Modelo propõe plataforma com sensores e tecnologia de ponta para apoiar decisões e aumentar transparência na gestão hídrica
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Por Diego Linardo, Enzo Cerezuella e Maria Luísa Faustino
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Apesar dos avanços institucionais, muitas bacias hidrográficas brasileiras continuam enfrentando sérios desafios. Dados desatualizados, metas mal monitoradas e resultados imprecisos comprometem a efetividade dos Planos de Bacias Hidrográficas, que deveriam orientar o uso sustentável da água. Diante desse cenário, a pesquisadora Maria Luiza Ramos da Silva, em sua dissertação de mestrado defendida na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), propõe um sistema inovador para transformar a gestão hídrica no Brasil. Sob orientação do professor Orandi Falsarella, o estudo apresenta um modelo teórico de Sistema de Apoio à Decisão (SAD) baseado na integração de tecnologias digitais emergentes.
O modelo proposto
O modelo idealizado por Maria Luiza reúne diversas tecnologias digitais, integradas em uma plataforma única, com o objetivo de monitorar, analisar e planejar melhor as ações relacionadas à água em bacias hidrográficas. Os principais componentes são:
- Sensoriamento remoto e Internet das Coisas (IoT): sensores conectados e imagens de satélite coletam dados em tempo real sobre a qualidade da água, o nível dos rios, a presença de poluentes e outros fatores ambientais relevantes;
- Big Data e Inteligência Artificial (IA): essas ferramentas processam grandes volumes de dados, identificam padrões, avaliam a eficácia das ações previstas nos Planos de Bacia e ajudam a prever situações críticas, como secas ou contaminações;
- Blockchain: a tecnologia de registro descentralizado garante a integridade e a confiabilidade dos dados coletados e armazenados, evitando fraudes e aumentando a transparência;
- Dashboards interativos: são painéis que exibem os dados em tempo real de forma visual e compreensível, facilitando o trabalho de gestores públicos e técnicos ambientais.
“A IA é capaz de prever surtos de poluição, identificar alterações químicas na água e até detectar despejos irregulares em tempo real, a partir da análise de dados de sensores ou imagens de satélite e drones. Porém, como toda nova tecnologia, temos que nos familiarizar com todo o funcionamento da coisa”, explica Orandi Falsarella, professor e pesquisador do programa de Sustentabilidade da PUC-Campinas.
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“O ideal é que a própria comunidade possa operar os sistemas”, acrescenta Falsarella, destacando a importância da apropriação local, sobretudo em regiões onde a água está diretamente ligada à subsistência, como nas comunidades ribeirinhas.
Aplicação teórica na Bacia PCJ
Embora ainda não tenha sido implantado, o sistema foi testado conceitualmente em ações do Plano de Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), uma das regiões mais estratégicas do interior paulista. A simulação demonstrou que o modelo é capaz de:
- Monitorar continuamente indicadores ambientais de forma precisa;
- Avaliar a efetividade das metas e ações previstas nos planos;
- Identificar parâmetros críticos que afetam a qualidade da água;
- Fornecer suporte técnico e estratégico para decisões mais eficazes;
Contribuir diretamente para o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 6 da ONU, que trata do acesso à água potável e ao saneamento.
“Um dos desafios é a depreciação da tecnologia. Algumas ferramentas rapidamente se tornam ultrapassadas ou deixam de funcionar adequadamente, o que pode comprometer os investimentos e resultados a longo prazo”, alerta Falsarella.
Caminhos para a transformação digital da gestão ambiental
A dissertação de Maria Luiza propõe mais do que uma solução acadêmica: trata-se de uma mudança de paradigma na forma como se pensa e pratica a gestão dos recursos hídricos. O modelo integra tecnologias que já existem e podem ser aplicadas por governos, universidades e empresas, desde que haja vontade política, investimento e capacitação técnica. “Água limpa é sinônimo de saúde. A IA e outras tecnologias emergentes são ferramentas que podem ser usadas para garantir esse direito”, conclui o pesquisador.
A pesquisa mostra que a combinação entre inovação tecnológica e planejamento estratégico pode viabilizar uma governança hídrica mais precisa, transparente e adaptável às mudanças climáticas e às pressões sociais. Com base em dados confiáveis e análise inteligente, torna-se possível antecipar riscos, evitar desperdícios e promover decisões com maior segurança e impacto positivo.
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Edição: Murilo Sacardi
Orientação: Prof. Artur Araujo

