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Quando o cinema ajuda a ciência a traduzir seus saberes 

Obra de Bong Joon-Ho inspira pesquisa da Unicamp sobre como a arte enfrenta o negacionismo 

Por Ana Beatriz Barbosa e Gustavo Tintori 

Pesquisador investiga papel dos filmes na tradução de conceitos científicos (Foto: Acervo Pessoal)

A filmografia do cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho, autor de obras premiadas como “Parasita”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020, é amplamente reconhecida por seu impacto tanto na crítica quanto no público. Inspirado por esses filmes, o educador ambiental Caio Chung Micca, da Unicamp, dedicou sua pesquisa de mestrado ao enfrentamento do negacionismo climático por meio de três obras do cineasta: “Expresso do Amanhã” (2013), “Okja” (2016) e “Parasita” (2019). 

A dissertação de mestrado de Micca, desenvolvida no Instituto de Estudos da Linguagem e no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, investiga como esses filmes podem ser utilizados para traduzir complexos conceitos científicos e sensibilizar o público sobre as mudanças climáticas, destacando o papel crucial da arte no combate ao negacionismo climático. “A literatura, o cinema, a pintura são linguagens que a gente tem usado para tentar entender e, de alguma forma, frisar a realidade”, destacou o pesquisador em entrevista para o Digitais. 

O filme “Expresso do Amanhã” retrata um futuro pós-apocalíptico, onde a Terra está congelada devido a uma falha em uma tentativa de reversão do aquecimento global. Os sobreviventes vivem em um trem que circula perpetuamente ao redor do globo, com a sociedade dividida em classes sociais extremas. O filme destaca as consequências de intervenções humanas catastróficas no clima, servindo como uma alegoria para a falta de ação ou ação inadequada frente à crise climática. 

O filme “Okja” segue a história de uma menina e seu superporco geneticamente modificado, Okja, criado por uma corporação que visa resolver a crise alimentar global. A narrativa aborda temas de direitos dos animais, corporações corruptas e a luta por justiça. O filme expõe como grandes corporações podem manipular a informação e perpetuar o negacionismo climático para proteger seus interesses, destacando a desconfiança pública em relação às corporações e sua influência na ciência e na política. Além disso, “Okja” utiliza a relação emocional entre a menina e seu superporco para sensibilizar o público sobre questões ambientais e a necessidade de mudanças no comportamento humano. 

Já o filme “Parasita” aborda a luta de uma família pobre para sobreviver infiltrando-se na vida de uma família rica, culminando em uma série de eventos trágicos. Embora não aborde diretamente questões climáticas, o filme explora temas de desigualdade social e moralidade. “Parasita” ilustra como as desigualdades sociais exacerbam a vulnerabilidade de certas populações às mudanças climáticas, destacando a interseção entre justiça social e ambiental. A luta diária das classes sociais mais baixas pode tornar os impactos das mudanças climáticas menos visíveis e menos urgentes para essas populações, contribuindo para uma forma de negação passiva. O filme também reflete sobre as estruturas de poder e privilégio que perpetuam a ignorância e a inação frente às crises globais, incluindo a climática. 

Apresentação da pesquisa Cinema e Negacionismo Climático da AUGM, na Universidade Nacional de Assunção do Paraguai. (Foto: Arquivo pessoal)

O cinema é pesquisado por Micca como uma forma de ampliar o olhar científico para questões que impactam diretamente o nosso cotidiano. “Não basta mais a gente colocar um homem branco, cis, hétero, falando em termos científicos o que as pessoas precisam fazer. Acho que a gente precisa trazer essas pessoas para a ciência, para fazer científico e repensar essa lógica da ciência ocidental, de que existem saberes que são mais importantes que outros”, acrescentou.  

O educador ambiental também destaca que a pesquisa, ao focar no cinema e em suas potencialidades, traz novas formas de ver o mundo. “Repensar a importância das imagens e do imaginário é essencial para fazer as conexões entre a nossa realidade e a vida concreta das pessoas, a realidade climática e a realidade do dia a dia”, acrescentou Micca. 

Na pesquisa, o autor destaca que a arte tem a capacidade de traduzir complexos conceitos científicos em experiências emocionais e tangíveis, tornando temas abstratos, como a emergência climática, mais acessíveis e compreensíveis para o público em geral. Ele aponta que essa interação entre arte e ciência não só enriquece o conhecimento coletivo, mas também promove um engajamento mais profundo e pessoal com questões críticas, incentivando mudanças de comportamento e atitudes essenciais para enfrentar os desafios globais. 

Orientação: Prof. Artur Araújo
Edição: Mariana Neves

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