Influenciadores e redes sociais são fontes de informação preferidas pelos nativos digitais
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Por Murilo Sacardi e Enzo Zaros
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A “geração Z” não lê, nem consome jornalismo. Provavelmente você já se deparou com essa máxima em algum lugar. Segundo o Digital News Report 2025, realizado pelo Reuters Institute, 46% dos brasileiros que procuram por informação no YouTube são atraídos por influencers voltados a notícias, frente 24% que prefere os jornalistas da mídia tradicional. O TikTok, rede social líder entre os adolescentes, é a plataforma que mais cresce para o consumo de notícias, com 18%, quatro pontos percentuais a mais que na pesquisa anterior.
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Para a jornalista e pesquisadora em jornalismo infantojuvenil, professora doutora Juliana Doretto, o jornalismo precisa fazer conteúdos pensados para esse público. “O jornalismo precisa se fazer relevante, mas não olha para esse público, não olha para as crianças, para os adolescentes. ‘Olhar’, significa pensar em pautas que dialoguem com o dia-a-dia dessas pessoas e trazer uma linguagem que faça sentido para elas”, afirma.
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“Eles não têm como opção de consumo um jornalismo que é feito buscando dialogar com o cotidiano e a linguagem deles. Mas você tem influenciadores que fazem isso”, diz Juliana.
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A professora cita um exemplo desse tipo de consumo, quando a figura que fala não importa tanto quanto o conteúdo. “Se a pessoa gosta de vôlei, e aparece um influenciador falando do Vôlei Renata, por exemplo, ele vai curtir e acompanhar. Nem sempre vai saber o nome dele”, afirma.
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Para a pesquisadora, mesmo que não consumam jornalismo, os jovens buscam informação de alguma maneira, e encontram nas redes sociais uma linguagem que atrai. “A necessidade de informação é inerente ao ser humano. A gente precisa entender o que se passa ao nosso redor, no cotidiano mais próximo e também no nosso mundo, de maneira mais aberta. Só que é difícil você encontrar informação que seja compreensível se você for um adolescente. O conteúdo jornalístico, para nós jornalistas, é claramente identificado. Para eles, não. Até porque a gente não explica o que a gente faz. Esses meninos querem informação, eles precisam ter. Aí ele está no Facebook dele, tem lá a informação, no Instagram dele ou no TikTok”, afirma.
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Camila Salmazio, jornalista especializada em público infantojuvenil e diretora de podcasts no Brasil de Fato, criou na pandemia o Radinho BdF, um podcast voltado às crianças, que fala de diferentes temas de relevância pública. “A criança e o adolescente têm direito de receber informações de maneira adequada, assim como o direito de se expressar. E para isso ela precisa ser ouvida”, diz.

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Maria Eduarda Ambrósio da Silveira tem 15 anos e estuda em escola particular. Ela diz que não costuma procurar por notícias. “Eu vejo notícias pela internet, mas não costumo pesquisar sobre. Elas aparecem geralmente no TikTok, e se eu acho interessante, paro para ver”, diz.
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O relatório da Reuters Institute mostra que há uma queda no engajamento com fontes de mídias tradicionais, como TV, rádio, jornais, revistas e sites de notícias, enquanto a dependência das redes sociais aumenta.
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A mediação dos pais é importante para atrair os jovens para o conteúdo jornalístico. Em trabalho publicado na revista científica “Contracampo”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM/UFF), denominado “Não levo à sério: jovens de classe trabalhadora e as representações da adolescência no jornalismo”, a pesquisadora Juliana investigou como adolescentes de quatorze a quinze anos, de uma escola pública da cidade de Campinas – SP, consomem a informação e reagem às representações dos adolescentes na imprensa, e percebeu o papel dos pais no incentivo à busca pela informação jornalística.
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“A mediação dos pais faz toda a diferença. Sobretudo na educação formal. Então, por exemplo, filhos de mães e pais com ensino médio ou que cursaram faculdade tendiam a ter usos um pouco mais críticos da mídia. Porque em casa também se falava disso. A educação faz toda a diferença e não a renda, necessariamente. Você tem famílias que têm uma renda até um pouco maior, mas que não têm esse debate em casa. Claro que são sempre casos, porque pesquisa em ciência social nunca é uma coisa só”, explica Juliana.
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É o que acontece na família de Maria Eduarda Lopes, 13. A estudante de escola pública, diz que não costuma procurar notícias, mas quando o faz, é pela internet. “Costumo ver notícias pelo TikTok e pelo Instagram. Mas o debate com a família acontece quando saímos de carro e ouvimos rádio no caminho”, diz.
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Já Sofia de Souza, 14, estuda em escola particular e diz procurar por notícias na TV e na internet, em portais como o g1 e o UOL. “Além disso, vejo notícias pelo Instagram. Sigo o g1 e outras páginas. Meus pais não estimulam tanto o consumo de notícias, porém nós conversamos sobre isso de vez em quando. Meus avós consomem mais notícias do que o resto da família e acabam nos informando”, afirma.
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Camila Salmazio também acredita na mediação dos pais. “Entendo que nenhuma criança deve ser atingida diretamente por uma informação. Cada uma tem o seu desenvolvimento particular e os responsáveis são capazes de mediar o que é importante e adequado para ela. Por isso a nossa divulgação é feita para os adultos, que podem mostrar o Radinho, sendo um meio de falar sobre esses assuntos, criando, ou fortalecendo laços. Nós adultos devemos entender que somos os responsáveis pelas crianças enquanto sociedade, e o jornalismo, na minha opinião, deveria operar na mesma lógica”, analisa.
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No dia 6 de agosto, o influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, publicou um vídeo denunciando o que ele denominou como “adultização”, isto é, a sexualização de crianças e adolescentes nas redes. Em menos de 10 dias, o número de visualizações no conteúdo já passava de 40 milhões.
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O vídeo se tornou um viral na internet, uniu da esquerda à direita, culminando na prisão preventiva de Hytalo Santos, um dos influenciadores acusados de sexualização infantil denunciado por Felca. Um debate circulou nas redes apontando que o jornalismo estaria perdendo sua relevância, principalmente entre o público mais jovem.
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Juliana afirma que o influenciador é um exemplo de como o conteúdo com a linguagem direcionada ao público jovem pode repercutir. “O Felca é um cara que começou a fazer streaming de game. Como é que ele caiu nos direitos da infância? Porque aquilo chamou atenção, e ficou lá fazendo aquilo um tempão. Tem uma certa equipe para ajudar. Aí um monte de gente que não fazia ideia de quem era o Felca foi lá seguir ele, porque estava falando uma coisa que interessava essas pessoas, e ele nem é jornalista”, explica.
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A pesquisadora diz que ouvir a criança e o adolescente é essencial para produzir um jornalismo que atraia os mais jovens. “Acho que ouvir mais os jovens é super necessário. Como é que você vai fazer jornalismo para idoso se não escuta idoso? Ou sobre economia se você não escuta as pessoas em relação às questões econômicas? A outra coisa é que a gente olha para criança e adolescente como se eles não fossem capazes de pensar sobre o mundo”, analisa.
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Camila diz que entender o público é essencial para atraí-lo. “Acredito que se as empresas voltarem o olhar e criarem produtos para esse público, eles vão consumir. Mas não podem ser produtos com a linguagem ou formato que os adultos de hoje consomem. Temos que pesquisar e experimentar formatos que equilibrem jornalismo e a necessidade dessa geração”, afirma.
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Segundo Juliana, precisam ser feitos formatos diferentes, para cada tipo de gosto. Desde o impresso, para ser distribuído, aos podcasts, feitos para serem ouvidos enquanto se praticam as atividades cotidianas. “E precisa estar na televisão também, porque é o veículo que chega a mais pessoas, mesmo com essa perda de audiência. Então, precisaria ter para todos os gostos, só assim as pessoas vão se acostumando com a importância do jornalismo nas suas vidas e ele vai acompanhando seu crescimento. Chega a ser ridículo, mas a verdade é que a imprensa, a comunicação social, acha que as pessoas vão se despertar para importância do jornalismo aos dezoito anos”, diz.
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Iniciativas como o Radinho BdF mostram que o futuro do jornalismo não é necessariamente o vídeo curto na rede social, mas que existem outros caminhos, que devem ser seguidos dedicando uma parte da produção das redações ao público mais jovem, atraindo desde a infância, para que continue consumindo na vida adulta.
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A pesquisadora Juliana conta que além de pensar em formatos diferentes, nos quais são apresentadas as notícias para esse público, que é diverso entre si, também se faz necessário fazer uma escuta para além das pautas pensadas para eles. “A gente precisa ouvir adolescentes para fazer jornalismo voltado para eles, mas a gente também precisa ouvir em outras pautas que não são voltadas exclusivamente, para que se vejam também nesse jornalismo. Não só para que também sejam atraídos para esse jornalismo dito generalista, mas porque são agentes da sociedade, eles interferem nela, e têm direito de participação por exemplo na vida social, e a mídia, o jornalismo, é um dos canais para que esses direitos sejam respeitados”, completa.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana
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