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Inclusão na primeira infância enfrenta desafios nas escolas

Crescimento das demandas por atendimento especializado expõe limites estruturais, pedagógicos e de formação na educação

Por Clara Dejean e Lara Gallo

A inclusão na primeira infância se impõe como um dos principais desafios da educação brasileira contemporânea. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2022, indicam que o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que corresponde a 7,3% da população com dois anos ou mais. Entre as crianças, destaca-se a prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que atinge 2,6% das crianças de cinco a nove anos e 2,1% daquelas com até quatro anos, números que evidenciam a necessidade de adaptação das estruturas educacionais desde os primeiros anos de vida.

O aumento da identificação desses casos tem repercussões diretas no sistema educacional. Em Campinas, por exemplo, o número de alunos matriculados na educação especial na rede municipal cresceu 32% em um ano, aproximando-se de dois mil estudantes. O dado reflete tanto a ampliação do acesso escolar quanto a capacidade de diagnóstico e reconhecimento das necessidades específicas.

A convivência entre crianças com diferentes necessidades favorece a empatia e o aprendizado coletivo (Foto: Lara Gallo)

Esse avanço quantitativo expõe limites estruturais na educação. A inclusão, na prática, enfrenta obstáculos relacionados à formação docente, à disponibilidade de apoio especializado e à adaptação pedagógica. Para a professora de educação infantil Sirlane Ferraz, “a principal dificuldade é a falta de orientação profissional e de suporte para lidar com a individualidade de cada criança. A inclusão não deve acontecer apenas para cumprir leis, mas com planejamento e respeito à realidade da escola.”

Uma pesquisa de 2021, realizada na rede estadual de ensino de Campinas junto ao Instituto Rodrigo Mendes, indica que mais de 60% dos professores consideram, total ou parcialmente, que alunos com deficiência aprendem melhor em instituições especializadas. O dado revela a persistência de barreiras atitudinais e a necessidade de transformação cultural no interior das práticas educativas. Ao mesmo tempo, evidencia-se que o Brasil ainda segue padrões educacionais que nem sempre se alinham às necessidades específicas de todos os alunos.

A entrada na educação infantil marca, por sua vez, uma ampliação do campo de experiências. Para o psiquiatra Lucas Varella, especialista em infância e adolescência, para muitas crianças a escola representa o primeiro espaço coletivo estruturado fora do núcleo familiar. Ali, elas são introduzidas a rotinas, regras e dinâmicas sociais que exigem adaptação e negociação. “Horários relativamente previsíveis, momentos organizados de atividade, de brincadeira, de alimentação e de descanso ajudam a criança a organizar o próprio comportamento”, explica Varella.

A previsibilidade, nesse sentido, desempenha um papel regulador. Segundo o pediatra Rodrigo Genaro, ao oferecer um ambiente estruturado, a escola contribui para a construção da autonomia e da autorregulação emocional. Ao mesmo tempo, o convívio com outras crianças favorece o desenvolvimento da empatia, da cooperação e da capacidade de lidar com frustrações. “O ser humano é essencialmente gregário, e essas interações são fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo e social”, acrescenta o pediatra.

A escola também se configura como um espaço privilegiado de observação do desenvolvimento infantil. É nesse ambiente que diferenças de ritmo, linguagem e comportamento se tornam mais evidentes. “Cada criança tem seu tempo e sua singularidade, e isso precisa ser respeitado”, afirma Varella. “Mas a convivência com outras crianças da mesma faixa etária permite identificar com mais clareza eventuais dificuldades.”

Primeira infância concentra fase decisiva para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social

A primeira infância, que se estende do nascimento aos seis anos, impõe-se hoje como um dos períodos mais decisivos do desenvolvimento humano. Longe de constituir apenas uma etapa preparatória, ela representa um momento de intensa transformação biológica, cognitiva e social, no qual se estabelecem as bases da aprendizagem, da motricidade, da linguagem e da construção da identidade.

Nesse intervalo, o cérebro apresenta um ritmo de crescimento sem precedentes. Como observa Rodrigo Genaro, esse processo já se encontra em curso desde os chamados “mil primeiros dias”, que vão da gestação até os dois anos de vida. Trata-se de uma fase de extraordinária plasticidade cerebral, em que conexões neurais se formam em grande escala, moldadas tanto por fatores genéticos quanto pelas experiências vividas.

Para o pediatra Rodrigo Genaro, o cuidado integral na infância envolve olhar atento às singularidades de cada criança (Foto: Lara Gallo)

A noção de “janela crítica”, amplamente documentada na literatura científica, aponta para a sensibilidade desse período às influências do ambiente. Estímulos adequados, como o vínculo afetivo, a linguagem, o brincar e a previsibilidade, favorecem o desenvolvimento saudável. Em contrapartida, experiências adversas, como negligência, violência ou instabilidade familiar, podem produzir efeitos duradouros.

Essa leitura é compartilhada pela psiquiatria do desenvolvimento. “Os primeiros anos são um momento extremamente sensível”, afirma Lucas Varella. “A qualidade das relações que a criança estabelece com os adultos vai estruturar a forma como ela aprende a lidar com emoções, frustrações e interações sociais.” Um estudo apontado pelo especialista, publicado pela National Institutes of Health, indica que a exposição precoce a adversidades está associada a maior risco de transtornos como ansiedade, depressão e dificuldades de regulação emocional ao longo da vida.

Nesse contexto, o brincar ocupa um lugar central. Mais do que atividade recreativa, ele constitui um dispositivo fundamental de aprendizagem. Por meio do jogo simbólico, da interação e da exploração do ambiente, a criança constrói hipóteses sobre o mundo, experimenta regras e desenvolve competências cognitivas e socioemocionais. “O desenvolvimento acontece de maneira lúdica, tornando a aprendizagem mais significativa e favorecendo a construção de boas memórias”, afirma a professora de educação infantil.

Atividades que envolvem manipular objetos contribuem diretamente para a coordenação, atenção e a capacidade de resolver problemas (Foto: Lara Gallo)

Para os especialistas, o desafio da inclusão não pode ser dissociado de uma abordagem mais ampla do desenvolvimento infantil. Fatores biológicos, genéticos, nutricionais e pré-natais interagem continuamente com dimensões sociais e afetivas. A atenção às crianças neurodivergentes exige, portanto, estratégias individualizadas, muitas vezes difíceis de implementar em sistemas educacionais padronizados.

“O desenvolvimento é hierárquico e segue uma lógica precisa, da cabeça aos pés, do centro para as extremidades”, explica Rodrigo Genaro. Marcos como sustentar a cabeça, sentar, andar e falar funcionam como referências importantes, mas devem ser interpretados com cautela. “Comparar crianças entre si costuma ser enganoso, porque os contextos e os estímulos são diferentes.”

O risco, nesse cenário, é duplo: de um lado, a subidentificação, que retarda intervenções necessárias; de outro, a superinterpretação, frequentemente alimentada por expectativas excessivas. A chamada hiperestimulação, longe de ser benéfica, pode gerar ansiedade e frustração. “Não é mais estímulo que garante melhor desenvolvimento, mas a qualidade desse estímulo”, ressalta o pediatra.

Diante dessa complexidade, a articulação entre os diferentes atores envolvidos: famílias, educadores e profissionais de saúde, torna-se essencial. No entanto, essa integração permanece, na prática, limitada por entraves institucionais e desigualdades de acesso. “No cenário ideal, todos trabalham de forma coordenada”, afirma Genaro. “Mas ainda estamos longe dessa realidade.”

A primeira infância emerge, assim, como um ponto de convergência entre educação, saúde e políticas públicas. Mais do que uma etapa inicial, ela revela a capacidade, e também os limites, de uma sociedade de acompanhar o desenvolvimento humano em sua complexidade. Entre avanços científicos e desafios estruturais, permanece a constatação central: é nos primeiros anos de vida que se joga, em grande medida, o futuro das trajetórias individuais e coletivas.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Murilo Sacardi

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