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A verdade sempre encontra um jeito de ser dita

OPINIÃO – Exposição na Casa de Vidro revela o poder da palavra e a coragem do jornalismo durante a ditadura

Por Erica Barbosa

 

Visitar a exposição Imprensa Censurada – Vozes que não devem ser Caladas, no Museu da Cidade de Campinas, na Casa de Vidro, foi uma experiência marcante. Entrei no espaço sem imaginar o quanto aquelas páginas amareladas e vitrines silenciosas seriam capazes de me emocionar e me fazer refletir sobre o papel do jornalismo em tempos difíceis. A mostra reúne exemplares originais de jornais alternativos que circularam entre os anos de 1978 e 1983, período em que o Brasil ainda vivia sob o regime da Ditadura Militar.

O título da exposição já dá o tom da visita. Vozes que não devem ser caladas é uma frase que ecoa dentro da gente. Ao longo da visita, percebi que cada jornal, cada manchete, era uma tentativa de furar o bloqueio da censura e mostrar ao povo uma versão dos fatos que o governo tentava esconder. Publicações como Tribuna Operária, Movimento, Em Tempo, O Trabalho, Repórter e o Pasquim eram os principais exemplos desse tipo de imprensa alternativa. Eles nasceram em meio à repressão, sem grandes recursos e com enorme risco, mas movidos pela necessidade de informar e questionar.

Um dos jornais que mais me chamou a atenção foi o Tribuna Operária. Suas manchetes são diretas, provocativas e, de certa forma, desafiadoras. Ao ler títulos como “O povo não dá trégua a Figueiredo” e “Dívida Externa: Não pague, Brasil!”, percebi como o jornal se posicionava claramente ao lado dos trabalhadores e contra o regime. Não havia espaço para a ideia de “neutralidade”, tão discutida hoje no jornalismo. A Tribuna Operária assumia seu lugar de fala e sua missão política, mostrando que a notícia pode ser uma ferramenta de luta e de conscientização. Esse tipo de jornalismo, feito com propósito e coragem, me fez pensar muito sobre o que significa realmente informar.

 

Outros jornais da exposição, como Movimento e Em Tempo, também me chamaram atenção por abordarem temas de forma mais analítica e investigativa. O Movimento usava ironia e humor para desafiar a censura, enquanto o Em Tempo questionava abertamente a suposta “abertura política” do regime militar. Em uma de suas edições, havia uma matéria provocativa perguntando “Sindicatos: quem é o agente da CIA?”. Esse tipo de reportagem mostra um jornalismo inquieto, que não se contentava em repetir versões oficiais, mas levantava questionamentos e incentivava o debate político.

 

O Pasquim, por sua vez, trazia a leveza sem perder a força. Usando o humor e a sátira, o jornal criticava o governo e fazia rir em tempos em que rir também era um ato político. Já os panfletos do movimento estudantil e do DCE mostravam um jornalismo engajado, mais direto e de base, voltado para organizar assembleias, divulgar greves e convocar a juventude para a luta. Esses materiais, simples e muitas vezes feitos de forma artesanal, mostram que comunicar é simplesmente ter algo urgente a dizer.

A forma como a exposição foi montada ajuda muito na imersão. As vitrines de vidro e as folhas envelhecidas dos jornais criam uma atmosfera de respeito, como se estivéssemos diante de documentos sagrados da nossa história recente. Gostei especialmente do uso dos QR Codes, que permitem acessar o conteúdo digitalmente e ampliar a experiência de leitura.

Mesmo assim, senti falta de algumas coisas. Achei que seria interessante incluir, ao lado dos jornais alternativos, exemplares da grande imprensa da época. Ver como jornais tradicionais, como O Estado de S. Paulo ou Folha de S.Paulo, tratavam (ou omitiam) as mesmas notícias. Isso daria um contraste ainda mais forte e ajudaria a perceber o quanto o silêncio da mídia pode ser uma forma de conivência com o poder.

Senti falta de uma maior interatividade. Alguns textos são difíceis de ler por causa da iluminação ou da posição das vitrines. Talvez a exposição pudesse oferecer painéis digitais com as matérias ampliadas, ou até áudios com leituras das manchetes e depoimentos de jornalistas da época. Isso ajudaria especialmente os visitantes mais jovens, que talvez não tenham tanta familiaridade com aquele contexto histórico, a compreender melhor o que estava acontecendo.

Mesmo assim a exposição é extremamente importante. Ela nos faz refletir sobre como o jornalismo, mesmo sob ameaça, encontrou formas de resistir e de dar voz aos que não tinham espaço. O que mais me marcou foi perceber que, para aqueles jornalistas e militantes, escrever era um ato de coragem. Em tempos em que a palavra podia ser motivo de prisão e morte, cada manchete publicada era uma vitória contra o medo.

 

No fim das contas, a exposição provoca uma reflexão sobre o nosso tempo. Em meio a tanta desinformação, manipulação e ataques à imprensa, olhar para trás é uma forma de entender os desafios do presente. O que vi ali não foi apenas um acervo de jornais antigos, mas o retrato de uma geração que acreditava que a palavra tinha poder e que a verdade, mesmo censurada, sempre encontra um jeito de ser dita.

 

Leia reportagem de Aline Assis e Marcos dos Reis: Exposição mostra a imprensa contra a Ditadura Militar

Orientação e edição: Adauto Molck

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