A Dama do Coração Selvagem

Há 40 anos, morria Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira    


Foto: IMS. Arte: Maíra Torres

Há 40 anos, morria Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira

 

 

   “Ela detestava papo-cabeça” 

por Lizandra Perobelli

“Ela dizia que era burra! Detestava papo-cabeça, ia logo falar de coisa de comer”, conta a ex-professora da Unicamp Vilma Arêas ao se recordar dos momentos em que esteve com Clarice Lispector. Em dezembro de 2017 completam-se 40 anos na morte da escritora ucraniana naturalizada brasileira.

Autora do livro de ensaios Clarice Lispector: com a ponta dos dedos (2005) e outras obras de ficção, como A Terceira Perna (1992), vencedor do prêmio Jabuti de literatura no ano seguinte de sua publicação, Vilma conheceu a escritora judia em um grupo de terapia no Rio de Janeiro durante o Regime Militar (1964-1985). Tornou-se uma das maiores autoridades sobre a consagrada personalidade.

Vilma disse que participava de um grupo de terapia para tentar organizar a cabeça numa época muito difícil de ditadura. Ela conta que o psicólogo responsável, Jacob David Azulay, havia dito que Clarice também fazia terapia individual, mas que não conseguia fazer nenhuma interpretação, o que causava estranhamento por Clarice ser autora de obras consideradas importantes.

Um dos primeiros diálogos entre as duas se deu justamente numa dessas sessões terapêuticas. “Clarice, que era uma pessoa lenta, foi andando depressa atrás de mim, me chamando pelo nome. Ela me disse: ‘Ele [o psicólogo] gosta mais é de você’. Aí, pensei: ‘Clarice falou comigo! Estou curada!’”, conta a professora, emocionada.

Apesar de gostar de “falar coisa de comer” ou se depreciar, a especialista conta que romancista tinha uma observação pessoal bonita e que sua conversa cotidiana era muito interessante. Vilma diz que foi visitar Clarice no hospital e comentou que todos estavam amando o livro [A Hora da Estrela, publicado em 1974], e a escritora respondeu: “Tanta gente tá gostando que não pode prestar”. Em seguida observou que havia uma luz bonita no rosto de Vilma, e pediu para que ela se visse em um espelho.

Pontas dos dedos – A professora aposentada explica que a autora, nascida em 1920 e radicada no Brasil dois anos depois, dividia sua literatura entre a “da ponta dos dedos” e a “das entranhas”, prezando mais por esta. A primeira era de uma época em que ela precisava cumprir prazos dados pelas editoras. “Ficava muito chateada por ter que trabalhar sob encomenda, como foi o caso do livro A Via Crucis do Corpo (1974), no qual há temas polêmicos para a época, como a questão da sexualidade feminina.” Já a segunda diz respeito à criação sem exigências comerciais.

A especialista diz que Clarice Lispector, considerada um dos maiores nomes da literatura nacional, dizia com frequência que havia nascido em vão. Essa afirmação seria consequência  do fato da escritora ter sido gerada para curar uma doença da mãe, fato que marcou e influenciou sua vida, além de sua escrita, “uma vez que escrever é uma maneira de existir”.

Quanto à identidade de Clarice como escritora, Vilma afirma que ela era completamente intuitiva. A pesquisadora se mostra incomodada com a atuação da crítica literária atual e com o fato de a contista vir pronta em um alto pedestal da literatura e que isso é um risco muito grande, porque as pessoas já chegam para adorá-la. Afirma ainda que cada um se lê no que Clarice escreveu, mas que deixam o texto dela de lado.

Sobre a brasileira ser badalada nos dias de hoje, a estudiosa diz que a fama surgiu depois que a ela foi colocada no mercado internacional. “Quando é que um escritor é bom? Quando ele é traduzido e quando ganha um prêmio”, diz.

Estampa de oncinha – Casada com um diplomata brasileiro, Lispector morou muitos anos fora do país. Em 1959, regressou para o Brasil depois de se separar, adoeceu diversas vezes e passou por episódios trágicos. Em um deles, dormiu com um cigarro aceso e quase morreu em um incêndio.

Vilma Arêas se lembra de outro episódio, neste caso, mais cômico do que trágico. “Ela estava em um curso sobre estruturalismo vestida com um traje de estampa de oncinha e maquiagem que se assemelhava a uma máscara. Clarice sabia emburrar! Levantou-se e disse: ‘Não estou entendendo nada, vou para casa comer uma coxa de galinha bem gorda!’”.

 

Vilma Arêas em seu apartamento na cidade de São Paulo. Foto: Lizandra Perobelli

Foto: Arquivo IMS. Arte: Maíra Torres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Literatura intimista 

Mas acontece que uma coisa escrita e não publicada me dá uma frustração, sinto como moça que faz enxoval de casamento e guarda num baú. Antes casar mal que não casar” dizia Clarice em 1956. Em seu texto, uma reflexão cotidiana: livros e enxovais, publicar para se fazer existir. Era a manifestação do existencialismo, a marca de Clarice. A professora de literatura e feminista Marcela Rodrigues Nava, 32, descreve que a importância da romancista se deve à coragem de trazer à tona uma mulher sem romantismos. “Sempre quis ‘jogar alto’, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena” já pontuava a autora em 1953.

Um monólogo interior, que permite ao leitor perceber os desejos mais íntimos, além de acessar o inconsciente da pessoa em questão” assim descreve a professora sobre como se formavam os textos de Clarice Lispector. E de trechos em trechos de Clarice sendo presente em seus textos, fez-se também presente a figura de uma mulher livre, mas muitas vezes aprisionada em rótulos. Clarice vivia simultaneamente: as publicações de Simone de Beauvoir, um feminismo ganhando força, um casamento “tradicional” e o papel de mãe. “Todos os questionamentos das personagens podem muito bem refletir o próprio conflito interno de Clarice” comenta Fábio Blanc, 32, graduado em Letras e apaixonado pela autora.

Longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando” trecho de Um sopro de vida (1977). O texto continha as últimas pulsações de Clarice e foi seu último livro, escrito às vésperas de sua morte. É uma narrativa que lida com o tormento causado pela vida e uma criação que se relaciona com o momento que passava a autora. Fazer uma literatura tão intimista sem mencionar as próprias experiências era um desafio para a romancista. Em cartas trocadas com Fernando Sabino, ela menciona as dificuldades: “eu queria me pôr completamente fora do livro, e ficar de algum modo isenta dos personagens (…) o meio que achei de me pôr fora foi colocar-me dentro claramente”.

 

Trecho do livro “A Hora da Estrela”. Foto: Maíra Torres

 

Há ‘coincidências temporais’ nas suas obras,” afirma Blanc “em 1952, Clarice publicou Amor, um dos seus melhores contos, ouso dizer. A história trata de uma mulher casada em conflito consigo mesma. Em 1959, seu casamento real acaba”. Clarice constituiu a partir de cenas banais e personagens comuns (mães, jovens, trabalhadoras) um universo convidativo para desvendar a alma feminina. E na ânsia de estabelecer sentidos para a vida e para a existência, produziu as máximas (suas frases de efeito, sentenças). Marcela Rodrigues descreve as máximas como sínteses “universais e atemporais. O leitor consegue se ver representado” e isso é o que todos desejavam, especialmente as mulheres.

Existe um lugar da mulher? Qual é? No fundo, para mim, sua obra e sua vida mostram que a mulher pode ser o que quiser” Rodrigues Nava expõe as questões que cercavam Clarice. E com indagações e conclusões complexas, a autora difundia discursos que não se restringiam só ao público adulto. Suas produções infanto-juvenis alcançam destaque por não subestimarem a compreensão das crianças. É com cuidado, que explicitam um adulto que deve se aproximar do universo infantil para conseguir compreendê-lo. “É como se a mulher-mãe ressignificasse as suas próprias experiências e as escrevesse” traduz Marcela Rodrigues. Fábio Blanc reforça que os textos infantis mostram as reflexões da Clarice-mãe.

Receba em teus braços o meu pecado de pensar” – Clarice Lispector, 1977. E foi pensando que a autora completou 57 anos de vida, 34 deles produzindo livros. Livros da vida cotidiana, mas nem só por isso fáceis de se ler. “Clarice escreve simples. Tão simples que a gente não leva a sério. Como toda boa leitura, o leitor precisa ser ativo nesse processo” descreve Fábio Blanc. Leituras maduras, elaboradas, mas ela própria discorda “ainda me sinto tão longe da maturidade que nem posso falar de ‘adolescência’, só posso dizer que parei na infância”. Se prefere então, menina Clarice, continue a clarear os caminhos da literatura com seu discurso de MULHER.

*Os depoimentos de Clarice foram retirados do conjunto de suas cartas trocadas com o escritor Fernando Sabino (1923-2004), reunidas no livro Cartas perto do coração.

 

Mulheres e Clarice. Foto e Arte: Maíra Torres

 

    Clarice nas redes sociais 

por Marina Menegatto

A influência que Clarice tem nas redes sociais é incontestável: somente no Facebook, é possível encontrar mais de 45 páginas com o seu nome; uma das publicações de uma das páginas contabiliza mais de 1.200 reações. No Tumblr, uma publicação com o nome de Clarice como autora da frase chega a quase 20.000 compartilhamentos.

Tereza de Moraes, professora de Letras da PUC–Campinas e mestre em Literatura, acha importante que, mesmo depois de 40 anos de sua morte, Clarice ainda seja lembrada: “Eu vejo com naturalidade essa influência de Clarice. Uma mulher que tenha tido essa história de vida e que tenha escrito os textos que ela escreveu é uma mulher que não pode ser esquecida, que precisa ser revisitada. É muito importante que as pessoas leiam e busquem entende-la.”

Tereza continua com um porém: “Por outro lado, eu vejo com certa reserva todo esse frisson que existe em torno dela. Muitas vezes as pessoas vão buscar a Clarice não porque elas têm interesse, mas porque a Clarice é enigmática e, de alguma maneira, dá status intelectual para alguém que diz que lê Clarice ‘desenfreadamente.’ Se você lê Clarice pra que você possa se conhecer, pra que você possa se libertar, eu acho perfeito e extremamente válido, mas só pra você citar frases dela, postar aquilo na internet e dizer ‘olha eu sou intelectual’, eu acho isso uma bobagem e até te prejudica. Muitas vezes, você posta uma coisa que nem é realmente dela… e a coisa vai se perpetuando desnecessariamente.”

 

Foto: “O importante é o que importa”, da página “Clarice Lispector diz”, no Facebook

 

O problema da influência “clariciana” nas redes são as citações falsas, que são constantemente publicadas e compartilhadas com diversas intenções. ““Eu tenho medos bobos e coragens absurdas.” – Clarisse Lispector” é só um exemplo do que pode ser encontrado nas redes sociais quando a questão são citações.

Artur Araujo, professor da PUC-Campinas e mestre em Ciências da Comunicação, diz que, quando a publicação possui vários likes e compartilhamentos, a tomamos como verdadeira: “A rede social tornou muito fácil publicar informações erradas ou mentirosas. Um filósofo da linguagem, chamado [John Langshaw] Austin, falava que a comunicação pressupõe confiança e as pessoas tendem a confiar no interlocutor. Nas redes sociais, nem sequer se vê o interlocutor, porém aquela mensagem chega com vários compartilhamentos, com várias curtidas e pensamos que aquilo deve ser verdade.”

Ao ser perguntado sobre o porquê de as pessoas que publicam essas citações mentirosas, Artur disse: “Existem dois lados. Um é tentar associar seu nome a uma celebridade, mesmo que a sua autoria desapareça. Por outro lado, existe uma obsessão nas redes sociais por likes e compartilhamentos. Porque like, compartilhamento, viraram uma espécie de, de um lado, status social, de outro lado até dinheiro. Você monetiza esse status de influenciador digital.”

Para que as frases falsas e de autorias erradas possam para de se espalhar pela internet, tanto o professor Artur, quanto a professora Tereza, acreditam que a única maneira possível é se aprofundando mais na leitura, não só de Clarice Lispector, como de qualquer outro autor “famoso” nas redes sociais.

Artur considera as citações como memes: “Em vez de ficar lendo essas citações, esses memes, leia o livro original. Ele vai ser muito mais enriquecedor do que o meme. As citações falsas têm sido muito comuns. Clarice Lispector no topo, mas tem Caio Fernando Abreu, Nietzsche, Napoleão, um monte de personagens históricos a quem esses discursos falsos estão sendo atribuídos.”

Tereza acha que a leitura de Clarice deve ser uma viagem ao conhecimento próprio: “Eu acho que utilizando Clarice para conhecer o mundo e conhecer a si mesmo, não simplesmente para devolver à sociedade as frases bonitas que ela faz é uma maneira de a gente parar de fazer isso. Eu não vou mais me preocupar com o que ela disse, eu não vou mais reproduzir o que ela disse, mas eu vou viver o que ela viveu.”

Mas nem sempre as citações falsas são difíceis de serem reconhecidas. A página “Clarice Lispector diz”, administrada por Camila Possani e seu primo, publica fotos de Clarice com frases que (obviamente) não foram ditas pela escritora e sim, pela MC Ludmilla nos seus funks.

Camila conta que criou a página em 2013, quando tinha 14 anos, por causa de outra rede social, o Tumblr: “Eu e meu primo, e criamos a página por conta do Tumblr. No Tumblr surgiram muitos escritores e pseudoescritores, mas a maioria, para ganhar reblogs, acabava colocando o nome de um escritor famoso e a maioria usava a Clarice”. Camila também disse que, mesmo a página sendo de “zoeira”, ainda tem gente que acredita: “Nos comentários, tem algumas pessoas concordando com as frases. Já recebemos mensagens de gente pedindo auxílio de como ser um escritor com reconhecimento nacional!” e ainda completa: “Se tá na internet, deve ser verdade haha”.

 

Arte: Maíra Torres. Informações: IMS

 A Hora da Estrela ganha edição especial 

por Marla Santos

A lembrança dos 40 anos de morte de Clarice Lispector vem acompanhada do aniversário de lançamento do seu título mais vendido. Há anos nas listas dos principais vestibulares do país, A hora da estrela também completa 40 anos em 2017 e narra o que Clarice chamou de “inocência pisada” e “miséria anônima” da datilógrafa alagoana, habitante de uma pensão miserável na região portuária do Rio de Janeiro. A edição que chegou às livrarias este ano, vem amparada por variada fortuna crítica, contando com seis ensaios de estudiosos do Brasil, Argentina, França e Irlanda.

 “Um dos maiores livros do mundo” 

 É com essas palavras que a pesquisadora francesa Hélène Cixous define o pequeno volume d´A hora da estrela. A narrativa, lançada pouco tempo antes da morte da autora, trata da vida e morte de Macabéa, a jovem virgem, e que, de tão pobre, alimenta-se somente de cachorro-quente e coca-cola. No Brasil, Clarice desperta admiração não só pela diversidade de sua produção (contos, romances, crônicas e livros infantis), mas pela profundidade de sua obra. A autora ucraniana, radicada na mesma Alagoas de sua personagem mais famosa, tem um “universo particular”, não sendo possível enquadrá-la em escolas literárias. Sua obra, na avaliação do crítico Colm Tóibin, é uma das mais geniais do século XX, à altura da produção de autores como Borges e Fernando Pessoa.

 

Além dos contos e romances, Clarice explorou o universo da literatura infantil. Foto: Maíra Torres

 

Todos os Contos – A Editora Rocco lançou em 2016 os 85 contos de Clarice Lispector em volume único de 656 páginas. Lançado em 2015 nos Estados Unidos, com o título The complete stories, pela Editora New Directions, a coletânea entrou para a lista dos 100 melhores livros do ano, na avaliação do The New York Times. Aqui no Brasil, a Rocco pretende lançar, em 2018, “Os crimes da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, com outro aspecto da produção de Clarice, a tradução.

 

As obras de Clarice têm alcançado reconhecimento internacional.Foto: Maíra Torres

 

Todos os contos traz histórias muito conhecidas como “Uma galinha” e “Feliz aniversário”. O prefácio é de responsabilidade do pesquisador e biógrafo Benjamin Moser, assim como a organização da coletânea, feita com a preocupação de registrar as variantes dos textos de Clarice, que tinha por hábito reescrever suas obras e publicá-las com as alterações. Para Moser, a literatura de Clarice é desafiadora e instigante, o que atrai, mas também afasta tanto leitores quanto críticos. Para os admiradores, Clarice desperta paixão pela obra e pela mulher, segundo Moser: “A sua arte é uma arte que nos faz desejar conhecer a mulher; e ela é uma mulher que nos faz querer conhecer a sua arte”.

 

O modo profundo com que Clarice trata a condição feminina torna sua obra universal
Foto: Maíra Torres

 

 Últimos lançamentos: 

Título: A hora da estrela – Edição com manuscritos e ensaios inéditos

ISBN: 978-85-325-3066-0

Formato: 16×23,5 cm

Páginas: 224

Preço: R$ 44,50

 

Título: Todos os contos

Organizador: Benjamin Moser

ISBN: 978-85-325-3024-0

Formato: 14×21 cm

Páginas: 656

Preço: R$ 69,50

 

 

Você ainda pode conferir uma reportagem especial em vídeo feita pela aluna Mariana Menegatto para o TJPUC sobre a Clarice.


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