidade de interpretar informações médicas torna-se um diferencial vital. O letramento digital em saúde, que é a habilidade de buscar, compreender e aplicar informações sobre saúde disponíveis online, influencia diretamente a adesão a tratamentos, o diagnóstico precoce e até a prevenção de doenças.

.“Não conhecer o Teranóstico faz com que as pessoas não tenham a opção de decidirem por uma abordagem médica que poderia melhorar sua qualidade de vida”, alerta Osthues. O modelo Teranóstico oferece a possibilidade de diganóstico e terapia eficazes, mais precisos e com menos efeitos adversos. Mas, para que a população se beneficie dessa tecnologia no contexto do câncer, é essencial romper barreiras de linguagem, medo e desconhecimento. Em tempos de desinformação, comunicar ciência com clareza, empatia e profundidade é tão importante quanto produzi-la.

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Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

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