Mulheres ganham cada vez mais protagonismo e renovam a tradição do sertanejo raiz com novas narrativas, estilos e públicos
Por Luiza Maia
Por décadas o sertanejo raiz foi visto como um território predominantemente masculino, marcado por narrativas de boiadeiros, amores sofridos e a vida no campo. No entanto, essa realidade não contempla o papel essencial que as mulheres desempenharam na construção e na perpetuação desse gênero tão profundamente ligado à cultura brasileira.
Um dos maiores desafios enfrentados por essas artistas é o preconceito, algo que ainda ocorre nos dias atuais como afirma Lizandra, integrante da dupla Lizandra e Victória. “As pessoas já não dão tanta credibilidade para a voz feminina, para a mulher tocando viola”, afirma.
A violeira e instrumentista Juliana Andrade comenta que “para você ser artista, você tem que ser bonito, cheiroso e perfeito, sendo que perfeições vão muito além das condições físicas. Eu acho que a perfeição tem que estar no seu talento e, infelizmente, o nosso mercado hoje não visa isso”. Citando a artista Inezita Barroso, ela diz que “desde que o mundo é mundo, cultura e dinheiro não se misturam”.

Na visão do violeiro, pesquisador e compositor João Paulo Amaral, mestre em Música Popular pela Unicamp, o fato das mulheres não serem aceitas no universo da música caipira de raiz não ocorre somente nesse segmento. Segundo Amaral.
“se a gente olhar para a música caipira, ela vai refletir muito do que era a sociedade nas décadas passadas — que ainda é, na verdade, machista e patriarcal. E eu acho que no contexto da música caipira e da cultura caipira, talvez isso fique até um pouco mais evidente, porque a gente está falando de uma cultura que mantém traços tradicionais de épocas passadas”.
Juliana considera que o cenário mudou com a chegada da Internet. “A gente viveu uma era em que era essencial o programa de TV, e tinha aquelas panelinhas. Hoje a gente não é mais dependente disso. A internet deu uma liberdade para a gente poder mostrar o trabalho”.
Historicamente desde os primeiros registros da música caipira, ainda na metade do século XX, mulheres já participavam ativamente, mesmo que muitas vezes à margem do reconhecimento. Em duplas como As Irmãs Galvão e Cascatinha e Inhana ou em carreiras solo onde se destacou Inezita Barroso, as mulheres trouxeram novas perspectivas às letras e ajudaram a ampliar os temas abordados, incluindo o olhar feminino sobre o amor, a saudade e a vida rural.
Em um meio conservador, cantar em público, viajar para apresentações e gravar discos não eram atividades facilmente aceitas para mulheres. Ainda assim, muitas romperam essas barreiras com talento e persistência, conquistando espaço nas rádios e agradando o público.

As vozes femininas no sertanejo raiz também tiveram papel fundamental na preservação da tradição. Inezita Barroso, além de artista, foi folclorista e apresentou, por 35 anos, o programa Viola Minha Viola na TV Cultura, onde dava espaço para o gênero musical e para a apresentação de novos artistas.
Embora ao longo das décadas a sociedade tenha se urbanizado, provocando transformações no gênero sertanejo raiz, elas mantiveram viva a essência da música caipira, valorizando instrumentos como a viola caipira e mantendo a autenticidade das narrativas rurais até os dias atuais. “Recentemente a gente tem visto muitos jovens tocando viola, se interessando pelo instrumento. Muita mulher tocando viola”, conta Lizandra.
As mulheres trouxeram sensibilidade e força interpretativa únicas para a música sertaneja. Suas canções muitas vezes abordavam a dor da despedida, a luta cotidiana e a resistência diante das dificuldades, criando uma conexão com ouvintes que se viam refletidos nessas histórias.
Hoje, há um reconhecimento crescente da importância dessas pioneiras. Pesquisadores, músicos e fãs têm resgatado suas trajetórias, exaltando nomes que ajudaram a construir a base do sertanejo como conhecemos. Esse movimento não apenas corrige uma injustiça histórica, mas também inspira novas gerações de artistas a valorizarem suas raízes.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana














