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Nortista e nordestino guarda tradição fora de sua região

Por Maria Luiza Machado Silva

Mesmo em um mundo com grande divulgação de informações que transitam pela internet, o brasileiro ainda não conhece de verdade o seu país. De acordo com a pesquisa Diálogo com os Brasileiros, apenas 22% dos nordestinos dizem se sentir representados pelos conteúdos de publicidade atuais, evidenciando o baixo conhecimento e interesse da mídia em destacar a cultura da região. Já a representatividade da região norte é marcada por uma cobertura midiática ainda menor e frequentemente estereotipada, segundo dados divulgados pelo Atlas da Notícia 2025. 

Apesar de apresentar um crescimento significativo de 14% em relação à edição anterior, a pesquisa aponta que a Região Norte segue com a menor presença absoluta entre todas as regiões brasileiras, englobando apenas 9,2% do total nacional. Os números retratam uma disparidade entre as regiões brasileiras ao evidenciar fragilidades de infraestrutura e financiamento para o jornalismo local do Norte do país. 

Adriana de Barros, defende discussões sobre pautas culturais (Foto: arquivo pessoal)

Segundo a jornalista cultural, Adriana de Barros, editora do site da TV Cultura e apresentadora do Mistura Cultural, “a cultura nordestina tem ganhado mais espaço e visibilidade, inclusive por meios próprios no que diz respeito às plataformas digitais e cinema independente, apesar de ainda lutar contra estereótipos persistentes na mídia tradicional. Já a cultura nortista enfrenta o desafio da quase invisibilidade na mídia”.

A apresentadora destaca que a mídia brasileira ainda reforça estereótipos ao abordar conteúdos generalistas e sem aprofundamento. Ela afirma que em muitos momentos, a região aparece associada quase exclusivamente a temas da Amazônia, questões ambientais, povos indígenas e folclore, deixando de lado a complexidade das culturas urbanas, a produção artística contemporânea e a diversidade da vida local. “Há uma carência de autores, diretores e atores nortistas nos grandes centros de produção, o que dificulta a construção de narrativas autênticas e não estereotipadas”, ressalta a especialista. 

“A mídia tradicional e centralizada insiste em manter o olhar estereotipado, que é mais fácil de ser consumido pelo grande público do Sudeste e que, historicamente, serviu para justificar desigualdades regionais”, enfatiza Adriana. Segundo a jornalista, a nova safra de cinema e séries (como Bacurau, Aquarius, Boi Neon e produções independentes) têm subvertido o olhar tradicional ao retratar a complexidade das relações urbanas, a diversidade de gênero, a modernidade e a resistência política das regiões Norte e Nordeste, fugindo de temas recorrentes, como seca, miséria e cangaço. 

Além disso, ela ressalta que a potência das plataformas digitais e redes sociais auxiliam artistas, influenciadores e criadores de conteúdo do Norte e Nordeste na conexão direta com o público. Sem o filtro da mídia tradicional, é possível  mostrar a diversidade cultural, a moda, a culinária e o cotidiano real das capitais e do interior, combatendo a visão homogeneizada. 

GASTRONOMIA É O CAMINHO
Entre os empreendimentos que utilizam as plataformas digitais para divulgar seus serviços e tradições culturais, é possível destacar o restaurante Macaxeira, situado no bairro Cambuí em Campinas. O estabelecimento faz parte de uma franquia que começou por volta de 2015 e mantém elementos culturais nordestinos enquanto adapta alguns pratos para agradar o paladar local, além de promover música ao vivo com forró típico da região.

Hélio Almeida e Ramon Costa compartilham desafios de adaptação cultural (Foto: Maria Luiza Machado Silva)

Segundo Hélio Almeida, nordestino e gerente do restaurante, o local atrai muitos nordestinos que frequentam a região de Campinas e desperta interesse nos campineiros que “têm curiosidade em experimentar a culinária da região”. Ele ressalta que o empreendimento é composto apenas por funcionários nordestinos, o que aproxima e conecta os clientes de suas raízes, enquanto buscam por uma qualidade de vida melhor no interior de São Paulo. 

O gerente explica que se identificou com os valores e tradições do restaurante ao migrar da Bahia para São Paulo e por isso, mantém relações com outros nordestinos que trabalham na mesma área. Ele conta que a migração foi motivada principalmente pela falta de oportunidades de trabalho no nordeste e admite dificuldades emocionais de deixar a família e seu lugar de origem.

Entre os colegas de trabalho que migraram da Bahia, é possível mencionar Ramon Rêgo Costa, que trabalha no local desde a inauguração. Ele conta que se mudou para a região sudeste em busca de uma qualidade de vida melhor e planeja retornar para o nordeste assim que possível.  

Segundo ele, é essencial promover a culinária nordestina em Campinas como forma de preservar a cultura e acolher nordestinos que se sentem deslocados ao chegar no interior de São Paulo, permitindo que esse público consiga se sentir como se estivesse no nordeste.

Segundo Hélio, os comércios nordestinos são importantes porque oferecem uma experiência diferente no cotidiano urbano, agregando valor cultural à cidade e despertando interesse pela riqueza da cultura nordestina. Ele destaca que muitos clientes tiram fotos com elementos decorativos e pratos típicos, o que facilita a divulgação do comércio e da cultura nordestina. 

Outro empreendimento que se destaca na região de Campinas é o restaurante Raiz do Norte que promove uma aproximação com a cultura nortista e oferece uma experiência imersiva nos costumes e tradições da região. Além da gastronomia típica do Pará, o estabelecimento familiar também permite que os clientes entrem em contato com músicas e itens decorativos da região.

Segundo a chefe de cozinha, Joseane Souza, descendente de indígenas da Ilha de Marajó e seu marido, George Patrão, de São Caetano do Sul, os pratos escolhidos e a decoração do estabelecimento foram cuidadosamente planejados para remeter à região norte por meio de pinturas de artistas paraenses e artefatos indígenas. 

Joseane ressalta que passou a infância na Ilha de Marajó, ao lado de sua avó, que atuava como Xamã (liderança espiritual) na comunidade. Ela explica que se mudou para a região sudeste aos 15 anos, depois que o pai militar foi transferido para outro município e afirma não ter sentido muita dificuldade para se adaptar à nova região. Embora aprecie a vida no interior de São Paulo, ela admite o interesse em retornar à terra natal quando os filhos estiverem crescidos. 

Joseane Souza cada detalhe do restaurante foi planejado (Foto: Maria Luiza Machado Silva)

Apesar de ser paulista, George demonstra um forte interesse pela preservação cultural da Região Norte e ressalta a importância de compartilhar histórias culturais do Pará com os clientes para criar conexões emocionais pela gastronomia da região. Além disso, enfatiza a necessidade de utilizar ingredientes tradicionais nas receitas, com o intuito de preservar a culinária nortista ao dizer que “ a memória é estimulada pela emoção”. 

PRESERVAÇÃO CULTURAL
O restaurante apoia uma fundação dedicada à cultura Zo’é ao vender livros e objetos cujos lucros são enviados à comunidade para apoiar o trabalho da organização. Já a decoração, “inclui elementos artísticos e culturais autênticos”, como fotografias de um amigo que trabalha com grupos indígenas e artefatos trazidos pela filha, que é indigenista e trabalha na região do Xingu. 

Os proprietários defendem que para combater atos preconceituosos é necessário “aproximar os povos”, apresentando elementos culturais da região por meio das redes sociais e promovendo reflexões sobre a ignorância humana. Por isso, um dos objetivos do estabelecimento é oferecer aos nortistas um local em que possam “matar a saudade” de sua cultura e gastronomia de origem, enquanto compartilham conhecimentos aos turistas. 

De acordo com Josiane, há uma tentativa em andamento de estabelecer parceria com a Prefeitura de Campinas para promover a cultura nortista, considerando que muitos dos pratos oferecidos são desconhecidos pelos moradores locais. Ela reivindica que a Secretaria de Cultura deveria dar mais atenção aos espaços que representam a diversidade cultural brasileira. Sobre a importância de preservar a cultura nortista, assista o vídeo

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

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