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Público feminino cresce nas arquibancadas da F-1

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Por Bianca Freitas e Murilo Pascale

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O crescimento do público feminino na Fórmula 1, apontado pela pesquisa global de fãs de 2025, aparece com clareza na trajetória de jovens como Mayumi Iokota, 21 anos, e Ana Elisa Desiderá, 20 anos, que encontraram no esporte um espaço de identificação, paixão e também resistência. Elas representam uma mudança que se reflete em números: entre os mais de 100 mil entrevistados do levantamento, as mulheres correspondem a 25% do público total, o maior índice da história da categoria, e 75% dos novos fãs da modalidade.

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O aumento de fãs mulheres circulando pelo pit walk em Interlagos é notável (Foto: Murilo Pascale)

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Mayumi, estudante de administração, cresceu vendo o pai assistir as corridas e trabalhando na oficina da família, mas só descobriu sua própria relação com a F1 na pandemia, em 2020. “Sentei ao lado do meu pai e pedi pra ele me explicar tudo. A partir daquele campeonato não perdi mais nenhuma corrida”, lembra. Torcedora de Lewis Hamilton e influenciada pela paixão da família pela Mercedes, ela começou a compartilhar conteúdos sobre F1 no Instagram e viu outras meninas se aproximarem. “Eu nem sabia que tantas meninas gostavam também”, conta.

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A percepção de que o público feminino cresceu não é apenas estatística para ela, é experiência. Nos GPs de São Paulo que frequentou, a mudança ficou evidente. “De 2021 pra cá, aumentou muito o número de mulheres nas arquibancadas. Mas ainda não é suficiente. Ainda é um ambiente de machismo e assédio”, desabafa a jovem.

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Ana Elisa Desiderá vê nas redes sociais um espaço de acolhimento para novas fãs do esporte (Foto: Murilo Pascale)

Ana Elisa, estudante de jornalismo, também descobriu a F1 durante a pandemia, impulsionada pela disputa acirrada entre o inglês Hamilton e holandês Max Verstappen. Para acompanhar as discussões com o irmão e o primo, decidiu assinar o F1 TV e mergulhar no esporte, assistindo corridas históricas, pesquisando narrativas e bastidores. “Eu queria ter repertório, entender de verdade. Fui ficando cada vez mais viciada, foi assim que decidi criar uma página pra falar sobre isso”. Criado em 2021, o perfil Velocidade Máxima, no Instagram, hoje acumula mais de mil seguidores e reúne análises de corridas, curiosidades e comentários que atraem outras meninas em busca de um conteúdo sobre F1 acessível e acolhedor.

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INSPIRAÇÕES
Tanto Mayumi quanto Ana apontam fatores que impulsionaram esse crescimento: o impacto da série Drive to Survive, a chegada de novos conteúdos direcionados para o público jovem e o surgimento de referências femininas dentro da própria F1, como engenheiras, estrategistas e jornalistas, entre elas a brasileira Mariana Becker, citada por Ana como inspiração. “Ela é inteligente, domina tudo, é querida no meio. Me fez pensar que eu também posso estar ali”, diz a estudante de jornalismo.

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Contudo, junto ao entusiasmo, vem também a realidade: ambas relatam episódios de machismo e invalidação. Nas redes, Mayumi escutou que só postava “para chamar atenção de homem” ou porque achava piloto bonito. Ana vive situações semelhantes até no ambiente da faculdade. “Sempre encontram um jeito de desvalorizar a opinião feminina. Se eu digo que gosto do Vettel, já ouvi que eu ‘nem vi os anos de ouro dele’. As mulheres sempre precisam provar alguma coisa.”

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Mayumi Iokota vai ao GP de São Paulo desde 2021 (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda assim, as duas são otimistas. Para Mayumi, mais mulheres no paddock e nas transmissões fazem diferença e inspiram outras a acompanharem o esporte. Para Ana, iniciativas como o Girls on Track e o crescimento de criadoras de conteúdo são sinais de que a base está mudando, mesmo que a F1 ainda esteja longe de ter uma pilota no grid.

DENTRO DAS PISTAS
Olhando por uma perspectiva comercial, essa “pressão” do público feminino tem forçado algumas mudanças internas na Fórmula 1. Guilherme Longo, repórter do Motorsport Brasil e especialista na cobertura do automobilismo, destaca que essa demanda dos fãs da categoria provocou algumas alterações que resultaram em uma participação cada vez maior de funcionários mais jovens e diversos trabalhando no paddock. “Você já tem hoje, por exemplo, uma Hannah Schmitz, que é chefe de engenharia da Red Bull e que é muito elogiada pelo trabalho que ela faz”, destaca.

Por outro lado, sobre uma mulher pilotando um carro de Fórmula 1 em um Grande Prêmio, o cenário é um pouco diferente. Longo define o financiamento como a principal dificuldade: “Ainda existe muito machismo enraizado, especialmente nas categorias de base. É muito mais fácil uma empresa querer bancar um piloto do que uma pilota”. 

Além disso, o jornalista também vê falhas no formato da F1 Academy, categoria exclusivamente feminina e voltada para o desenvolvimento de jovens talentos. De acordo com ele, a falta de uma bolsa garantida para a campeã avançar para categorias como a Fórmula Regional Europeia (FRECA) ou a Fórmula 3 tornam a F1 Academy pouco efetiva na prática para levar uma mulher ao grid da Fórmula 1 na próxima década.

Apesar dos desafios e do preconceito, a presença do público feminino entre os fãs de automobilismo é real e tende a aumentar nos próximos anos. Para quem ainda está entrando nesse mundo, Mayumi deixa um recado: “Eu recomendo às mulheres a não ficarem perguntando para os homens. Pesquisem na internet, perguntem para outras mulheres”, aconselha a jovem. Ana Elisa concorda e reforça a mensagem: “A mudança é devagar, mas está acontecendo. E mulheres ajudando mulheres tornam o caminho mais leve”.

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