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OPINIÃO – Peça da Cia. Catarsis, de Jundiaí, usa o quarto de um menino para falar sobre fronteiras e relações familiares
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Marcelo Peroni (esquerda) e Vlad Camargo (direita) viveram os irmãos que queriam separar seu quarto com um muro (Foto: Murilo Pascale)
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Por Murilo Pascale
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Falar sobre política com crianças é algo que pode parecer extremamente desafiador. A companhia Catarsis, da cidade de Jundiaí, encara essa missão em “Muro de Sam”, espetáculo apresentado durante o 31° Festival de Artes da cidade de Itu, em São Paulo. Inspirada no livro Querido Sr. Presidente, da autora neozelandeza Sophie Siers, a peça mostra que é possível discutir temas atuais e complexos de maneira leve, didática e atrativa para o público infanto-juvenil. Ela parte de um drama infantil, a briga por espaço entre irmãos, para construir uma metáfora sobre as divisões políticas que, em teoria, fazem parte do mundo dos adultos.
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A ideia da peça é simples: Samuel, um menino que divide o quarto com o irmão mais velho com quem vive brigando, planeja construir seu próprio muro para separar o ambiente. Em paralelo a isso, ele começa a enviar cartas ao presidente dos Estados Unidos, que, por sua vez, também tem planos de construir um muro na fronteira com o México.
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A peça, voltada para a infância e juventude, faz bem ao não se prender a um “falatório” político. Mesmo que a narrativa principal seja clara, ela se permite “viajar” por outros temas, o que, embora possa parecer potencial para distrações, na verdade se mostra uma escolha acertada para manter a atenção do público jovem, mantendo o equilíbrio entre a seriedade do tema com a necessidade de descontração.
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O grande mérito de “Muro de Sam” é a forma como a metáfora central é desenvolvida. No começo da trama, que se passa durante as férias escolares, Samuel e seus amigos encontram um antigo professor, Levi, que propõe um trabalho escolar sobre “muros famosos”. Essa “sacada” também abre espaço para discussões informativas sobre a Muralha da China, o Muro de Berlim e, principal tópico da peça, o muro EUA-México.
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O principal ponto positivo da peça é conseguir traduzir essa complexidade geopolítica para a linguagem das crianças. Ao final, Samuel não apenas se resolve com seu irmão, mas entende a consequência maior da criação de um muro: a separação física e ideológica, que é simplificada na apresentação ao dizer que crianças dos dois lados da fronteira “não poderiam brincar juntas”. Essa conexão relaciona o “pequeno” (o quarto) ao “grande” (os países) de forma eficiente e de fácil entendimento.
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Além disso, a execução técnica da Catarsis é fundamental para o sucesso da peça. Com apenas quatro intérpretes em cena (dois atores e duas atrizes), o elenco dá vida ao dobro de personagens. Essa troca constante poderia ser confusa, mas é feita com clareza por meio de caracterizações, mudanças no tom de voz e figurino. A direção também garante que o palco nunca fique vazio, gerenciando as saídas e entradas do elenco para que o ritmo da história flua normalmente.
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“Muro de Sam” prova que o teatro infanto-juvenil pode, e deve, também ser um espaço para reflexão. A Catarsis entrega uma obra que consegue ser direta sobre temas políticos sem pesar o clima. Além disso, a peça nos convida a encarar a “criação de muros” na perspectiva das crianças: eles atrapalham a brincadeira. Por fim, como a própria peça nos diz em determinado momento, “quem constrói paredes também está se emparedando”.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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