Recorde de vendas do elétrico da BYD reflete mudança de comportamento no varejo e reafirma o protagonismo da RMC na transição energética nacional
Por Anielly Ferreira
A paisagem urbana de Campinas está mudando silenciosamente. O zumbido discreto dos motores elétricos, que antes era exclusividade de nichos tecnológicos, agora domina as estatísticas de emplacamento. Em fevereiro de 2026, o mercado automotivo brasileiro atingiu um marco histórico: pela primeira vez, um carro 100% elétrico assumiu a liderança de vendas no varejo. O protagonista desse feito é o BYD Dolphin Mini, que, com 4.810 unidades emplacadas no mês, superou gigantes a combustão como o VW Tera e o Hyundai Creta.
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Este fenômeno de vendas não é isolado; ele é o reflexo de um ecossistema que tem em Campinas o seu principal laboratório e vitrine. A liderança da BYD em fevereiro de 2026, excluindo vendas diretas para frotistas, demonstra que o consumidor final brasileiro quebrou a barreira do preconceito contra veículos eletrificados. Ao completar dois anos de seu lançamento no Brasil, o Dolphin Mini já soma mais de 62 mil unidades circulando pelo país.
No ranking geral de marcas, a BYD já ocupa a quinta posição nacional, ficando atrás apenas de fabricantes tradicionais como Fiat, VW, Chevrolet e Hyundai. “A meta da BYD é liderar o mercado até 2030”, projeta a montadora, impulsionada por uma participação de mercado das marcas chinesas que já saltou de 9,8% para 16,3% em apenas um ano.
Se o Brasil acelera, Campinas lidera. A cidade, com cerca de 1,1 milhão de habitantes, ostenta uma densidade de veículos elétricos (VEs) muito superior à média nacional: existe um carro elétrico para cada 120 moradores no município, enquanto a média do país é de um para cada 531.
A infraestrutura é o grande diferencial. Campinas concentra 194 pontos de recarga públicos, o que representa quase 10% de todos os eletropostos instalados no Brasil. Essa capilaridade em shoppings, supermercados e vias públicas é o que permite a usuários como o empresário Tiago Araújo manterem a rotina sem “ansiedade de autonomia”. “Comprei o carro elétrico porque temos placas solares em casa. É econômico, silencioso e a única coisa que faço é espetar na tomada”, relata.
O sucesso de vendas da BYD em 2026 está diretamente ligado à escolha estratégica da empresa por Campinas anos atrás. O prefeito Dário Saadi destaca que a cidade se consolidou como polo devido à integração de cinco pilares: universidades, centros de pesquisa, indústrias, logística e energia.
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Essa história começou na década de 1970, com a Unicamp e o CPQD, e evoluiu para a instalação da fábrica da BYD, que utilizou a cidade como campo de testes para seus primeiros ônibus elétricos em 2015. Para Edgar Barassa, cofundador do Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE) da Unicamp, a cidade possui a base técnica e científica necessária para sustentar o avanço da eletromobilidade, servindo como um “celeiro de profissionais especializados”.
Apesar do apelo ambiental, é o impacto financeiro que tem definido as vendas do Dolphin Mini e outros VEs. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que, enquanto um carro a combustão custa, em média, R$ 0,60 por quilômetro rodado, um veículo elétrico reduz esse custo para apenas R$ 0,12/km.
A usuária Simone Melo, proprietária de um BYD híbrido, confirma a eficiência: “A economia de combustível foi de 80%. Mesmo com o aumento na conta de luz, o impacto financeiro total foi de 60% de economia”.
O crescimento exponencial da frota — que em Campinas já ultrapassa 9,7 mil unidades — pressiona a gestão urbana e a rede elétrica. Pesquisas do Instituto de Geociências da Unicamp alertam que a expansão dessa infraestrutura ainda é desigual, concentrando-se em áreas centrais e deixando as periferias carentes de acesso.
No transporte público, o desafio é o custo inicial (CAPEX). Um ônibus elétrico custa até três vezes mais que um modelo a diesel. A expectativa é que, com o PAC Mobilidade, um eixo do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal focado em investir bilhões para modernizar o transporte público e urbano no Brasil, Campinas consiga incluir 60 novos ônibus elétricos em sua frota até 2030, ampliando ainda mais a rede de recarga disponível.
O amadurecimento do mercado, evidenciado pelo recorde de fevereiro de 2026, força uma mudança de estratégia: a saída da dependência total de importações chinesas. Com o aumento gradual do imposto de importação (que chegará a 35% em julho de 2026), montadoras como a BYD aceleram planos de produção local.
Campinas, com sua base industrial diversificada e pesquisas em reciclagem de baterias lideradas pelo CPQD e Unicamp, está pronta para ser o centro dessa nova “indústria verde”. O objetivo, segundo a gestão municipal, é deixar um legado de uma economia de baixo carbono com empregos qualificados para as próximas gerações.
Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana
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