Cidades da RMC viram polos de trabalho, mas têm falta de planejamento, baixos salários e pressão por serviços públicos
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Por Sabrina Paiva e Heloísa Pereira
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Nos últimos anos, municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) vêm absorvendo uma parcela crescente dos empregos industriais e logísticos que antes se concentravam na cidade de Campinas. Essa descentralização da atividade produtiva, impulsionada por incentivos fiscais e custo mais baixo de operação, está transformando o perfil econômico da região — e aprofundando desigualdades estruturais.
Dados do Novo CAGED, analisados por pesquisadores da PUC-Campinas e da Unicamp, mostram que cidades como Hortolândia, Sumaré e Monte Mor lideram a geração de empregos formais na indústria de transformação, transporte e logística. Enquanto isso, Campinas se consolida como uma metrópole terciária, com forte presença do setor de serviços, comércio e atividades educacionais.
Essa transformação regional, porém, traz desafios. De acordo com o economista e professor da PUC-Campinas, Fabrício Pessato, há um “deslocamento da produção para municípios periféricos sem que haja uma descentralização proporcional das condições de vida”. Isso significa que o emprego vai para fora do centro, mas os equipamentos públicos e a infraestrutura urbana permanecem concentrados nas cidades-polo.
“Você transfere a base econômica, mas mantém a concentração dos serviços de saúde, cultura e educação em Campinas. Isso gera um descompasso estrutural na RMC”, afirma Pessato. O resultado, segundo ele, é uma maior dependência da mobilidade intermunicipal, com impacto direto sobre o tempo de deslocamento e os custos indiretos para os trabalhadores.
O fenômeno é detalhado no artigo científico publicado na revista Nova Economia (2023), assinado por Rogério Barbosa e Fabrício Pessato. No estudo, os autores analisam as condições de emprego e a reestruturação produtiva na RMC, demonstrando que a periferização econômica está associada à precarização das relações de trabalho. A concentração de vagas em setores como logística e montagem está correlacionada a contratos terceirizados, remuneração mais baixa e rotatividade elevada.
O professor ressalta que, embora os dados do Novo CAGED indiquem crescimento do emprego formal, é preciso atentar à qualidade dessas ocupações. “Muitas vezes esses vínculos são frágeis, com menor proteção trabalhista e baixos salários. Há uma tendência de precarização que acompanha essa descentralização”, observa.
Além disso, o processo é impulsionado por políticas de renúncia fiscal adotadas por municípios que buscam atrair empresas com a promessa de isenção de tributos. “As prefeituras concorrem entre si para captar investimentos, mas nem sempre avaliam o impacto orçamentário a longo prazo”, pontua o economista.
O artigo também chama atenção para a necessidade de coordenação metropolitana. Os autores defendem que, sem planejamento conjunto entre os municípios da RMC, o crescimento econômico fragmentado pode gerar desequilíbrios ainda maiores, sobrecarregando os sistemas de transporte, saúde e educação em determinadas áreas, enquanto outras continuam com infraestrutura ociosa.
Outro ponto ausente no debate público, segundo Pessato, é o papel do Estado no financiamento e regulação dessa expansão produtiva. “Não basta deixar o mercado guiar essa reorganização. É preciso política pública que pense a integração territorial com justiça social e equilíbrio fiscal”, conclui.
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Edição: Murilo Sacardi
Orientação: Prof. Artur Araújo

