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Jornalista responsável pelo sucesso ‘O Caso Evandro’, Ivan Mizanzuk fala da produção e repercussão do trabalho
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Texto e imagens: Amanda Poiati
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Na última sexta-feira, 26 de setembro, a jornalista Daniela Arbex convidou para a mesa-redonda o jornalista Ivan Mizanzuk uma bate-papo promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Unicamp. O encontro reuniu cerca de 100 pessoas em uma conversa sobre jornalismo investigativo e as histórias que o Brasil tentou esquecer, mostrando como o jornalismo e a investigação podem reconstruir memórias silenciadas.

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Ivan Mizanzuk disse que já ouvia produções estrangeiras em storytelling e decidiu reproduzir com histórias brasileiras: “Em 2014 eu me interessei em querer fazer uma história de true crime, então começou a quarta temporada de Projetos Humanos que virou O Caso Evandro.” Ao lidar com investigação, precisou desenvolver uma escuta mais empática. “Quando você vai entrevistar alguém sobre histórias verdadeiras, vai falar sobre a pior época da vida da pessoa. Quando ouve uma história, você não tem noção de todos os perrengues que passam nos bastidores.”
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O podcast reconstitui o desaparecimento de uma criança em 1992 no Paraná, revelando um dos maiores erros judiciais da história do país. A apuração minuciosa de Ivan levou à redescoberta de fitas de tortura escondidas por quase três décadas, mudando os rumos do caso. “Eu tive método, mas também tentei de tudo, abri 200 mil portas, todas davam em beco sem saída, teve uma que deu certo e eu achei as fitas de tortura. Precisei montar uma linha do tempo dos áudios, cruzar com os processos, também teve a dificuldade de pensar na forma que apresentaria aquilo para o público.”
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Mizanzuk ressaltou a dificuldade ética de preservar a identidade da fonte e tratar o conteúdo com o cuidado necessário: “Aquelas fitas poderiam ter sido jogadas fora, se não fosse eu ouvindo que entendia muito da história e identifiquei todas as vozes.” O caso ganhou ainda mais repercussão quando a série documental baseada no podcast, lançada no Globoplay, foi indicada ao Emmy. Em 2023, o Supremo Tribunal de Justiça manteve a revisão criminal dos acusados, reconhecendo a inocência das pessoas presas injustamente. “Sinto que esse trabalho foi muito além do que eu imaginava. Quando peguei o Caso Evandro, queria solucionar. Eu não sabia se seria possível. Mas no mínimo eu tinha uma boa história para contar. E consegui fazer justiça, é muito raro ter uma revisão criminal.”
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Sobre o processo de transformar o podcast em livro e série, Ivan destacou o apagamento da vítima como uma das maiores preocupações. “Começa com o crime do Evandro e ele some da história. Você vai lendo os autos dos processos, percebe que isso é uma constante. A pergunta não é mais quem matou a vítima e sim se essas pessoas são culpadas.” A série e o podcast ajudaram a trazer justiça para duas mulheres, mãe e filha, acusadas injustamente. “A filha foi estuprada na prisão, o podcast devolveu o mais precioso, a honra.”
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Ele revelou que 2025 não terá nova temporada do Projeto Humanos, “Ano que vem vão cansar de mim. Tem coisa que já tá no ar. Só que ninguém achou ainda. Pessoal que usa os Reddit, se vire pra encontrar.” O trabalho de Ivan pode ser acessado diretamente em seu site.
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OPINIÕES
A jornalista Ariane Alves, de 35 anos, assistiu o bate-papo e destacou como podcast e livro contribuem para a construção da memória coletiva, provocando reflexão sobre os efeitos reais do jornalismo narrativo.
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A estudante Júlia Barros, de 19 anos, que participou do evento, afirmou que esses projetos jornalísticos trazem espaço para debates sobre casos silenciados, o que não deixa a história se apagar.
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Para o músico Felipe Mota, de 40 anos, que assistiu o debate do início ao fim, o papel da universidade é essencial para fomentar debates e discutir ideias.
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A mesa-redonda foi promovida pelo Programa Hilda Hilst, uma iniciativa da Universidade Estadual de Campinas, que busca integrar arte e memória social, refletindo sobre os limites e potências das narrativas artísticas.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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Estudantes, jornalistas e pesquisadores acompanharam a mesa-redonda, refletindo sobre a importância das narrativas na reconstrução da memória coletiva (Foto: Amanda Poiati)
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