Com mercado bilionário, rotina profissionalizada e desafios sociais, os esportes eletrônicos moldam novas carreiras e transformam o ambiente competitivo
Por João Victor Amorim
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Em um cenário onde as telas se tornaram novas arenas esportivas, o Brasil se consolida como força global no universo dos eSports. Visto como um simples passatempo no passado, o ato de jogar profissionalmente se transformou em uma carreira de alto rendimento, exigindo uma rotina disciplinada e com suporte especializado. A indústria global de games fechou o ano com uma receita estimada em cerca de 187 bilhões de dólares, segundo a Newzoo. No Brasil, o maior mercado da América Latina, mais de 100 milhões de pessoas consomem jogos eletrônicos e 76,5% da população já considera os eSports uma modalidade esportiva legítima, de acordo com estudos conduzidos pela Pesquisa Games Brasil e pel Kantar.
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Wesley Carlo, E-sports Broadcast Manager da Ubisoft Brasil, multinacional francesa que atua no setor de games, comenta sobre o crescimento do mercado. “Na pandemia, todos os jogos tiveram seu ápice. As pessoas ficavam em casa e isso fez com que muitos acompanhassem mais sobre o e-sports. Foi algo que deu um boom muito grande nos números”, afirma.
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Dentro desse crescimento, o Rainbow Six Siege se destaca como um dos pilares da força brasileira. O país lidera o ranking mundial de premiações no jogo, acumulando mais de 9,7 milhões de dólares, segundo o Esports Earnings, além de concentrar uma das maiores audiências globais. Nesse ambiente competitivo e de alto nível, a profissão de atleta de eSports deixou de ser alternativa improvável e se tornou realidade.
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Para o jogador profissional “Flastry”, Henrique Pennacchia, a trajetória começou de forma parecida com a de tantos jovens brasileiros. “Sempre joguei videogame desde criança e gostava muito de FPS (jogo em primeira pessoa). Desde que lançou Rainbow Six, não larguei mais, jogava por diversão no console, conheci uns amigos e ficamos jogando campeonatos amadores. Consegui juntar um dinheiro com esses campeonatos e vim para o PC com esse propósito”, afirma.
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A adaptação, porém, não veio sem obstáculos. Questões familiares, instabilidade e cobrança marcaram o início da carreira. “No começo foi bem difícil na parte familiar, pois é um mundo totalmente novo para eles. Basicamente, fiquei dois anos sem receber um salário ok para eles entenderem que eu queria seguir nisso. Depois que consegui um convite para um time da elite do jogo, mostrei para eles e, ainda assim, ficaram um pouco receosos. Mas, com muita conversa e detalhes eles entenderam”, detalha.
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A rotina do atleta mostra o nível de exigência do cenário. “Geralmente jogo praticamente o dia todo. Inicio minha rotina de trabalho às 12h, com treino prático normalmente até as 20h, após isso jogo para evoluir”, explica. As fontes de renda também refletem a profissionalização. “Vem de salário com a organização, premiações de campeonatos e investimentos fora do jogo”, conta Henrique.
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Essa estrutura amadurecida também abre portas para que carreiras continuem além da fase competitiva. O ex-jogador “IntacT”, Vitor Janz, multicampeão brasileiro, e atualmente comentarista, encontrou na transmissão de campeonatos um novo caminho dentro do cenário. “Eu sempre quis continuar no jogo, mesmo que do outro lado. É muito gratificante, o e-sports mudou minha vida, me deu a oportunidade de realizar sonhos, viajar para muitos países e conhecer pessoas incríveis”, relata.
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Ele enxerga a transformação do setor de forma clara. “A profissionalização da época em que eu jogava até agora é algo muito diferente. Antes o investimento era muito menor. Hoje, cada equipe possui profissionais dedicados, muitos times têm psicólogos exclusivos, analistas e treinadores. É um nível de profissionalismo que não tínhamos.”
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A evolução estrutural do eSports também depende de profissionais que operam nos bastidores. Wesley explica que a ascensão das ligas exigiu uma operação de transmissão extremamente complexa e coordenada.
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“A preparação para um campeonato envolve muitas áreas, temos que pensar desde um copo d’água até um gerador de energia e internet. Existem muitos profissionais envolvidos, com expertises variadas. Pode levar de seis meses até dois anos para preparar um evento. É muito mais complexo que uma transmissão de TV porque a gente precisa ver simplesmente tudo além do que vai ao ar”, detalha.
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O crescimento, porém, não elimina desafios sociais importantes. Embora as mulheres representem mais da metade da população gamer no Brasil, segundo levantamentos conduzidos pela Pesquisa Game Brasil e pela Kantar, a presença feminina no espaço competitivo ainda é bem baixa. A desigualdade de oportunidades, o preconceito e a falta de incentivo estruturado dificultam a entrada e a permanência das jogadoras nos níveis profissionais.
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A ex-jogadora Gabriela Scheffer, conhecida como “Gabs”, compartilha o peso dessas barreiras. “Houve uma progressão muito melhor nos últimos anos em relação às mulheres no cenário, mas ainda é algo muito complicado devido ao preconceito. As pessoas não deixam as mulheres mostrarem seu potencial simplesmente por um ‘não’, sem motivo nenhum”, afirma. Ela reforça que a ausência de suporte adequado impacta diretamente os sonhos de muitas atletas. “Muitas mulheres largaram o cenário do Rainbow Six por falta de chance, a idade foi chegando e não conseguiram realizar seus sonhos, tiveram que trilhar outros caminhos”, conta.
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O avanço dos eSports no Brasil mostra que a indústria deixou de ser promessa e se tornou realidade. A consolidação de equipes estruturadas, o investimento crescente de empresas, a profissionalização de atletas, treinadores, analistas e a expansão das transmissões evidenciam um setor que continua em evolução.
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O país surge cada vez mais como protagonista global e a tendência é que essa relevância aumente nos próximos anos, à medida que novos talentos surjam, mais empresas invistam e o público cresça em ritmo constante. O cenário aponta para um futuro onde os esportes eletrônicos ocupem papel central no entretenimento, no mercado e na construção de novas carreiras.
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Orientação: Profa. Karla Eherenberg
Edição: Ana Elisa Desiderá
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