De jovens a idosos, o uso da ferramenta generativa revela como cada geração se relaciona com a tecnologia e desperta a discussões
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Por Giovana Gazzetta e Leticia Bordinhon
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O uso da Inteligência Artificial, como o Chat GPT, já faz parte do cotidiano de muitas pessoas. Pesquisa realizada pela Ipsos em parceria com o Google mostrou que, em 2024, 54% dos brasileiros usaram IA generativa, número acima da média global de 48%. Cada pessoa faz uso da plataforma para funções específicas, como estudar, trabalhar ou até mesmo compartilhar os seus sentimentos. Algumas gerações ainda desconhecem a ferramenta. Aliás, para que exatamente ela foi criada? Quais os impactos?
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O professor Evandro Veronez, da área de tecnologia, negócios e marketing da Faculdade de Engenharia de Sorocaba (Facens), define a Inteligência Artificial como o campo da ciência da computação que estuda e desenvolve sistemas capazes de realizar tarefas que normalmente exigiria inteligência humana – como aprendizado, raciocínio, percepção, compreensão da linguagem e tomada de decisão. Nesse contexto, ele explica: “O Chat GPT foi construído para ser um assistente conversacional versátil, que combina aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural para apoiar pessoas em tarefas de comunicação, aprendizado e criação de conteúdo”. Na prática, porém, o uso da IA pode fugir bastante desse propósito inicial. Afinal, como as gerações estão recorrendo ao Chat GPT em seu dia a dia?
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Com apenas 10 anos, Juan Diego Cazatti, conhece a plataforma, mas nunca usou o Chat GPT. Juan conta como utilizaria: “Eu usaria para fazer o trabalho de geografia e de ciências. É difícil ter ideias para fazer as maquetes”, afirma. A fala do estudante revela a curiosidade de conhecer e experimentar o novo, o qual, neste caso, se não for controlado pode ser nocivo ao desenvolvimento da criança.
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Enquanto Juan ainda não teve contato com a ferramenta, os irmãos Matheus e Luana Rocha, ambos estudantes, afirmam que a utilizam em grande parte das tarefas. Matheus, 16 anos, prefere utilizar inteligências artificiais para otimizar tempo, porém relata que já recebeu respostas erradas, vindas do Chat GPT, e mesmo assim não as conferiu. “O Chat GPT facilita a vida, mas também deixa a sociedade mais preguiçosa”, compartilha. Luana, por sua vez, tem 20 anos, é universitária e estagiária. Ela recorre à IA quando precisa realizar atividades acadêmicas e ter insights. Além disso, já usou o Chat GPT como conselheiro de vida. “Uma vez, contei sobre uma situação que uma pessoa teve comigo e perguntei qual a opinião dele, qual caminho eu deveria seguir, se minha atitude estava certa e o que eu deveria mandar de mensagem para ela”, explica.
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A Inteligência Artificial está cada vez mais presente no mercado de trabalho. A CEO da Xtrack, Daniele Piazzi, 39 anos, usa a tecnologia diariamente há um ano, e chegou a investir em uma plataforma que integra diferentes tecnologias. Hoje, conta com agentes de IA que colaboram ativamente nos projetos de sua startup, agregando valor real às entregas. “Meu agente de IA entra nas reuniões, toma nota, faz a lista de tarefas com prazos e responsáveis. Passei a ficar mais concentrada nas reuniões só pelo fato de não precisar ficar escrevendo e tomando notas”, relata.
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Além do uso profissional, Daniele já utilizou a IA para analisar um conjunto de exames e histórico médico desde 2019. “A ferramenta conseguiu levantar hipóteses diagnósticas que eu ainda não havia considerado e me direcionou para o especialista mais adequado. Essa hipótese foi confirmada na consulta médica, o que otimizou meu tempo e aumentou a assertividade no tratamento”, compartilha. A CEO também comentou que mesmo fazendo terapia semanalmente, ela recorre à IA para um apoio: “Às vezes recorro à IA para obter um ponto de vista diferente”. Apesar da tecnologia estar presente em grande parte do seu dia e de sua rotina, Daniele reconhece que existem partes que não podem ser substituídas, especialmente na questão da sensibilidade e autonomia humana.
A aposentada Maria José de Almeida Mello, 70 anos, que atuou como Procuradora da Fazenda Municipal, conhece a Inteligência Artificial pelo meio jurídico, mas nunca utilizou a ferramenta. Ela conta que, se recorresse à IA, seria como suporte aos inúmeros modelos de ação, bem como Jurisprudência. Além disso, usaria para pesquisas em geral, como novas receitas culinárias ou conteúdos que ampliassem seu conhecimento. Maria José ainda busca informações no Google. Mesmo assim, acredita que as respostas seriam confiáveis e dispensaria conferência: “Acredito que as respostas são confiáveis, haja vista que apresentam maior concentração de ideias, e exemplos para cada assunto questionado”. Apesar de reconhecer o potencial da tecnologia, ela ressalta que nunca a utilizaria como psicóloga, por entender que a IA é puramente técnica e incapaz de lidar com questões subjetivas.
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Em 2025, a Harvard Business Review publicou uma pesquisa que detalha os usos da Inteligência Artificial na vida cotidiana e este estudo revelou que a utilização para terapia e companheirismo digital ocupa o primeiro lugar. A Mestra em Educação, Patrícia Culhari, é pedagoga e estudante de psicologia e compartilhou que essa situação iniciou com um desconhecimento do papel do terapeuta e sensação de auto-suficiência, sendo que esse cenário é muito perigoso. “A capacidade diagnóstica não é apta para trazer um laudo médico e terapêutico formal, afinal, dentro delas falta uma evidência científica robusta para que isso seja usado como uma ferramenta psicoterapêutica”, afirma.
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“Eu vejo que a diferença está em como cada geração é atingida pelas tecnologias. A geração alfa – nascidos a partir de 2010 – tem um risco de dependência precoce; os jovens da Z hoje procuram a IA para automatizar processos, serem criativos e buscarem uma identidade uma socialização; os adultos precisam entender que ela deve vir aliada para continuar no emprego e os idosos – ou baby boomers – têm o risco da exclusão digital quando eles não entendem o funcionamento ou não têm acesso à elas”, compara a pedagoga.
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Patrícia, por outro lado, comenta que as tecnologias não substituirão os profissionais da ciência da vida. “Muito se fala na Faculdade de Psicologia do social e entender sobre o ser humano como um todo, no contexto que está inserido, e isso a IA não faz”.
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A presença da Inteligência Artificial já não pode ser vista como algo distante ou passageiro. Se anteriormente era uma ferramenta experimental, agora ela se integra de forma natural no cotidiano dos indivíduos. Entretanto, diante dos debates éticos e da possibilidade de alucinações (informações inconsistentes com a realidade) e a ausência de evidências científicas confiáveis, é preciso legislações que regulamentam as plataformas, a fim de respeitar o limite humano.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

