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Ensino cívico-militar na região de Campinas impacta seis escolas

Em média, cada escola participante pode receber aproximadamente R$ 2,8 milhões do governo estadual no primeiro ano de implantação

Por Eduardo Maschio e Rafael Correa

Disciplina reforçada, mudanças na rotina e novas formas de organização escolar. Essas são algumas das transformações que começam a aparecer em escolas públicas da Região Metropolitana de Campinas (RMC) após a implantação do modelo cívico-militar. Nos últimos seis meses, seis escolas da região passaram a adotar o formato, que combina a atuação de militares da reserva na organização do ambiente escolar com professores responsáveis pelas atividades pedagógicas. 

O governo do estado de São Paulo iniciou o ano letivo de 2026 com a implantação do modelo em cerca de 100 escolas estaduais. O programa prevê que monitores militares auxiliem na disciplina, na organização dos estudantes e no acompanhamento da rotina escolar, enquanto os educadores continuam responsáveis pelo conteúdo pedagógico e pelo processo de aprendizagem. 

Estudos apresentados pelo Ministério da Educação indicam que o modelo pode contribuir para melhorar indicadores educacionais. Escolas que adotaram o formato em outras regiões registraram aumento de até 20% nas notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e redução nos índices de evasão escolar. 

O modelo de escolas cívico-militares ganhou força no Brasil a partir de 2019, com a criação do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim) pelo governo federal. O programa chegou a reunir mais de 200 escolas em todo o país e atender cerca de 120 mil estudantes até 2022. Mesmo após o encerramento do programa federal em 2023, diversos estados decidiram manter ou ampliar o modelo por meio de legislações próprias. Entre as escolas que passaram a integrar o modelo está a Escola Estadual Professor Messias Gonçalves Teixeira, em Campinas. 

Área interna da Escola Estadual Professor Messias Gonçalves Teixeira, que também integra o Programa de Ensino Integral do governo do estado de São Paulo (Foto: Raphael Correa)

Mudanças no cotidiano escolar 

Na unidade, algumas mudanças estruturais e organizacionais já foram implementadas. Entre elas estão a pintura das salas de aula, ajustes nos horários de intervalo e a reorganização dos períodos escolares. 

Os estudantes do 9º ano e do ensino médio passaram a estudar juntos em um turno, enquanto os alunos do 6º ao 8º ano frequentam outro período. Segundo a direção da escola, o processo foi acompanhado por reuniões com pais e responsáveis e por conversas com os estudantes sobre as mudanças previstas. A escola também registrou crescimento de 42% no número de matrículas após o anúncio do novo modelo. 

Investimento público 

Além das mudanças na rotina escolar, a implantação do modelo também envolve investimento público. Segundo estimativas do governo do estado de São Paulo, o programa de escolas cívico-militares deve receber cerca de R$ 285 milhões em 2026. 

Esse valor foi destinado a reformas de infraestrutura, aquisição de uniformes e formação dos monitores responsáveis pelo acompanhamento disciplinar nas unidades escolares. Em média, cada escola participante pode receber aproximadamente R$ 2,8 milhões no primeiro ano de implantação. 

Para professores que atuam na escola, a implementação do modelo ainda passa por um período de adaptação. O professor Raphael Borges Santos, licenciado em Geografia e docente da escola, afirma que a experiência tem sido desafiadora. “Tem sido uma experiência desafiadora. O Messias já é uma escola de ensino integral, em que os alunos permanecem cerca de nove horas por dia na escola. Isso já exige muito da comunidade escolar e, com a chegada do modelo cívico-militar, surge uma nova camada de complexidade”, explica. 

O professor de Geografia Raphael Borges Santos é docente na escola e afirma que modelo traz “nova camada de complexidade ao ensino” (Foto: Rafael Correa)

Segundo o professor, por se tratar de uma proposta recente, ainda há dúvidas sobre como o projeto deve funcionar na prática. “Por ser algo novo e implantado em um curto espaço de tempo, ainda não existe um entendimento totalmente claro para toda a comunidade escolar sobre quais são exatamente as diretrizes do projeto”, afirma. 

Ele também destaca que o contato entre professores e os monitores responsáveis pela parte cívico-militar tem sido positivo. “O contato com os monitores tem sido produtivo. Apesar das diferenças de visão, o que aproxima todos é a preocupação com os jovens e com a garantia do direito à educação pública de qualidade”, diz. 

Apesar da expansão do programa, o modelo também gera debate entre especialistas em educação. Helena Ferrari Castelão, formada em pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas, afirma que o excesso de regras pode gerar preocupações sobre a formação crítica dos estudantes. “Há uma padronização excessiva que pode impactar a diversidade do pensamento crítico. Muitas vezes o debate acaba focando em elementos superficiais, como uniformes, cortes de cabelo e marchas, características que não resolvem problemas estruturais da educação, como falta de investimento ou defasagem de aprendizagem.” 

Segundo ela, políticas voltadas para qualidade pedagógica, formação de professores e gestão democrática tendem a ter impacto mais direto na aprendizagem. 

Impacto regional 

Na região, iniciativas semelhantes também começaram a surgir na rede municipal. A Prefeitura de Sumaré implantou a primeira escola cívico-militar da rede municipal na Escola Magdalena Maria Vedovato Callegari, localizada no bairro Recanto dos Sonhos. A proposta é voltada inicialmente para estudantes entre 6 e 10 anos. A prefeitura estuda ampliar o modelo ainda este ano para a Escola Municipal Eliana Minchin Vaughan. 

No formato adotado, os professores continuam responsáveis pelo ensino, enquanto monitores da Polícia Municipal auxiliam na organização da rotina escolar e na promoção de valores como disciplina, respeito e cidadania. 

A escola também passou por adaptações pedagógicas. Um dos projetos implantados foi o modelo de merenda self-service, em que os próprios alunos servem suas refeições. A proposta busca estimular autonomia, responsabilidade e consciência sobre o desperdício de alimentos. 

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que a proposta foi aprovada por mais de 70% da comunidade escolar em consultas realizadas em 2025. 

O secretário municipal de Educação, Lucas Gomes, afirma que a iniciativa busca fortalecer o ambiente escolar. “O ensino continua sendo conduzido pelos educadores da escola, enquanto o modelo cívico-militar reforça valores de cidadania e organização, criando condições ainda mais favoráveis para o processo de ensino e aprendizagem.” 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Murilo Sacardi

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