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Pondé critica o que chama de ‘sociedade de excessos’

No Café Filosófico, o escritor diz que a preocupação com o volume ocupa o lugar “daquilo que nos falta”

Por: Marcos Rossi

Pautada pela marca da inovação aceleradora do processo produtivo, a sociedade atual tem se caracterizado pelo consumo em excesso – de bens, de alimento e até de sensações. A avaliação é do filósofo Luiz Felipe Pondé, em palestra que discutiu de que maneira a filosofia entende a cultura nos tempos modernos, no Café Filosófico na última quinta-feira (16). “Ao invés de nos preocuparmos com o que nos falta, estamos sempre em busca de mais”, disse.

Luiz Felipe Pondé: “Ao invés de nos preocuparmos com o que nos falta, estamos sempre em busca de mais” (Foto: Marcos Rossi)

Escritor e palestrante, Pondé afirmou que existe a tendência na cultura comportamental do século XXI de usar elementos intensificadores, como remédios, para a realização de uma autoperformance, sempre em busca do excesso. Como exemplo, citou o uso (quando não recomendado) do Viagra nos casos em que a pessoa busca “uma espécie de garantia” para assegurar seu bom desempenho.

Em analogia ao livro Sociedade do Cansaço, escrito por Byung-Chul Han, no qual se discute a cultura da produção a todo momento, Pondé crítica a ideia contemporânea do “pensar positivo”. Segundo ele, é uma maneira de pregar a necessidade de ser eficaz, eficiente, produtivo, e de sempre finalizar o dia com o pensamento de ter se realizado por completo, algo utópico na avaliação do escritor.

Pondé explicou que a interpretação do modelo de vida ideal como sendo a busca pelo excesso foi pautada pela filosofia estadunidense, baseada na sofisticação da busca pela abundância e estruturada na sociedade de consumo. “A vida é arrastada pela lógica de produção, vindo da ideia burguesa de inovação a todo instante”, ponderou.

O filósofo ainda ironizou conceitos enraizados em torno da ideia da produção como sinônimo de felicidade. “Quem inventou que somos felizes no trabalho? A maior parte das pessoas está preocupada com a janta”, afirmou. “A felicidade é episódica. É muito mais fácil ser infeliz, do que ser feliz”.

Para exemplificar, Pondé citou a cultura da educação escolástica, para ele “vendida”, de criar “novos Einsteins”, na procura por novas descobertas a todo momento. O escritor disse que o marketing explora a ideia de diminuir afazeres para sobrar tempo de buscar inovações, como no caso do aplicativo de celular “iFood”, cujo é “cozinhar para a pessoa”. A intenção seria convencer o consumidor de que ele ganha tempo com isso, tempo esse nem é aproveitado.

Para o conferencista, a busca da sociedade pelo excesso, de maneira geral, é estruturada em três pilares. O primeiro seria o anseio da felicidade, que se dilui na mentira compulsiva e no egocentrismo, sendo todas elas afetadas pela indústria. O marketing, também usado na propaganda de comida, usa da mentira para atingir a subjetividade de cada pessoa, para a levar a interpretar a busca do novo como necessidade. “Você não irá salvar o mundo consumindo comida orgânica, mas alguém vai te vender a ideia de que sim”, disse.

Como exemplo, o escritor citou a tendência de enxergar a criação de filhos como um problema, por ter como característica uma solidez desprezada pela sociedade, já que é criado um vínculo, tanto com a criança, quanto com o parceiro. “Dura muito tempo”, disse, ao ponderar que a postura é contrária a ideia do anseio, que não é estruturada.

Pondé avalia que essa tendência não deve mudar ao decorrer dos próximos anos, já que o ser humano tem, por característica, a insistência em não recuar, mesmo em momentos em que se observa o erro. “A nossa espécie é caracterizada por gerar problemas”, advertiu.

De acordo com o filósofo, essa postura resulta em uma sociedade superficial e pautada no fingimento. “A vida é vivida como se fôssemos personagens”, disse ao citar trechos da obra de Theodor Adorno, sociólogo alemão, para fazer uma analogia com as redes sociais. “Hoje, tudo tem que ser postado no Instagram: viagens, comidas, compras. Um foto tirada do show passa a ser mais importante que o próprio acontecimento”, avaliou.

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti
Edição: Isabela Meletti

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