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Inflação dos alimentos muda hábitos e dieta de famílias

Alta nos preços de itens básicos força população a alterar cardápio, priorizar as promoções e enfrentar riscos à saúde

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Por Ana Luiza Gomes e Elizabeth Lins

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A inflação dos alimentos alterou o dia a dia de muitas famílias em Campinas. Nos últimos 12 meses, o aumento acumulado de preços em itens básicos como arroz, carne e café levou moradores a repensar suas escolhas no mercado. A substituição de marcas e produtos, antes sinal de economia, agora se tornou uma necessidade para manter a alimentação em casa.

Segundo dados do Observatório PUC-Campinas, com base no IPCA e no DIEESE, os alimentos acumularam alta de 162% entre 2012 e 2024. Boa parte dessa elevação ocorreu apenas no último ano. Tomate e café foram os itens com as maiores variações, com aumento de 87% e 65%, respectivamente. A pesquisa da reportagem identificou também variações significativas em arroz, carne bovina, ovos e feijão.

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Consumidora compara preços do café em supermercado de Campinas, onde o produto registrou aumento de até 65% no último ano.
(Foto: Elizabeth Lins)

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Esses reajustes não são apenas resultado da dinâmica de mercado. O economista Dario Rodrigues da Silva aponta fatores como quebras de safra, eventos climáticos e a alta no custo de fertilizantes e combustíveis, grande parte deles importados. Ele observa ainda a ausência de estoques reguladores por parte da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. Essa política pública, hoje fragilizada, permitiria amortecer os efeitos de oscilações na oferta, mas perdeu capacidade de ação nos últimos anos.

A nutricionista Mara Ligia Biazotto Bachelli alerta que essas mudanças têm reflexos na saúde da população. A substituição de alimentos in natura por produtos industrializados compromete a qualidade da dieta. “Essa redução no consumo de alimentos essenciais pode levar a uma alimentação menos equilibrada, aumentando o risco de deficiências nutricionais, especialmente entre crianças, idosos e populações de baixa renda”, afirma.

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Tomate, com aumento acumulado de 87% em 12 meses, figura entre os itens mais citados pelos consumidores como símbolo da inflação dos alimentos.
(Foto: Elizabeth Lins)

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A pesquisa identificou também a percepção de que os preços mudam com frequência e sem aviso. “Não é nem um pouco legal você ir ao mercado e pagar em um mês um preço no quilo do café e, poucas semanas depois, este valor estar muito mais alto”, desabafa Luiz Antonio Gomes Filho, morador da cidade.

A instabilidade no custo da alimentação tem provocado mudanças de hábitos. A assistente administrativa Lucimar Rodrigues conta que passou a pesquisar mais e trocar marcas para garantir os itens básicos na mesa. “Assim vou me habituando de acordo com o que eu e minha família precisamos, para não deixarmos de consumir”, relata.

Fonte: Observatório PUC-Campinas (Infográfico: Elizabeth Lins)

Além disso, a variação de preços tem impulsionado o consumo de alimentos ultraprocessados. Segundo a nutricionista Monize Cocetti, o consumo elevado desses produtos, ricos em sal, açúcar e gordura, contribui para o aumento de doenças como diabetes, hipertensão, obesidade e problemas cardiovasculares.

Outros entrevistados relatam que passaram a fazer compras apenas em dias de promoção ou a substituir hortaliças por itens mais baratos. “Devido à alta dos preços, foi preciso substituir alguns tipos de verduras e legumes e passar a fazer compras em dia de promoção”, diz Camila Bonifácio.

A alta no preço dos alimentos não pode ser explicada apenas pelo que se vê nas prateleiras. O transporte e a logística também impactam os custos. Segundo Dario Rodrigues, o grupo Transporte, dentro do IPCA, teve uma variação acumulada de 33,6% entre dezembro de 2018 e dezembro de 2024. Esse aumento nos combustíveis, segundo ele, é um dos elementos que influenciam diretamente nos 49% de elevação registrados no grupo Alimentos e Bebidas no mesmo período.

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A pandemia de Covid-19 também deixou efeitos duradouros na cadeia produtiva. De acordo com o economista, entre 2020 e 2022 houve os maiores picos de inflação no setor, com tendência de desaceleração a partir de 2023, mas ainda sem reversão clara dos preços para o consumidor final.

Nesse cenário, os impactos vão além do valor pago no caixa. “A alta dos preços fez com que certos produtos fossem consumidos menos em casa, mudando um pouco a rotina”, afirma o estudante Lucas Prado. A fisioterapeuta Ana Caroline Alves relata que precisou ajustar o cardápio para manter uma alimentação equilibrada: “Fiz mudanças na rotina para conseguir manter uma alimentação saudável, mesmo com aumento da maioria dos alimentos que consumimos”.

O estudante Lucas Prado relata mudanças que fez no seu dia a dia com a alta dos preços (Áudio: Elizabeth Lins)

A reportagem compilou uma tabela comparando preços praticados há 12 meses com os atuais. O tomate, por exemplo, subiu de R$ 3,00 para R$ 5,61 o quilo. O café passou de R$ 6,50 para R$ 10,73, e a carne bovina de R$ 32,00 para R$ 49,28.

A crise de preços afeta não só o que está no prato, mas também o direito à segurança alimentar. Dar visibilidade a essas mudanças é essencial para pensar políticas públicas eficazes e sustentáveis. Como resume Camila Bonifácio, “passamos a ter que colocar na balança e entender o que é melhor para o nosso bolso, e não necessariamente para nossa saúde”.

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As mudanças de hábitos alimentares foram inevitáveis com o aumento do preço de alguns alimentos (Vídeo: Ana Luiza Gomes)

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Edição: Murilo Sacardi

Orientação: Prof. Artur Araújo

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