Boogie Week e o Fórum Fashion Revolution 2024 conectaram passado e presente para promover um futuro mais inclusivo
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Por Brenër Pompêo
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No Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, a quarta edição do Boogie Week reuniu a comunidade afro-brasileira no Centro Cultural Tendal da Lapa, em São Paulo. O evento gratuito ofereceu shows, feiras culturais, debates e exposições, destacando a criatividade da comunidade negra. Mais do que uma comemoração, o Boogie Week se firmou como um espaço para reescrever narrativas históricas, fomentar o empreendedorismo e conectar a herança afro-brasileira ao presente.
Já em 22 de novembro, durante a Semana da Consciência Negra, o MASP sediou a 6ª edição do Fórum Fashion Revolution. Ana Paula Xongani, em sua palestra “Moda e Ancestralidade”, argumentou que uma moda autêntica deve se enraizar no passado para florescer no presente. “Uma árvore forte tem raízes profundas”, afirmou, destacando a importância de valorizar as origens. Este ano marcou o primeiro em que o Dia da Consciência Negra foi reconhecido como feriado nacional e a Igualdade Étnico-Racial se tornou um Objetivo do Desenvolvimento Sustentável.
Pesquisa realizada pelo PretaHub, Instituto Afrolatinas e Instituto Locomotiva, entrevistou 590 trabalhadores negros da economia criativa em todo o Brasil entre julho e agosto de 2023. A pesquisa revelou que muitos atuam em múltiplas áreas: 41% na cultura popular e eventos, 37% no audiovisual, 33% na música e 31% no entretenimento.
Além disso, 71% dos produtores de eventos com temáticas negras acreditam que esses eventos estão mais preocupados em formar equipes diversas, e 57% acreditam que estão mais preparados para acolher um público diverso. A pesquisa também mostrou que 97% dos profissionais negros da economia criativa já enfrentaram algum tipo de discriminação, com 79% das mulheres negras relatando mais de três situações de discriminação.
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Cultura e Ancestralidade
Para Eliane Dias, diretora-executiva da Boogie Naipe, o Boogie Week é uma oportunidade de mostrar a força técnica e profissional da comunidade negra, desassociando-se das narrativas de dor frequentemente impostas. “Queremos mostrar que somos técnicos, profissionais, e que chega de tentar combater o racismo estrutural apenas mostrando dor. Temos momentos de luta, mas também de felicidade e conquista”, pontuou Eliane.
Além do festival, Eliane também destacou a curadoria da exposição “Racionais MC’s: O Quinto Elemento”, no Museu das Favelas, inaugurada em 6 de dezembro de 2024. “Quero que as pessoas visitem o museu, entendam o que ele significa e o quanto é gostoso frequentar esse tipo de espaço cultural”, disse. Para Eliane, a exposição é um marco na valorização das trajetórias negras, conectando a música e a arte à ancestralidade. A obra revela a intimidade, memórias e o processo criativo do grupo de maior impacto no rap nacional.
A ideia de conectar passado e futuro também permeia a visão de Ana Paula Xongani, multiempresária e estilista. Para ela, moda e ancestralidade estão intrinsecamente ligadas. “Moda é um ato genuíno e extremamente particular de se vestir.
É contar histórias a partir de escolhas individuais, que refletem no coletivo”, explicou. Ao questionar estereótipos sobre vestimenta e elegância, Ana Paula reforça a importância de legitimar as escolhas e narrativas de diferentes culturas, incluindo as dos povos originários e afrodescendentes. “Até o não vestir é uma escolha e faz parte da moda”, afirmou.
Confira no áudio a seguir as potências negras criativas contando o que gostariam de ter escutado no começo de suas carreiras.
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Moda como Identidade
No Brasil, empreendedores negros representam uma parcela significativa da população empreendedora. Dados de 2019 do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), Sebrae e Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que a taxa total de empreendedores (TTE) entre pretos ou pardos é maior do que a de brancos.
Entre os pretos ou pardos, 39% são empreendedores totais, enquanto entre os brancos essa taxa é de 37,8%. Quando analisamos os empreendedores iniciais, pretos ou pardos representam 23,1%, comparado a 23,6% entre os brancos. Para novos empreendedores, a taxa é de 15,7% entre pretos ou pardos e 16,1% entre brancos. Entre os empreendedores nascentes, pretos ou pardos somam 8,1%, enquanto brancos somam 7,9%. Finalmente, 16,5% dos empreendedores estabelecidos são pretos ou pardos, em comparação com 15,2% entre os brancos.

No campo do empreendedorismo no setor da moda, a marca Afroperifa, comandada por Will da Afro, exemplifica como a moda pode ser uma ferramenta de transformação social. Fundada em 2017, a marca afrourbana nasceu da necessidade de representar esteticamente a periferia e fortalecer a autoestima de sua comunidade. “Se eu não sou lembrado, não sou visto, e se não sou visto, não consumo. Com essa provocação, criei a Afro Perifa para trazer nossas narrativas e valorizar o que é produzido na quebrada”, afirmou Will.
A cadeia produtiva da Afroperifa é composta por moradores locais, fortalecendo a economia periférica e ampliando oportunidades. “Além de roupas, é uma marca com propósito. Não se trata apenas de vender produtos, mas de fortalecer nossa comunidade e mostrar que nossas histórias têm valor”, acrescentou.
Will também compartilhou conselhos para quem deseja empreender. “Antes de iniciar seu negócio, planeje-se. Conhecimento e planejamento financeiro são essenciais. Olhe para si mesmo e diga: ‘Eu sou capaz.’ Com autoconfiança e planejamento, tudo é possível”, destaca.
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Comunicação e Conhecimento

Yasmin IaLuny, coordenadora de comunicação do Boogie Week, ressaltou como a informação pode transformar realidades. Para ela, o conhecimento não apenas fortalece a autoconfiança, mas também prepara os jovens negros para enfrentar desafios estruturais. “Estude não apenas o que é o seu trabalho principal, mas também tudo o que o cerca, como questões jurídicas e de assessoria. Isso te dá mais segurança para pleitear o que você precisa e defender suas ideias”, aconselhou.
Ao refletir sobre sua trajetória, Yasmin destacou a importância de humanizar as narrativas negras. “São 300 anos de atraso, mas não o meu. Esse atraso foi imposto. Por isso, invisto no que acredito, mas também me permito viver levezas e amenidades que a humanização de pessoas negras necessita”, afirma.
A cultura afro-brasileira é destaque durante a Boogie Week e o tema do vídeo abaixo.
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O Boogie Week, assim como os projetos liderados por Eliane, Will, Yasmin e Ana Paula, reafirma que o mês da Consciência Negra é um convite não apenas à celebração, mas à ação coletiva. Seja por meio da música, da moda ou da comunicação, as iniciativas destacam a força criativa e transformadora da população afro-brasileira.
Como lembrou Eliane Dias, “trabalhar com nossas crianças, nossa cultura e nossos mais velhos é essencial. Mostramos que nossa luta não é só dor; é técnica, felicidade e conquista.” O evento, assim, não apenas celebrou a resistência histórica, mas lançou luz sobre o futuro que a comunidade negra está construindo, repleto de narrativas próprias, escolhas conscientes e uma rica herança ancestral.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

