De rosas à jasmins, o mercado de flores apresenta diferentes tendências ao redor do mundo
Por Lara Gallo e Clara Dejean
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No interior de São Paulo, Holambra, conhecida como a “Capital das Flores”, atrai não apenas turistas pela beleza de seus jardins e feiras. A cidade também se destaca como um polo estratégico do mercado floral brasileiro, movimentando a economia e definindo tendências no setor. Com cerca de 300 mil visitantes anualmente, incluindo turistas nacionais e internacionais, a cidade se consolidou como referência tanto na produção quanto no comércio de flores.
Quando se trata de entender o setor de flores e plantas ornamentais, o Instituto Brasileiro de Floricultura (IBRAFLOR), é referência nacional. Segundo a organização, o mercado brasileiro apresenta tendências baseadas na sazonalidade climática, tanto em termos de picos de consumo quanto de preferência por espécies específicas em cada estação do ano. “Essas flutuações sazonais orientam o planejamento de produção, estoque, logística e campanhas de marketing em todo o setor”, relatou o IBRAFLOR.
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As flores brasileiras, em sua grande maioria, são destinadas à decoração de ambientes e vistas como produtos acabados, prontos para compor espaços de maneira estética, com o uso de arranjos, vasos decorativos e plantas ornamentais. As espécies mais procuradas para esse uso são as rosas, alstroemérias (astromélia) e lírios e, segundo o IBRAFLOR, essa preferência do público é explicada por fatores como beleza, qualidade, disponibilidade nas lojas, praticidade nos cuidados e preço acessível.
Para a decoradora Lara Nunes, trabalhar com plantas é uma experiência encantadora, mas também repleta de desafios. “A demanda por arranjos e decorações tem crescido muito, especialmente em eventos. No entanto, em datas comemorativas, como o Dia das Mães ou o Dia dos Namorados, precisamos planejar e comprar as flores com antecedência, devido à sazonalidade e à alta movimentação do mercado”, explicou.
De acordo com o Relatório IBRAFLOR/CEPEA, o segmento de serviços de decoração apresentou um crescimento expressivo de 189% entre 2017 e 2024. Esse aumento reflete não apenas o fortalecimento econômico do setor, mas também a valorização da estética e da presença da natureza nos ambientes.
O comportamento do consumidor neste setor é moldado por uma combinação de fatores emocionais, estéticos e econômicos, o que exige constante atenção à qualidade, variedade e comunicação simbólica das flores.
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Do Brasil ao Egito, as flores reencontram seu lugar entre alimentação e bem estar
Seja nas Américas, na Europa, na Ásia ou na África, as flores ultrapassam sua função decorativa. Elas participam da culinária, da produção de óleos essenciais e das práticas de bem-estar. Da mesa à destilação, lembram a permanência de um antigo vínculo entre natureza e cultura.
No Brasil, as PANCs, Plantas Alimentícias Não Convencionais, ampliam a noção de alimentação. O chef Henrique Nunes, autor de “PANC Gourmet, Ensaios culinários” e responsável pelo restaurante Nayah, em Nova Odessa, é um dos que exploram essas plantas na gastronomia contemporânea. Entre suas criações está um prato feito com a flor de Vitória-Régia, símbolo das águas amazônicas, transformada em espaguete. A planta, rara e espetacular, é usada por sua textura e valor simbólico. As PANCs lembram que as flores também são alimentos esquecidos, portadores de um saber culinário muitas vezes inviabilizado, mas em vias de redescoberta.
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A vários milhares de quilômetros dali, no Delta do Nilo, as flores cumprem outra função. No Egito, por exemplo, a produção de jasmim e neroli (flor de laranjeira) é destinada à extração de óleos essenciais. Amr Hashem, empresário do setor no país africano, descreve que o coração dessa atividade reside no domínio do processo. “Nossas destilarias estão instaladas em nossos principais sítios; a extração começa imediatamente após a colheita, a fim de preservar toda a delicadeza do aroma”. A empresa de Hashem possui mais de cinquenta óleos essenciais e extratos em seu catálogo, todos submetidos a um rigoroso controle de qualidade.
O jasmim é colhido manualmente ao amanhecer, de junho a outubro. São necessárias cerca de uma tonelada de flores para obter pouco mais de um quilo de absoluto, um concentrado muito procurado pela perfumaria e pela aromaterapia. O neroli, extraído da flor da laranjeira amarga, floresce apenas algumas semanas por ano, entre março e abril. Também nesse caso, a transformação ocorre no próprio local, garantindo uma produção rastreável do campo ao frasco.
Embora o jasmim não fosse cultivado na época faraônica, o uso de óleos aromáticos e unguentos remonta ao Egito Antigo, onde serviam aos cuidados corporais, à medicina e aos ritos funerários. Essa tradição encontra hoje continuidade na prática moderna da aromaterapia. Para Karma El Masry, que atua no setor, essa atividade visa, antes de tudo, “restabelecer o equilíbrio entre o corpo, a mente e a alma por meio da essência natural das plantas”.
Ela explica que seu trabalho baseia-se em uma produção integrada: as laranjeiras amargas são cultivadas e as flores destiladas localmente, a fim de obter um óleo de neroli “com aroma floral e levemente cítrico, que acalma a pele e a mente”. Quanto ao jasmim, ele atua, segundo ela, em vários níveis: “Seu aroma doce e envolvente relaxa o sistema nervoso e promove uma sensação de paz interior. Nutre a pele, estimula a confiança e ajuda a restaurar o equilíbrio emocional.”
As propriedades dessas flores repousam em sua composição química. O acetato de benzila do jasmim contribui para o relaxamento, enquanto o linalol presente no néroli é reconhecido por seu efeito calmante. Esses óleos são utilizados diluídos, sobre a pele ou por inalação, com o objetivo de promover o bem-estar físico e emocional.
O mercado mundial de aromaterapia vem crescendo de forma constante. Segundo a Grand View Research, deve atingir 15,17 bilhões de dólares até 2030, impulsionado pela demanda por produtos naturais e pela popularidade crescente das práticas de cuidado à base de plantas.
Do jasmim do Delta às flores amazônicas como a Vitória-Régia, os usos se correspondem: as flores alimentam, perfumam, curam e promovem equilíbrio entre natureza, cultura e bem-estar.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Ana Elisa Desiderá

