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Debate internacional discute direitos no envelhecimento

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Especialistas destacam desigualdades estruturais, cuidado coletivo, falta de políticas públicas e desafios da velhice no Brasil

Amin Aur, consultor em Educação // Cacique Elizeu, liderança da aldeia Kokama Emanuel // Rafael Ciscati, jornalista // Marinete da Silva Moraes, educadora // Dália Romero Montilla, socióloga // Maria Cristina Hoffmann, psicóloga // Maria João Bárrios, professora // Rolf Leroy Maier, arquiteto

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Por Gabriela Belloto

O Seminário Internacional Bonina de Envelhecimento e Direitos Humanos, organizado pelo Instituto Bonina, de Campinas (SP), discutiu como as desigualdades estruturais moldam o envelhecimento no Brasil. Especialistas, lideranças indígenas e quilombolas chamaram atenção para a falta de políticas públicas efetivas, para o risco de envelhecer em um país desigual e para a urgência de garantir participação ativa da população idosa nas decisões.

Logo no início, o consultor em Educação, Amin Aur, destacou que falar em envelhecimento digno exige reconhecer a diversidade da população idosa, marcada por diferenças de classe, raça, território e acesso a direitos básicos. Para ele, municípios têm papel central e precisam incluir os idosos na construção das políticas. “Se o próprio idoso não participar, as políticas serão dadas e não conquistadas”, disse.

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As desigualdades estruturais foram discutidas entre pesquisadores e representantes de organizações sociais. Para a pesquisadora da Fiocruz, Dália Romero Montilla, envelhecer no Brasil ainda é “arriscado”, já que as condições de vida determinam quem tem acesso à saúde, moradia, mobilidade e segurança. “Morremos de formas totalmente distintas, e isso aparece quando olhamos para raça, território e condições de vida”, afirmou.

A representante da OPAS/OMS, Maria Cristina Hoffmann, acrescentou que a Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030) ainda não avança como deveria no país. “A população está envelhecendo, mas não com qualidade de vida”, disse ao defender que as cidades precisam ser planejadas para que ninguém seja “deixado para trás”.

Ao destacar a necessidade de cidades mais inclusivas, o arquiteto Rolf Leroy Maier, docente na UNASP, ressaltou a importância de repensar os currículos de formação no ensino superior e as políticas urbanas. “Trabalhamos com temas que cruzam com a terceira idade, e isso precisa estar presente na sala de aula”, afirmou.

TERRITÓRIO
As falas das lideranças indígenas e quilombolas mostraram como o território define experiências de envelhecimento completamente diferentes. O Cacique Elizeu, do povo Cocama, relatou a dificuldade de acesso à aposentadoria, documentação e transporte na Amazônia. “Às vezes o idoso só quer visitar um parente, mas não tem lugar no barco,” contou. E mesmo diante dos desafios atuais, Elizeu defendeu o envelhecimento indígena como sinônimo de sabedoria.

Em complemento a essa visão, a liderança quilombola, Marinete da Silva Moraes, reforçou do papel dos idosos na transmissão de saberes, ao dizer que “se dermos espaço, eles produzirão sabedorias e saberes múltiplos.”

A projeção do IBGE, divulgada pela Agência Senado, aponta que, em 45 anos, 37,8% dos brasileiros terão mais de 60 anos, cerca de 75,3 milhões de pessoas. A partir disso, a atenção ao sistema de cuidados deverá ser redobrada para, assim, um envelhecimento digno e alcançável.

Orientação e edição: Adauto Molck

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