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Avanço dos streamings causa preocupação em cineastas

Mudança de hábito reage em nomes do audiovisual brasileiro, que refletem sobre o impacto cultural e os desafios para o futuro do cinema nacional

Por Pedro Spada

Apesar do crescimento do streaming, salas de cinema ainda são opção de entretenimento (Foto: Pedro Spada)

O avanço dos serviços de streaming está transformando o modo como jovens brasileiros consomem filmes. E a experiência coletiva das salas de cinema dá lugar à conveniência das telas domésticas. Cineastas como Eryk Rocha e Fernanda Pessoa refletiram, recentemente, sobre o impacto cultural dessa mudança e apontam desafios para o futuro do cinema nacional.

Durante décadas, ir ao cinema foi mais do que assistir a um filme. Hoje, com plataformas como Netflix, Prime Video e Globoplay, essa tradição vem perdendo espaço para a praticidade de assistir a qualquer título, em qualquer lugar e a qualquer momento. A comodidade, os preços acessíveis e a grande oferta de conteúdo têm moldado uma nova lógica de consumo entre os jovens, que cada vez menos frequentam as salas de cinema.

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Para Eryk Rocha as políticas públicas são essenciais para a permanência e o crescimento do cinema nacional (Foto: Pedro Spada)

Para o cineasta Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, o impacto das plataformas vai além do comportamento do público. “O futuro do cinema brasileiro depende de políticas públicas consistentes e verdadeiramente democráticas, que visem ampliar essa ideia de ‘cinema’. Caso contrário, ele ficará muito restrito às plataformas de streaming”, afirma Rocha.

A também cineasta e pesquisadora Fernanda Pessoa compartilha da mesma preocupação.
Ela critica a forma como os streamings incentivam um consumo acelerado, superficial e pouco reflexivo, “Hoje em dia nós temos acesso a muito audiovisual e isso por conta dos streamings, que nos fazem assistir uma obra atrás da outra sem muito entender o significado daquele projeto.” Apesar disso, Fernanda reconhece que o ambiente digital também trouxe mais visibilidade para obras nacionais: “Isso eleva o cinema brasileiro e nos faz ter mais projetos nacionais sendo lançados.”

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A cineasta Fernanda Pessoa considera que o consumo excessivo de conteúdo audioviosual no streaming prejudica a reflexão sobre os filmes (Foto: Juliana Sangion)

Segundo Fernanda, o esvaziamento das salas de cinema está diretamente ligado à falta de investimento público em setores estratégicos da cultura. “O grande desafio atual dos filmes brasileiros está, especialmente, no enfraquecimento dos editais de fomento ao audiovisual. Sem esse apoio, muitos projetos nacionais deixam de ser produzidos”, explica.

Ainda assim, algumas obras conseguem romper essa lógica. Um exemplo recente é o sucesso de bilheteria Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres. Segundo a CNN Brasil, o longa arrecadou 200 milhões de reais mundialmente, sendo 110 milhões apenas no Brasil, o que mostra ainda haver espaço para o cinema nacional nas telas.

O debate também passa pelas escolhas do público. Stefanie Melo, estudante de Biomedicina, explica por que prefere o streaming, “Eu gosto do conforto de assistir em casa, no meu tempo. Às vezes, depois da faculdade, tudo o que eu quero é relaxar e escolher um filme sem sair. E também tem muita coisa boa disponível que eu talvez nem visse no cinema.”

Já o professor Caio Lazaneo, cineasta e diretor do curso de Cinema da PUC-Campinas, observa que o público jovem se relaciona de forma diferente com o audiovisual, o que justifica o crescimento das plataformas digitais. “Hoje, o mundo tem uma audiovisualização muito maior que há 10 anos e o fato de termos mais audiovisual pelo mundo não quer dizer que ele tenha melhorado. O que buscamos para o futuro é uma visão mais crítica, para quem faz e para quem assiste ao cinema brasileiro”, analisa Caio.

O fato é que, apesar dos desafios, as salas de cinema ainda resistem — senão como principal meio de consumo, ao menos como espaços simbólicos e afetivos. Talvez seja justamente nessa resistência que o cinema encontre um novo caminho: não mais competir com o streaming, mas oferecer o que ele não pode entregar — a experiência coletiva, o impacto sensorial e o ritual de estar junto, na escuridão, diante da grande tela.

Orientação: Karla Ehrenberg
Edição:  Redação Digitais

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