Variedades/Cultura

O neologismo das minorias

Álvaro da Silva Jr.

Presença cada vez mais constante nos discursos dos movimentos sociais dos últimos anos, a palavra empoderamento foi a mais procurada no dicionário Aurélio online no ano de 2016, conforme levantamento feito pela editora Positivo. Derivado do verbo empoderar, esse novo substantivo significa “adquirir poder ou mais poder”, segundo explica a obra, não devendo ser confundido com o verbo apoderar.

Trata-se de um “neologismo” –uma nova palavra que, depois de algum uso, ganha verbete em dicionários– o que reflete um processo natural da língua, segundo explica professora Maria de Fátima Amarante, diretora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas. Uma simples pesquisa no Google Trends já é suficiente para revelar o aumento do interesse em torno da expressão que sequer era citada na edição do Aurélio de duas décadas atrás, Seu significado remete à luta por conquistas sociais ligadas às minorias.

“Você pode falar no empoderamento das empregas domésticas ou empoderamento dos garis, mas sempre se referindo ao empoderamento de minorias. Nunca a gente vai falar, por exemplo, no empoderamento da classe A. Não existe essa possibilidade porque poder é algo que essa classe social já tem”, destaca a professora Amarante, das áreas de linguística aplicada e língua inglesa, também pesquisadora do mestrado em Linguagens, Mídia e Arte, da PUC-Campinas.

A palavra empoderamento é uma adaptação do inglês empowerment, cujo significado se mantém na língua portuguesa, sempre se referindo aos processos sociais. Processos sociais buscam promover mudanças na sociedade, principalmente em relação às minorias. É basicamente um termo técnico criado pela sociologia e antropologia. “No momento em que se cria um conceito em uma área, as formações discursivas se conversam e passam para todas as outras áreas de conhecimento”, lembra a docente.

Logo que surgiu o novo termo, alguns lexicógrafos, escritores e cronistas disseram que a palavra era feia, de pouca sonoridade. Para a professora Amarante, contudo, essa é uma questão de gosto estético: “Não tem outra para colocar no lugar”, completa Amarante.

“Não gosto da palavra empoderamento”, diz a professora Ana Manssour, 54 anos, relações públicas criadora da organização Verbo Mulher, voltada ao empreendedorismo feminino. Mestre em administração com ênfase em organizações, ela está habituada a lidar com questões relativas à falta de oportunidades às mulheres.

Ana Manssour apresenta a organização Verbo Mulher

Ana até usa o termo empoderamento, mas prefere usar “desenvolvimento feminino” no sentido de empoderar – atribuir poder. “Mas como é que a gente se empodera? Se empodera a partir do momento em que a gente se desenvolve, que sabe o que fazer, como fazer, onde e quando fazer. Esse é o nosso objetivo, desenvolver as mulheres, que depois elas andam sozinhas”, explica Manssour.

 

Com a globalização,

transposição é natural, diz docente

 

“Nunca vamos parar de criar palavras. Mas elas sempre surgirão dentro das normas morfológicas existentes”, ressalta a professora Amarante. A criação de palavras oriundas do inglês, por exemplo, se deve ao processo de globalização, cuja maior parte está ligada à área de tecnologia. Algumas sofreram processo de adaptação ou aportuguesamento.

Com a palavra empoderamento não foi diferente, segundo a docente. “Com a globalização, e no momento em que se tem a necessidade de tradução, o natural é que as palavras sejam basicamente transpostas para o português com as adaptações para as regras morfológicas de nossa língua, exatamente o que fizeram”, diz Amarante.

O que pode determinar a dicionarização de uma palavra é a frequência de seu uso. Se não houvesse a frequência de uso, não haveria a dicionarização. “Empoderamento passou a ser usada com mais frequência à medida que o movimento feminista passou a ganhar muita força”, acentua a professora Amarante.

Uma simples busca pelo neologismo no Google Trends, por exemplo, aponta o crescente aumento da procura pela expressão nos últimos 5 anos. O auge de buscas se deu em março de 2017, conforme aponta o gráfico.

Segundo a professora, para que uma nova palavra possa fazer parte do Dicionário Aurélio leva entre 5 e 10 anos. Num dicionário de internet, o processo é muito mais rápido, mas o problema será o reconhecimento do dicionário. Em 2016, Priberam dicionarizou mais de 800 palavras, porque é um dicionário online, não impresso. No Aurélio, as formas impressa e online são a mesma. Se não estiver na edição em papel, não aparecerá na virtual.

 

“Feminismo só visa a equidade,

não sendo o oposto do machismo”

 

A nova expressão também é usada no mundo corporativo. É o caso da empresa KPMG, que há 10 anos tem uma política interna nesta área, desenvolvida por Patrícia Molino e baseada nos 7 princípios de empoderamento feminino propostos pela ONU. Sócia da empresa, ela é líder para a América Latina em consultorias para mudanças comportamentais.

“Empoderar a mulher para que ela faça suas próprias escolhas, para se libertar talvez da submissão ou do controle exercido por outra pessoa” seria, segundo Patrícia, o conceito do empoderamento feminino. Um dos pontos destacados por ela está ligado ao embate machismo versus feminismo. Segundo afirmou, machismo é a crença de que os homens podem exercer o controle ou ter poder sobre as escolhas da mulher, sejam essas patrimoniais ou em relação às liberdades sociais ou ao próprio corpo. O feminismo é o direito de a mulher assumir essas decisões por conta própria.

“O feminismo só visa a equidade, não sendo o oposto do machismo. Queremos desconstruir esses papéis, quebrar os estereótipos e ampliar a liberdade da mulher, o que também amplia o espaço e a liberdade do homem, que acaba conquistando novas possibilidades e recompensas na vida”, disse Patrícia.


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Digitais é um produto laboratorial da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, com publicações desenvolvidas pelos alunos nas disciplinas práticas e nos projetos experimentais para a conclusão do curso. O layout foi desenvolvido em parceria com o Departamento de Desenvolvimento Educacional (DDE) da instituição. Alunos monitores/editores de Agosto a Dezembro de 2017: Breno Behan, Breno Martins, Caroline Herculano, Enrico Pereira, Giovanna Leal, Láis Grego, Luiza Bouchet, Rafael Martins. Professores responsáveis: Edson Rossi e Rosemary Bars. Direção da Faculdade de Jornalismo: Lindolfo Alexandre de Souza.

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