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Mulheres garantem presença nas Forças Armadas 

Por Valentina Sclauser 

Por séculos, as Forças Armadas brasileiras foram um espaço essencialmente masculino, reflexo de uma sociedade marcada pelo patriarcado e pela exclusão feminina de funções de comando e defesa. A presença das mulheres começou de forma simbólica, com Maria Quitéria de Jesus, que decidida a colaborar na luta pela independência, se disfarçou de homem com itens emprestados de seu cunhado e se alistou, ficando conhecida como a heroína da independência, em 1822. 

Apesar da presença de enfermeiras na Segunda Guerra Mundial que integraram a Força Expedicionária enviada à Europa, a verdadeira inserção feminina nas Forças Armadas teve início nos anos 1980 com o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva (CAFRM) pela Marinha, impulsionada pela redemocratização e pelos avanços nos direitos das mulheres, de acordo com o tenente Rafael Inda. Já o Exército abriu suas portas no ano de 1992, integrando as mulheres inicialmente em áreas administrativas, de saúde e intendência. A presença em funções de combate veio em 2003 na Força Aérea e, apenas em 2017 e 2018, no Exército. 

Mesmo com avanços, como a Lei nº 12.705/2012, que abriu espaço para o ingresso em funções de combate, a presença feminina ainda é reduzida. Apenas 11% do efetivo das Forças Armadas é composto por mulheres. No Exército, são 13.461 militares na ativa, o equivalente a 6,7% do total, de acordo com dados do Exército Brasileiro. 

Esses números devem aumentar nos próximos anos. Pela primeira vez na história, mais de 33 mil mulheres brasileiras decidiram se alistar nas Forças Armadas. O alistamento, realizado de forma voluntária neste ano, marca um novo capítulo na trajetória feminina dentro das instituições militares, 45 anos após a incorporação das primeiras oficiais. Agora, elas disputam juntas 1.465 vagas distribuídas entre a Marinha, o Exército e a Aeronáutica, sendo uma concorrência média de 23 candidatas por posto. 

Ainda que não seja o número de vagas ideal, o alistamento deste ano representa um passo simbólico e concreto rumo à ampliação da presença feminina na defesa nacional. Para a terceiro-sargento Clara Luíza Cardoso, a mudança é significativa: “A expectativa é grande. Quanto mais mulheres no meio, mais a gente vai ficando confortável e vendo que as mulheres realmente conseguem administrar e comandar uma tropa. Isso mostra que a capacidade é a mesma.” Hoje, são cerca de 34 mil mulheres entre os 360 mil militares brasileiros, número ainda modesto, mas representativo de uma mudança cultural em uma das instituições mais tradicionais do país. 

Apesar de as mulheres já atuarem em diversas áreas dentro das Forças Armadas, o caminho até o reconhecimento ainda exige resistência diária. A terceiro-sargento, é um exemplo dessa nova geração que cresce dentro da estrutura militar. “Eu comecei estudando para prova da Escola de Sargentos das Armas, levei uma média de quase quatro anos para passar no concurso e eu estudava sozinha. Minha família sempre foi muito humilde então a gente não tinha condições de pagar um curso particular e nenhum professor”, diz. Ela obteve êxito na prova de 2022 e se formou em 2024. “O que me motivou principalmente foi a questão de poder defender a pátria, uma coisa que me incentivou, me brilhava os olhos poder fazer parte de alguma área militar do Brasil”, conta. 

Mas a rotina em um ambiente predominantemente masculino ainda é um desafio. “Aqui no batalhão, somos praticamente só duas mulheres. Trabalhar com muitos homens não é fácil, mas a gente está conquistando o nosso espaço, mostrando que somos igualmente capazes”, afirma Clara. 

A sargento reforça também que as exigências são as mesmas para ambos os sexos. Segundo ela, a formação é igual para homem e mulher, sendo os mesmos materiais, mesmos pesos e mesmos treinamentos. Clara Luíza também destacou um grande exemplo que viveu sobre a resistência e empenho das mulheres: “No curso de paraquedismo, entraram 20 mulheres e 19 se formaram. E entre os homens, apesar da maior quantidade, houve mais de 100 desistências.”  

Apesar dos avanços, a presença feminina nas Forças Armadas ainda enfrenta barreiras estruturais e culturais. Segundo o primeiro-tenente Rafael Inda, o machismo ainda é enraizado tanto dentro quanto fora do Exército, porém, para ele, isso tem mudado aos poucos ao longo do tempo devido aos processos de formação, cursos e agora também pelo alistamento militar feminino voluntário. 

A participação das mulheres é maior nas áreas administrativas e de saúde, enquanto a presença em posições de comando e combate ainda é minoritária. Além da diferença numérica, persistem relatos de resistência interna, estereótipos e a necessidade constante de provar competência em um ambiente historicamente masculino. “A mulher precisa mostrar autoridade em dobro. Um sargento homem precisa impor respeito, uma mulher precisa fazer isso duas vezes mais”, diz Clara. 

Nos últimos anos, o Ministério da Defesa tem buscado ampliar o número de mulheres em funções operacionais e abrir novos espaços de formação. A expectativa é que, com o alistamento voluntário, junto com os processos de formação já existentes, mais mulheres alcancem cargos estratégicos e passem a ocupar postos de comando nas próximas décadas. 

Para a terceiro-Sargento Clara Luíza, “a entrada de milhares de jovens mulheres nas Forças Armadas é mais do que uma estatística, é um movimento que reflete mudança social, conquista e coragem”, disse. A trajetória feminina dentro da farda mostra que o futuro do Exército é também feminino e que igualdade não se decreta, se constrói diariamente, passo a passo. 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Raquel Piveta

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