Ciência e Tecnologia

Hidrogênio verde ganha espaço na agenda energética

Pesquisadores do Centro Nacional de Energia e Materiais apontam potencial do Brasil em se tornar líder global no segmento

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Pesquisador apresenta sistema de monitoramento em unidade experimental de produção de hidrogênio verde, no Rio de Janeiro (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

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Por Bruna Azevedo

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Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) publicaram na revista Applied Energy um estudo que destaca o potencial brasileiro na produção e exportação de hidrogênio verde, alternativa energética considerada estratégica na transição para economias de baixo carbono.

hidrogênio verde é obtido por meio da eletrólise da água, processo que separa hidrogênio (H₂) e oxigênio (O₂) utilizando eletricidade gerada por fontes renováveis, como a solar e a eólica. Diferentemente dos combustíveis fósseis, sua produção não emite gases de efeito estufa.

Com cerca de 83% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o Brasil reúne condições atraentes para avançar nesse campo. Segundo Carlos Driemeier, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, há uma combinação de fatores técnicos e estruturais que posicionam o país como um potencial fornecedor global. Ele afirma que, mesmo com os custos iniciais elevados, há viabilidade ambiental e econômica. Para ele, “o Brasil tem condições de desenvolver uma cadeia produtiva ambientalmente viável e economicamente atrativa”.

Além do aspecto tecnológico, o estudo está inserido em um projeto mais amplo voltado à produção de combustíveis sustentáveis para o setor da aviação. De acordo com o Balanço Energético Nacional (BEN), em 2022 o setor de transportes foi responsável por cerca de 44% das emissões de carbono no país, o equivalente a 223,8 milhões de toneladas de CO₂. Essa dependência de combustíveis fósseis evidencia a necessidade de soluções como o hidrogênio verde para segmentos difíceis de eletrificar, como o transporte de longa distância, a siderurgia e a indústria química.

No campo regulatório, o Brasil aprovou em agosto de 2024 a Lei do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono. Essa legislação ainda será regulamentada, mas já sinaliza a intenção do país em estabelecer diretrizes próprias. “No âmbito doméstico, a resposta é sim, o Brasil vai criar uma regulação própria”, diz Driemeier. Para ele, um ponto crucial será garantir que essa regulação seja tecnicamente sólida e reconhecida internacionalmente.

Outro aspecto destacado pelo pesquisador é o caráter pioneiro da experiência brasileira. “Essa discussão no Brasil antecipa algo que os outros países vão vivenciar quando suas redes elétricas também forem altamente descarbonizadas, como a brasileira já é”, afirmou o cientista. Segundo ele, características como a integração de fontes renováveis, a conexão a longa distância e a presença de energia armazenada tornam o sistema brasileiro um modelo de referência para debates internacionais.

Apesar do cenário promissor, ainda existem desafios relevantes. A falta de infraestrutura para produção, armazenamento e distribuição do hidrogênio, os custos elevados dos projetos, a carência de profissionais qualificados e a ausência de uma regulamentação estável são apontados como entraves à consolidação do setor.

Para que o Brasil transforme esse potencial em vantagem econômica real, será necessário desenvolver uma regulação robusta e alinhada às exigências globais. “Aquilo que for feito no Brasil precisa ser reconhecido como algo tecnicamente correto, reconhecido internacionalmente”, reforça Driemeier.

O hidrogênio verde representa uma oportunidade importante no contexto da transição energética e das metas climáticas. No entanto, sua consolidação dependerá da superação de obstáculos técnicos, econômicos e políticos, além da construção de um ambiente regulatório estável e transparente.

Ouça aqui um trecho da entrevista com o pesquisador Carlos Driemeier.

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Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

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