Opinião

Quando o grafite vira pertencimento

OPINIÃO Intervenção de Miss transforma o CDHU do Padre Anchieta em símbolo de identidade, arte e disputa de narrativas

Por Maria Eduarda Inácio Pereira

Os prédios do CDHU Padre Anchieta, em Campinas, acabam de ganhar uma nova cara: cores, geometrias e símbolos que transformam um conjunto habitacional comum em um mural de grande escala. A intervenção, parte do projeto Paisagem Urbana, foi apresentada ao público no dia 4 de outubro, acompanhada de projeções audiovisuais, vídeo imersivo e recursos de realidade aumentada. A obra, que já se impõe visualmente sobre as rodovias que cruzam o bairro reposiciona o território e afirma a potência da arte urbana como ferramenta de pertencimento.

 

Por trás dessa transformação está Miss, nome artístico de Marta Henriksen, grafiteira paulista que desde 2002 faz das ruas seu ateliê e sua forma de intervenção política. Sua linguagem, marcada por formas geométricas, ludicidade e ritmo visual, aparece no CDHU assim; acolhendo quem mora ali e surpreendendo quem passa. E se você acha que a escolha da artista foi aleatória, está muito enganado. A trajetória de Marta com projetos sociais com jovens, mulheres e murais de grande escala, aponta para uma artista que transita entre o popular e o institucional sem perder a veia contestatória do grafite e era exatamente disso que o CDHU precisava.

Os prédios do CDHU Padre Anchieta, em Campinas, com uma novas cores, geometrias e símbolos

 

A intervenção carrega a força simbólica de ser conduzida por uma mulher em um campo historicamente dominado por homens. Miss já consolidou sua presença em iniciativas de grande impacto, como a primeira quadra poliesportiva pintada exclusivamente por mulheres, em parceria com o Coletivo Efêmeras e apoio da Nike. Seu trabalho no CDHU reafirma essa posição ao transformar fachadas inteiras em painéis coloridos, expandindo o alcance do grafite e reforçando a importância da representatividade. É arte, é disputa de espaço e afirmação de identidade.

 

O mural é um marco social, estético e político. É o encontro entre a trajetória de uma artista que fez das ruas sua narrativa e um bairro que há décadas busca ser visto para além de seus rótulos. Para um bairro que muitas vezes aparece nas narrativas urbanas apenas pelos estigmas de pobreza, a obra devolve dignidade visual e reinscreve o lugar no mapa da cidade.

Orientação e edição: Adauto Molck

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