Especialistas reforçam a necessidade de crianças e adolescentes se movimentarem e aprenderem a lidar com frustrações
Por Maria Luiza Machado
Segundo dados divulgados pela Pesquisa DataFolha, cerca de 53% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam praticar alguma atividade física no dia a dia. No entanto, o levantamento revela diferenças significativas nos hábitos de acordo com o gênero, a faixa etária, o nível de escolaridade, a renda familiar e a classe econômica. As maiores taxas de adesão são observadas entre homens e jovens de 16 a 24 anos.
Para despertar o interesse de crianças e adolescentes pelos esportes e pelas práticas de atividades físicas, o professor de educação física da PUC Campinas, Daniel José Francisco, que coordena a área de Educação Física no Programa de Iniciação à Docência (PIBID), destaca a importância de adotar estratégias que tornem as aulas mais dinâmicas e envolventes. Segundo o docente, que atua na área de esportes e competições há 30 anos, o objetivo é incentivar os alunos a manterem hábitos saudáveis na vida adulta. “Eu vejo que é uma possibilidade de continuidade no esporte”, diz José Francisco.
Além disso, o professor ressalta a importância de adaptar as atividades físicas conforme a faixa etária e o perfil dos alunos, de modo a estimular competências específicas. Segundo ele, a escola deve proporcionar o contato com diferentes modalidades esportivas e brincadeiras, promovendo o desenvolvimento das cinco capacidades físicas fundamentais: força, velocidade, resistência, flexibilidade e coordenação.
“O esporte, te ensina a lutar pelos seus objetivos, a lutar pela vitória, mas aceitar a derrota, assim como na vida”, destaca José Francisco.

De acordo com o docente, “esportes são uma atividade física estruturada e com um objetivo específico, enquanto a prática de exercícios físicos se refere as atividades do dia a dia que demandam gasto calórico”. Ele enfatiza que as aulas de educação física “são essenciais para minimizar os índices de sedentarismo e obesidade infantil no país”.
O professor de educação física da PUC Campinas, István de Abreu Dobranszky, é especializado em psicologia do esporte e atua na área de saúde integrativa, com foco na prática de yoga. Ele conta que se dedica a prática de esportes radicais e atividades que promovam o bem-estar mental, e defende que as escolas devem estimular o equilíbrio físico e emocional dos alunos.
Dobranszky acredita que o esporte não precisa ser apenas competitivo, mas também uma ferramenta de formação emocional e social. “O esporte é uma forma de se conhecer e de lidar com sentimentos e frustrações. Mas não precisa ser competitivo”, ressalta.
Segundo José Francisco, é fundamental trabalhar o processo de aceitação de uma derrota e valorizar a importância do trabalho em equipe. Ele ressalta que o esporte deve ensinar os competidores a respeitarem as regras do jogo, a arbitragem, os colegas da equipe, os adversários e outros elementos envolvidos nas competições.
Especialistas alertam para o impacto do sedentarismo na juventude
O especialista em saúde integrativa destaca que é fundamental introduzir o esporte e alimentação saudável na infância e defende que o estímulo ao movimento deve começar entre 5 e 6 anos, antes que o comportamento sedentário se consolide. “Tudo que você começa como criança é melhor. Quanto mais cedo o contato com o movimento, maior a chance de manter esse hábito”, diz Dobranszky.

De forma similar, José Francisco alerta para os riscos do sedentarismo e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, câncer, distúrbios mentais e outros fatores que agravam a condição médica de quem não pratica nenhum esporte ou atividade física. Ele defende que as aulas devem ser práticas, inclusivas e atrativas, de forma que não exclua alunos que apresentem baixo rendimento. “A educação física precisa ensinar na prática e para todos”, enfatiza.
Além disso, o docente ressalta que a prática de esportes nos primeiros anos de vida, amplia o repertório motor das crianças e auxilia no desenvolvimento da postura, fortalecimento muscular e ósseo e redução dos sintomas de ansiedade e depressão.
Ambos destacam que o esporte também aprimora a concentração dos jovens, habilidade que eles acreditam ter sido prejudicada por conta da exposição constante de telas e excesso de estímulos digitais. Por isso, os docentes recomendam que a rede familiar de crianças e jovens participe ativamente de atividades com os filhos e incentive o movimento por meio do convívio.
Segundo István, é complicado trabalhar com adolescentes devido ao desinteresse crescente por atividade física e baixa interação social entres eles, já que muitas vezes preferem permanecer conectados a dispositivos digitais. Ele explica que o contato precoce com as telas pode favorecer um estilo de vida sedentário por ocupar um tempo que poderia ser dedicado a brincadeiras e movimentos.
“As crianças mantêm o interesse de décadas atrás. Mas quando ficam mais velhas, algo muda”, conta Dobranszky
Segundo Valentina Inácio, estudante do ensino fundamental de 12 anos, as aulas de Educação Física são interessantes porque permitem que os alunos se distraiam e movimentem o corpo, ao invés de passarem o dia inteiro sentados na sala de aula. Ela conta que os esportes mais praticados na escola são vôlei e futebol, mas também participa de outras dinâmicas e brincadeiras. Para a estudante, as aulas de educação física vão além da prática de esportes por melhorar o bem-estar físico e mental de crianças e adolescentes e permitir que eles se distraiam de seus problemas.
Por outro lado, a estudante Julia Roberto Franco de 12 anos, enfatiza a importância de manter a prática de esportes e exercícios físicos fora do ambiente escolar, como uma forma de lazer. Ela conta que participa de atividades extracurriculares, realiza caminhadas e anda de bicicleta no tempo livre, por isso, recomenda que outros jovens desenvolvam hábitos semelhantes. Segundo a garota, “A educação física é muito importante para evitar que nosso corpo acumule gordura e não consiga gastá-la”.
Apesar do interesse das escolas, o docente István Dobranszky observa que falta valorização e formação de profissionais capacitados para atuar em áreas de autoconhecimento e meditação. “As escolas estão interessadas, mas pagam pouco. Há uma carência de pessoas preparadas para trabalhar com isso”, conta o especialista.

Além do ambiente escolar, José Francisco valoriza a importância das parcerias com projetos sociais e esportivos comunitários, que ampliam o acesso das crianças à prática física fora da escola. Ele acredita que o Brasil precisa fortalecer a cultura do esporte como lazer e convivência social, em igrejas, praças e bairros.
Da mesma forma, István Dobransky considera fundamental a colaboração entre centros de educação, ONGs e instituições que estimulem o movimento dentro e fora das salas de aula, com ações conjuntas e interdisciplinares e observa uma redução de espaços públicos seguros para brincadeiras e a prática de esportes.
“Se é um problema de saúde social, precisamos pensar coletivamente. Não dá para deixar tudo nas mãos de uma pessoa”, ressalta o docente.
Além disso, István observa uma diferença significativa no desempenho de jovens e adultos com mais de 40 anos, evidenciando uma lacuna geracional no desenvolvimento corporal dos alunos. Por isso, ele acredita que houve uma queda drástica nas habilidades motoras dessas pessoas.
Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Fayollah Souza

