Investimentos, pesquisa e adesão residencial têm impulsionado a expansão da energia limpa e reduzem os custos na região
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Por Isabela Galvão Reis
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O uso da energia solar em Campinas aumentou mais de 30.000% entre 2014 e 2024. O salto expressivo reflete uma mudança profunda na matriz energética da cidade, acompanhada de impactos diretos na economia doméstica, no setor industrial e na ciência local. Dados da CPFL mostram que cerca de 92% das placas solares da cidade estão instaladas em residências. Com esse sistema, a redução na conta de luz pode chegar a 95%. Em média, uma casa que paga R$ 250 mensais em energia pode economizar aproximadamente R$ 2.850 por ano.
Apesar do avanço, o acesso à tecnologia ainda é restrito a famílias com maior poder aquisitivo. Segundo estimativas da Aneel, o custo de instalação varia de R$ 12 mil a R$ 50 mil, o que dificulta a adesão de camadas populares. Mesmo assim, o retorno do investimento ocorre em cerca de três a cinco anos, e os equipamentos têm vida útil superior a 15 anos.
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“É preciso garantir que essa tecnologia não fique restrita às classes mais altas”, defende o professor Francisco Marques, físico da Unicamp. “As placas solares não só geram energia limpa, mas também descentralizam a produção. Isso fortalece a autonomia das famílias.”
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Pesquisas internacionais apontam ainda que imóveis com energia solar podem se valorizar entre 3% e 6%, com compradores dispostos a pagar até R$ 40 mil a mais por casas com o sistema já instalado.
Geração distribuída avança com força em Campinas
O número de sistemas solares conectados à rede da CPFL passou de apenas 10 em 2014 para mais de 14 mil em 2024. Somente em 2022, houve 4.040 novas conexões, o maior crescimento registrado. A média anual recente é superior a 2 mil novas instalações, mostrando um ritmo consistente de adesão.
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Esse avanço é impulsionado por fatores locais, como a presença da fábrica da BYD, instalada na cidade desde 2017. A empresa já produziu mais de 2,5 milhões de módulos solares e também fabrica chassis de ônibus e kits de energia. Juntas, essas atividades formam um ecossistema de geração de empregos, inovação tecnológica e baixo impacto ambiental.
“A tecnologia que usamos nos coloca na liderança da transição energética”, afirma Marcos Rocha, gerente de Qualidade da BYD Brasil. Segundo ele, 100% dos resíduos da empresa deixaram de ir para aterros em 2024. Além disso, a companhia já investiu R$ 65 milhões em pesquisa de soluções fotovoltaicas e emite apenas 10% do limite fixado pela CETESB para inventário obrigatório de poluentes.
Pesquisa científica busca inovação com menor custo
No Laboratório de Pesquisas Fotovoltaicas da Unicamp, cientistas desenvolvem novas tecnologias, como o uso de perovskitas, um material promissor para baratear a produção de placas solares. No entanto, o desafio atual está em estabilizar a geração de energia com esse novo composto, que ainda é mais instável do que o silício.
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“Antigamente, as placas eram produzidas em laboratório. Hoje temos máquinas industriais que fabricam esses módulos em grande escala”, explica o professor Marques. “Nosso foco atual é reduzir os custos de produção para ampliar o acesso.”
Ônibus elétricos e integração com energia solar
Além da geração distribuída, Campinas também avança na modernização do transporte coletivo. A EMDEC, empresa municipal de mobilidade, prevê a inclusão de 60 ônibus elétricos em edital de licitação com consulta pública até julho de 2025. Segundo o ICCT Brasil, veículos elétricos podem emitir até 67% menos CO₂ que os modelos a combustão.
Alguns desses veículos já estão sendo projetados para usar energia solar como fonte de recarga. A sinergia entre os dois sistemas potencializa os benefícios econômicos e ambientais.
Transição energética exige mão de obra qualificada
Com centros de pesquisa, indústrias sustentáveis e investimento em capacitação profissional, Campinas se consolida como um polo de energia limpa no Brasil. O avanço da energia solar também estimula outros setores, como o de construção civil e engenharia elétrica.
“Popularizar a energia solar depende da formação de profissionais e de investimento em ciência e tecnologia. Não basta importar, é preciso desenvolver internamente”, conclui Marques.
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Edição: Murilo Sacardi
Orientação: Prof. Artur Araújo

