Pesquisa mostra como a poesia falada consegue ampliar protagonismo de estudantes e desafiar os limites das salas de aula
Por: Diogo Mosna e Larissa Idem

A poesia falada vem ganhando novos sentidos na sala de aula. O gênero performático conhecido como slam, nascido nas periferias e alimentado pelo rap e pelo hip-hop, tem conquistado espaço como prática pedagógica. Foi essa experiência que o educador Michel Marcelo Monteiro dos Santos transformou em objeto de pesquisa em sua dissertação de mestrado defendida na Unicamp, intitulada Poesia e educação
emancipatória: o slam como manifestação artística.
A proposta do trabalho é analisar o slam como ferramenta de emancipação educativa e expressão de subjetividades, sobretudo entre jovens negros da escola pública. A
dissertação combina vivência docente com reflexão crítica e revela tanto o impacto da poesia quanto as barreiras institucionais ao seu uso em sala de aula.
Da Flip à escola pública
O interesse pelo slam surgiu em 2018, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ao conhecer coletivos como o Slam da Guilhermina e acompanhar apresentações do Slam Interescolar, Michel passou a adotar o gênero em suas aulas de Língua Portuguesa.
As primeiras experiências ocorreram em escolas da região metropolitana de São Paulo. Em uma delas, o trabalho foi bem recebido. Em outra, houve resistência por parte da equipe gestora, o que levou à interrupção do projeto.
“Na segunda escola em que desenvolvi a pesquisa, houve resistência desde o início. Chegamos ao ponto de haver representação na diretoria de ensino, e fui forçado a interromper o trabalho”, relata Michel. Mais tarde, o educador encontrou acolhida em Mongaguá, no litoral paulista, onde o slam já integrava o Festival Estudantil Mongaguá de Cultura (FEMC). Ali, o projeto pôde ser desenvolvido com liberdade e apoio.
O pesquisador destaca que as vozes mais marcantes nas batalhas poéticas eram de meninas negras, muitas vezes participando pela primeira vez de uma experiência de fala pública e artística. “Uma aluna negra retinta começou a fazer a transição capilar e passou a escrever poesias sobre a própria pele. Foi muito forte”, relembra Michel.
A prática do slam, segundo ele, amplia a ideia de literatura ensinada na escola. Não se trata apenas de aplicar conteúdos previstos no currículo, mas de permitir que a criação literária aconteça a partir da vivência, do território e das referências culturais dos próprios estudantes. “Os alunos bebem de outras fontes, como o rap e o hip-hop. O slam nasce dessas referências e do desejo de falar. O que fazemos é abrir espaço.”
Obstáculos
Apesar do potencial transformador, Michel relata que enfrentou obstáculos institucionais para realizar o projeto. Em algumas escolas, a linguagem dos poemas foi considerada inadequada, e houve tentativa de censura. “Fui impedido de aplicar certas poesias por causa de palavras que a gestão julgava ‘inapropriadas’. E eu disse: vai ter a palavra!”, afirma.
A resistência, para ele, está ligada a uma ideia restritiva de cultura e de currículo, que desconsidera práticas de origem periférica como formas legítimas de produção literária. “O slam não é tratado como linguagem artística. É como se não fosse literatura. Isso é decepcionante, diante da potência que ele tem.”
Uma pesquisa ancorada na experiência
A dissertação de Michel parte de sua própria trajetória como educador e pesquisador. Ele relata e analisa situações vividas ao longo do desenvolvimento do projeto, refletindo sobre os impactos da prática poética no ambiente escolar. O trabalho dialoga com autores da teoria crítica, como Kant e Adorno, especialmente em torno da ideia de emancipação e formação do sujeito. “A emancipação ocorre quando o sujeito já não precisa de um tutor para compreender o mundo. A educação precisa caminhar nessa direção”, defende.
Embora o trabalho não apresente dados quantitativos nem metodologia experimental, ele se ancora na experiência direta e na escuta atenta de estudantes que, pela primeira vez, se viram como autores da própria voz. Michel afirma que qualquer educador interessado em levar o slam para a sala de aula precisa, antes de tudo, ouvir os estudantes e articular o projeto com a gestão escolar. “É preciso conversar com os alunos, entender o território, envolver a gestão. Se houver apoio, é uma experiência pedagógica transformadora.”
Mas ele também reconhece que nem sempre a estrutura da escola está preparada para acolher práticas emancipatórias. “Há um bloqueio automático. O currículo precisa ser seguido, e isso entra em conflito direto com expressões artísticas espontâneas.”
Palavras que educam
A pesquisa mostra que o slam pode funcionar como ferramenta de escuta, identidade, empoderamento e crítica. Ao criar espaço para que jovens expressem seus sentimentos, ideias e conflitos, a poesia falada rompe silêncios estruturais e revela saberes invisibilizados. “O slam cria espaços onde os jovens podem se ver e se ouvir, e isso é profundamente pedagógico”, resume o pesquisador.
Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

