Dissertação de mestrado na Unicamp revela descompasso entre produção acadêmica e a cobertura feita por repórteres locais

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Por Enzo Zaros, Gustavo Cabral e Murilo Sacardi
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Campinas é um dos principais polos de produção científica e tecnológica do Brasil, mas sua intensa atividade de pesquisa não tem correspondência na cobertura jornalística local. Foi com essa inquietação que o jornalista JhonatasHenrique Simião desenvolveu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural da Unicamp, defendida em 2024.
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O estudo, intitulado “A ciência em pauta: percepção, conhecimento, hábitos e atitude divulgadora de jornalistas em Campinas (SP) sobre C&T”, investigou como os jornalistas que atuam na cidade se relacionam com a divulgação científica. A pesquisa revelou um cenário em que há alto interesse pelo tema, mas baixa produção de conteúdo sobre ciência. A principal causa apontada foi a falta de estrutura nas redações para tratar do assunto com profundidade e regularidade.
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Quem são os jornalistas de Campinas?
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Segundo os dados obtidos por Simião, a maior parte dos jornalistas que atua na cidade é do sexo feminino (58%), tem entre 18 e 34 anos (47%) e exerce funções como repórter ou assessor de imprensa. Muitos trabalham sob contratos informais ou precarizados, como freelancers ou pessoa jurídica, acumulando diversas funções e sem tempo para se dedicar à apuração científica.
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“Muitos profissionais estão sobrecarregados, o que limita o aprofundamento das reportagens. Também há dificuldade em transformar pesquisas complexas em uma linguagem acessível ao público geral”, aponta o pesquisador.
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Apesar de Campinas abrigar universidades e centros de pesquisa de excelência, como a própria Unicamp, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e o Instituto Agronômico (IAC), a ciência raramente ocupa lugar de destaque nos veículos de comunicação da cidade.
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Simião destaca que há uma distância entre jornalistas e cientistas, agravada pela falta de cultura institucional nas redações que estimule a cobertura científica. Entre os obstáculos citados, estão: excesso de demandas, ausência de especialização em ciência, falta de acesso a fontes confiáveis e carência de espaço editorial.
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O papel das instituições de apoio
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A pesquisa menciona o Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo), vinculado à Unicamp, como exemplo de instituição que atua na formação de profissionais especializados em jornalismo científico. Desde 1994, o Labjor oferece cursos de pós-graduação que integram jornalistas e cientistas em atividades de ensino, pesquisa e extensão.
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Outro dado relevante da dissertação é o pouco espaço dedicado ao agronegócio, mesmo sendo um setor com forte presença científica e econômica na região. Segundo o pesquisador, esse desinteresse pode ser atribuído à percepção negativa sobre o setor, à falta de formação específica dos jornalistas e ao desmonte de editorias especializadas, que existiam no passado.
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Da pesquisa à prática
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Jhonatas Simião espera que sua dissertação contribua para fortalecer o jornalismo científico e estimular políticas públicas voltadas à popularização da ciência.
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“Quero que a pesquisa sirva de alerta para as redações, promovendo uma cobertura mais estratégica da ciência. Também espero que as universidades se aproximem mais da imprensa, melhorando o diálogo com a sociedade”, conclui.
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A dissertação está disponível no Repositório da Produção Científica e Intelectual da Unicamp. Como trabalho acadêmico de mestrado, ainda não foi publicado em revista científica nem passou por revisão por pares, mas oferece um retrato inédito sobre o jornalismo local e sua relação com a ciência.
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Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

