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Estratégia científica de preservação é uma das saídas para enfrentar a fragilidade das palmeiras do Cerrado
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Por Clara Dejean-Martin
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A poucos meses da COP30, que será realizada em Belém, que colocará o Brasil no centro das negociações climáticas globais, parece necessário voltar-se para as realizações de campo que, há anos, trabalham em prol da biodiversidade e da preservação das espécies nativas. O caso do Jardim Botânico Plantarum lembra que a batalha pelo clima também se dá, segundo seu fundador Harri Lorenzi, por exemplo, na vulnerabilidade das palmeiras do Cerrado e no papel essencial da conservação científica para garantir água, alimentação e resiliência ambiental.

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Nos corredores do Plantarum, em Nova Odessa, localizado à 22 quilômetros de Campinas, cada planta conservada conta uma história de sobrevivência. Lorenzi chama a atenção: entre as espécies mais críticas figuram as palmeiras (família Arecaceae). “Considero o grupo das palmeiras como o mais crítico pela vulnerabilidade dos ecossistemas onde está inserido, particularmente no bioma Cerrado. São cerca de 308 espécies conhecidas da ciência atualmente, tendo a maioria das espécies presente na vegetação de cerrado lato sensu pela topografia favorável à expansão da fronteira agrícola; já há algumas espécies extintas neste bioma”, afirma. O destino dessas palmeiras ilustra uma realidade mais ampla: a perda de espécies não significa apenas um prejuízo para a ciência. Ela afeta a regulação da água, a fertilidade dos solos e também a vida cotidiana das populações. O buriti (Mauritia flexuosa), por exemplo, é ao mesmo tempo recurso alimentar, matéria-prima artesanal e símbolo cultural para comunidades rurais.
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Último recurso
Diante do avanço do desmatamento e da insuficiência de áreas protegidas, o Plantarum aposta na conservação ex situ: manter coleções vivas de plantas fora de seu habitat natural. Essa prática não substitui a proteção in situ, realizada no próprio ambiente natural da espécie, garantindo a preservação do ecossistema como um todo, mas constitui um recurso decisivo para evitar a extinção de espécies fragilizadas. “A conservação ex situ é importante como um último recurso para a sobrevivência de algumas espécies em perigo quando não há unidades de conservação em todos os ecossistemas em quantidade e área suficientes para isto, porque não há outro meio de garantir a sobrevivência de populações em risco no seu habitat natural. Em condições ex situ se pode estudar melhor as características de reprodução destas espécies e ainda produzir sementes para sua disseminação”, explica Lorenzi.
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Assim, espécies da Mata Atlântica, da Caatinga e da Amazônia encontram no Plantarum um espaço de sobrevivência que pode, no futuro, reforçar a resiliência de seus ecossistemas de origem.
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As pesquisas do Plantarum buscam compreender como as plantas se reproduzem e como resistem quando são reintroduzidas. Lorenzi sublinha: “Aqui fazemos pesquisa de reprodução das espécies visando conhecer melhor a sua capacidade de sobrevivência quando levadas novamente para o seu habitat natural. Este tipo de trabalho é básico para salvar uma espécie em perigo e pode ser repetido em qualquer jardim botânico ou entidade de pesquisa de plantas.”
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Essa dimensão mostra que a conservação não é responsabilidade de um único local, mas de uma rede de instituições capazes de agir em complementaridade. O professor e biólogo Luiz Padulla reforça essa perspectiva e afirma que “é fundamental que haja incentivo e apoio direto aos centros de pesquisa e jardins botânicos, porque somente com políticas públicas consistentes essas redes poderão garantir a preservação e a reintrodução de espécies ameaçadas.”
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Preservar plantas não é uma questão abstrata. Cada espécie perdida leva consigo potenciais de alimentação, remédio ou matéria-prima. Na Amazônia, o açaí (Euterpe oleracea) tornou-se tanto motor econômico quanto alimento básico. Na Caatinga, o umbuzeiro (Spondias tuberosa) é vital para populações em períodos de seca. Para Lorenzi, proteger a flora brasileira é também garantir às próximas gerações um patrimônio genético capaz de responder a necessidades ainda desconhecidas em um mundo marcado pela instabilidade climática.
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Preservar para o futuro
À medida que a comunidade internacional se prepara para negociar novos compromissos climáticos, a mensagem é clara: a luta contra o aquecimento global não pode ser separada da preservação da biodiversidade. As palmeiras do Cerrado, assim como tantas outras espécies, são indicadores da saúde dos ecossistemas dos quais o país depende.
Ao reunir ciência, conservação e ensino, o jardim botânico de Nova Odessa oferece um exemplo do que o Brasil pode apresentar em Belém: a capacidade de transformar a riqueza natural em estratégia de sobrevivência coletiva.
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Realizações científicas e culturais deverão servir de referências práticas para os debates internacionais que acontecerão em novembro em Belém. A presidência brasileira da COP30 já definiu suas prioridades: adaptação, biodiversidade, financiamento climático e implementação do Acordo de Paris.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana
